Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Domingo, Julho 25, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

“Pai”, por Bruno Neto

No dia da minha última viagem de regresso a Portugal para umas pequenas férias estava atarefado as fazer malas, e a pensar que ainda tinha de ir comprar as últimas pequenas coisas para levar, quando me bateram à porta. O guarda, Ali, grita por mim. Eu abro a porta, ele diz-me que tenho visitas. Visitas? A um sábado de manhã, quando todos os meus amigos e amigas já sabem que estou de partida, que vou viajar?! Estranho.

- Publicidade -

Mas depois vejo o Sahr, que é um dos care-takers (caseiros) da minha organização, a Solthis. O Shar trabalha durante a semana no compound onde vivem os nossos trabalhadores estrangeiros. Pergunto-lhe se está tudo bem, se precisa de alguma coisa. Ao mesmo tempo vejo por trás dele várias mulheres e penso naturalmente no pior, que algo de grave aconteceu, uma morte ou algo de muito sério, para estarem todas aquelas pessoas com ele.

Não tenho muito tempo para pensar porque de imediato ele diz que me quer apresentar a sua família. Quer que conheçam o chefe dele.

- Publicidade -

Toda a gente entra, sentam-me à minha mesa. Ofereço água e depois de tudo sereno, o Sahr explica o propósito da visita. Em Krio (língua nacional) que é um broken english (que já vou consigo perceber bastante), ele explica à sua família, com os olhos molhados, que eu sou o “Pai” dele de Freetown, que eu tomo conta dele e da sua família e que quer agradecer em frente da sua família, que é toda do interior, que aqui eu sou o seu pai e que tudo tem a agradecer, até porque também não sou como os anteriores chefes.

Naturalmente devem estar a pensar que lhe salvei a vida, ou lhe dei dinheiro, ou qualquer coisa semelhante mas não. E esta é a parte que me afecta bastante e que partilho convosco.

Eu sou uma pessoa normal, trato todos os trabalhadores da minha organização com decência, dou-lhes e garanto-lhes todos os direitos e sou o primeiro a exigir brio em todos os seus deveres. Uma vez ele pediu-me emprestados o equivalente a 15 euros, para que a mãe, que estava doente, pudesse viajar do interior onde mora até ao hospital de referência da capital. E quando recebeu o seu pequeno salário veio de imediato devolver-me o dinheiro. Por isso, nada, mas nada fiz mais que não faria por qualquer uma outra pessoa.

A minha questão é: o que é que aconteceu nestes últimos séculos que criou esta subserviência hiperbólica, esta relação de ‘inferior’ vs ‘superior’?

Todos os dias desconstruo isto, todos os dias sou simplesmente humano, nada mais sou que justo. Não é a primeira vez que isto me acontece e perturba-me imenso pensar que ser ‘branco’ e ser minimamente bondoso vai significar automaticamente ser o ‘Pai’, ser o irmão mais velho. Quer isto significar que grande parte dos ‘brancos’ continuam a colonizar os pensamentos, as memórias, a história ou as estórias da vida de tanta gente em África?

Dói pensar em tudo o que o colonialismo provocou no passado e nestas enormes feridas abertas que continuam a manipular as relações, a manipular os direitos e a não deixar que a equidade, que a justiça, que a paridade sejam uma realidade ainda num futuro par de gerações.

No fim, quiseram tirar uma fotografia comigo. Engoli em seco todas aquelas emoções que travavam a respiração… entendi que, mesmo depois de tantos anos pós-colonialismo, ainda estamos numa fase demasiado inicial e com tanto por se fazer para termos um mundo global, sem etnocentrismo, sem superioridades existenciais ou mesmo sem que não sejamos todos seres humanos ao mesmo nível (?!).

A única coisa que prometo, e estará em todas a minhas atitudes e acções, é o meu continuo comprometimento e luta pela dignidade humana, porque estas linhas existenciais continuam ainda a atar demasiado o desenvolvimento e todo o exponencial de África.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here