“Padroeiro de Constância: São Julião, Santo Barqueiro”, por António Matias Coelho

São Julião num baixo-relevo da igreja de St. Julien le Pauvre, Paris, século XIII

Há muita gente que pensa que a padroeira de Constância é Nossa Senhora da Boa Viagem. O equívoco resulta da força que adquiriu a bicentenária tradição da Festa que os marítimos faziam todos os anos, pela Páscoa, em honra da sua protetora e que no nosso tempo, mesmo já não sendo os rios o que foram noutras épocas, continua a ter uma dimensão e um encanto assinaláveis.

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Os padroeiros de Constância, porque de um casal se trata, são São Julião e Santa Basilissa, cuja festa a Igreja Católica celebra a 29 de janeiro. São Julião, santo barqueiro – uma ajustada escolha para patrono de uma terra com dois rios e muita vida, sempre a precisar de passar de uma margem para a outra.

Julião parece nome talhado para santo: de facto, poucos como Julião designam um tão grande número de criaturas a quem a Igreja Católica, reconhecendo méritos e obras, distinguiu com a santidade, ao todo 43.

É por isso natural que, com frequência, se confundam uns com os outros e se atribua a um características, qualidades e defeitos que afinal a outros pertencem. Além disso, não podemos esquecer que a devoção popular, que é feita mais de afetos do que de teologia ou de história, é pouco dada a rigores e facilmente cria lendas, ao sabor da imaginação, que a certa altura não se sabe bem se têm real fundamento ou se resultam apenas da inesgotável capacidade criativa que o povo tem.

O São Julião de Constância, que obviamente não escapa à regra, transporta consigo bondades e pecados que a tradição lhe atribui e que, em rigor, ninguém poderá garantir que sejam bem assacados.

Há uma coisa que é certa: que existiu um Julião, homem bondoso e caritativo, nos princípios da cristandade, casado com Basilissa, também ela mulher de coração generoso e amiga de ajudar os mais precisados de auxílio. Viveram no Egito, então província romana, e foram vítimas da espada perseguidora do imperador Diocleciano, preocupado com o avanço do cristianismo, que mandou matar muitos dos que se distinguiam nas suas comunidades, geralmente praticando o bem. Julião e Basilissa sofreram martírio em Alexandria, no ano 304, juntamente com diversos outros membros do grupo de cristãos a que pertenciam. É este casal, mais tarde santificado pela Igreja, que Constância tem como padroeiro.

São Julião e Santa Basilissa num quadro de Pompeo Batoni, 1736

A que se deverá a escolha e quando terá ela sido feita são perguntas para as quais não há respostas seguras. Sabemos que a primitiva matriz de Punhete – como se chamou Constância até ao século XIX – era dedicada a São Julião e não há memória nem registo documental conhecido de alguma vez ter havido outra invocação antes dela.

Sabemos também que essa antiga matriz de São Julião se situava perto da confluência do Zêzere com o Tejo, onde agora é a Praça, e aí poderá estar uma hipótese de justificar a escolha deste santo para protetor da terra: é que foi São Julião barqueiro, ou diz o povo que foi, e facilmente se entende a necessidade da sua proteção para uma comunidade com dois rios para atravessar, no tempo em que não havia pontes e dos barcos se valia, mais dos barqueiros que asseguravam o ir e vir de uma margem à outra.

Mas vamos à história do santo, ou ao que dele se conta, mesmo que apenas lenda seja, como provavelmente será (1).

Começa por ser uma história triste, de um pobre homem que, por lamentável engano, matou o pai e a mãe. Gostava Julião de caçar e, andando um dia caçando, lhe terá dito um veado, em tom de maldita predição, que haveria de matar quem lhe tinha dado a vida. Ficou Julião estarrecido com o vaticínio do animal e, tentando contrariar a má sorte que lhe era anunciada, resolveu não voltar a casa e ir viver para muito longe, onde não mais pudesse encontrar-se com os pais. Por lá ficou e casou e foi feliz algum tempo, vivendo num lindo castelo.

Preocupados com a estranha ausência do filho, que tanto se prolongava, resolveram pai e mãe pôr pés ao caminho em busca de Julião. E, depois de muito andarem, quis o destino que fossem dar ao dito castelo onde Julião morava. Não estando ele em casa, foi a mulher quem recebeu os viajantes que chegavam e depressa percebeu, pela descrição que fizeram, que estava perante os sogros a quem logo deu hospedagem. E resolveu acomodá-los no próprio quarto do casal, indo dormir para outra dependência até Julião voltar.

Ora Julião voltou e foi direito ao seu quarto, saudoso de sua esposa. E em entrando percebeu que afinal em sua cama havia dois que dormiam… Nem tempo teve de pensar, de tal modo convencido de que a mulher o engana. Puxou da espada e num instante matou os dois que ali estavam deitados.

Quando percebeu que matara mãe e pai e que cumprida estava a profecia do veado, o pobre Julião ficou desolado e decidiu impor a si próprio uma dura penitência para expiar o seu terrível, apesar de involuntário, pecado. Abandonou o castelo, levando consigo a esposa e foram para muito longe, «fixando a sua residência na margem de um caudaloso rio, precisamente no lugar onde muitos passageiros, ao tentar atravessá-lo, ou morriam afogados ou corriam grandes riscos de perecer arrastados pela corrente» (2). Aí edificaram uma hospedaria para alojar, gratuitamente, os caminhantes e os pobres e dedicaram-se por inteiro a ajudar os que cruzavam o rio em tão arriscada travessia.

O Senhor foi sensível à penitência que Julião se impôs e um dia mandou à hospedaria um anjo, vestido de peregrino, que lhe anunciou que Deus o tinha por justo, tal como a sua mulher, e que brevemente descansariam em paz de tanto esforço despendido para ajudar os outros.

A lenda de Julião parricida e matricida tem conexão com a história verdadeira de São Julião e de Santa Basilissa que, de facto, tiveram um hospício em sua casa, no Egito, onde ele tratava dos homens e ela das mulheres que se encontravam doentes ou necessitados. Ora estas obras de caridade cristã, muito próprias do cristianismo dos primeiros séculos, eram mal vistas pelo poder de Roma e sobre eles caiu a espada ímpia de Diocleciano.

São Julião e Santa Basilissa num quadro do século XVIII

A em Deus e o amor ao próximo são corporizados na lenda pela mãe e pelo pai e o golpe da espada imperial pelo ato homicida de Julião.

A relação direta do São Julião da lenda à travessia de um rio caudaloso num lugar de frequentada passagem torna óbvia, pelo menos como hipótese, a razão da escolha deste santo para orago de Punhete, para mais situando-se a igreja da sua invocação na proximidade dos rios, tão próximo que com frequência os rios entravam por ela adentro em tempo de cheias, assim a degradando e ditando a sua demolição.

Por esse motivo, desde 1822 a matriz de Constância é a igreja de Nossa Senhora dos Mártires, situada no ponto mais alto da vila. Mas as imagens que ocupam o trono, no altar-mor, ladeando a da patrona dessa igreja, são precisamente as de São Julião (reproduzida no alto desta crónica) e de Santa Basilissa, padroeiros de Punhete do tempo dos barcos e da Constância do tempo que vivemos.

Notas:

  • A obra em três volumes Santos de Cada Dia, organizada pelo padre José Leite e publicada pela Editorial Apostolado da Oração, de Braga, em 1985, contém abundante informação sobre a vida e a obra de todos os santos que a Igreja Católica celebra, entre os quais os São Juliões e, em particular, o São Julião, marido de Santa Basilissa, padroeiro de Constância (vol. I, p. 99-101).
  • Santiago de Vorágine, La leyenda dorada, I, cap. XXX, p. 141-146, tradução livre.

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