“Ovo de ouro do Sol”, por Armando Fernandes

Damascos. Foto: DR

A pele dourada e aveludada, a polpa tenra e sumarenta a desprender-se facilmente do caroço, que por sua vez encerra uma amêndoa perfumada e comestível, levaram os antigos a designarem (e bem) o conhecido damasco (alboricoque ou alperce) com o expressivo e poético epíteto de ovo de oiro do Sol. Se meditarmos no apodo de milénios intuímos o seu profundo alcance para lá dos prazeres sensoriais – visão, tacto, gosto na fase de maturação, maturação e excessiva maturação numa esfusiante paleta de sabores – para lá da sua associação a outras formulações culinárias, pasteleiras e de confeitos.

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Originário da China onde crescia a esmo passou para a Índia e dali viajou até à Pérsia, entrando na Europa após a conquista do genial Alexandre Magno. Fruto frágil deve ser cuidadosamente tratado, basta ser passado por água e consumido fresco em saladas, acompanhamentos de peixes brancos e guisados com carnes beneficiando as receitas com o seu perfume e valor nutritivo, rico em magnésio, vitamina A, cálcio e fósforo. Desprendeu-se da fama medieval de ser embrião da febre e ganhou merecida fama de proporcionar regalo palatal a quem o consome.

Em várias regiões secam-se damascos expostos ao sol em tabuleiros de madeira, ao fim de alguns dias a coloração atinge tom de vermelho escuro e estão prontos a enriquecerem compotas, bolos, gelados e sorvetes.

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O damasco evoca a antiga magnificente cidade de Damasco, expoente da alta cozinha muçulmana cujo requinte rivalizava com Bagdad pois além da profusão de experimentações culinárias também os convivas bebiam aguardente de damasco, discutiam artes e ouviam música e viam as ondulações das bailarinas. A opulência de Damasco chegava a todas as partes do califado, Córdova e Granada o atestaram no apogeu da sua grandeza.

Os receituários culinários muçulmanos legaram-nos inúmeras receitas de vários matizes, escalonadas no calendário, outras passíveis de confecção em qualquer altura do ano. As almôndegas são exemplo cristalino do ora afirmado.

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O damasco por estas bandas não logra grande aceitação no confronto com outras frutas, os caçadores de frutas não se importam. Eles sabem porquê!

PS. Há anos gastei tempo e ganhei algum conhecimento acerca dos discretos para não dizer secretos caçadores de frutas que detestam fotos e publicidade.

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