Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Domingo, Julho 25, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

Ourém: Viver em “Covas da Raposa” e não ter como sair de lá

O projeto do Transporte a Pedido arrancou em Ourém na terça-feira, 1 de março, com o transporte de quatro utentes no circuito de Freixianda (2) e no circuito de Seiça (2). O mediotejo.net acompanhou a viagem, com cerca de quatro quilómetros, de uma idosa entre Covas da Raposa, freguesia de Seiça, e a extensão de saúde de Seiça. Ainda há quem fique isolado dentro de uma aldeia! E não tenha mesmo forma de sair de lá…

- Publicidade -

“Uma pessoa fica cansada de viver de favores” comentava uma utente, desempregada, acabada de chegar no táxi do Transporte a Pedido à extensão de saúde de Seiça, no momento em que o mediotejo.net abandonou as instalações. Esta é também a história de Piedade Oliveira, 80 anos, com um marido acamado devido a uma AVC e sem grandes possibilidades de fazer pequenas viagens à sua sede de freguesia ou a Ourém. As paragens de autocarro ficam a cerca de 700 metros da sua moradia e a idosa já não tem capacidade motora para grandes deslocações, além de que os horários das carreiras são escassos e pouco práticos. Restam os filhos que a ajudam e lhe fazem as compras.

Piedade Oliveira e outra utente do Transporte a Pedido aguardam pelo médico na extensão de saúde de Seiça
Piedade Oliveira e outra utente do Transporte a Pedido aguardam pelo médico em Seiça

- Publicidade -

Piedade Oliveira precisava de ir ao médico. A ambulância foi buscar o marido para uma consulta de fisioterapia em Leiria, mas a idosa não tinha forma de se deslocar até Seiça na terça-feira, dia 1 de março, para a consulta. Através da extensão de saúde, foi informada de um serviço novo, o Transporte a Pedido. Foram os serviços da junta de Seiça que lhe marcaram a viagem e pelas 12h30 de terça-feira estava à espera do táxi na paragem do Transporte a Pedido em Covas da Raposa. A consulta no médico era às 13h e a ambulância deixaria aí o marido por essa hora, após a qual regressariam no mesmo táxi para casa.

Foi uma viagem inusitada para Piedade Oliveira, que confessaria mais tarde que nunca saiu da sua terra ou viu o mar. “Tudo o que se faz por estes idosos de 80 anos é bom”, começaria por afirmar, senhora forte e de tez autoritária, mas que se abre num sorrido quando começa a dar entrevistas. “Demos muito a este país, fomos uns escravos a trabalhar. Fomos a geração que mais trabalhou para este país”, repete várias vezes, sublinhando a vida de sacrifícios e as necessidades de apoio.

Caso não tivesse este serviço de táxi do Transporte a Pedido, a filha de Piedade Oliveira teria que perder parte de um dia de trabalho para levar a mãe ao médico. Isso ou pagar a um táxi de modo particular, serviço que também não sai barato. Isolada em Covas da Raposa, Piedade Oliveira refere que já não vai às compras desde que o marido ficou acamado. “Tenho que pedir às minhas filhas para me comprarem as coisas”, confessa, “não temos como sair dali”.

Transporte a Pedido em fase experimental

Existem 14 rotas definidas pelas 12 freguesias de Ourém, com duas específicas para a feira semanal de quinta-feira
Existem 14 rotas definidas pelas 12 freguesias de Ourém, com duas específicas para a feira semanal de quinta-feira

É a pessoas como Piedade Oliveira que o projeto do Transporte a Pedido quer chegar. Iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT), implantada já em Abrantes, Mação e Sardoal e que agora inicia um processo experimental no concelho de Ourém. No total existem 14 circuitos pelas 12 freguesias, com dois específicos à quinta-feira para levar quem precise à feira semanal de Ourém ou ao centro de saúde.

“Ao longo dos anos o serviço público da Rodoviária foi reduzindo”, constatou ao mediotejo.net o presidente da Câmara de Ourém, Paulo Fonseca, que acompanhou as viagens inaugurais de 1 de março. Em paradoxo “hoje precisamos de mais mobilidade”, razão pela qual a iniciativa do Transporte a Pedido é uma mais-valia no concelho. “Há uma rede devidamente organizada de transportes, definida por concurso público com os taxistas”, explicou, apelando de seguida às pessoas para que utilizem estes serviços. “A Câmara sustenta o défice que o serviço tiver”, mas um mesmo carro pode levar até quatro pessoas.

Para já estes trajetos são experimentais, pelo que se pede aos utentes que verificarem anomalias que as comuniquem às juntas de freguesia. Equaciona-se uma rota exclusiva para o Agroal, mas esta só fará mais sentido em época balnear. Os trajetos percorrem apenas o concelho de Ourém, mas se o serviço alargar a todo o Médio Tejo as necessidades poderão ser reajustadas, explicou Paulo Fonseca.

Em declarações recentes ao mediotejo.net, a CIMT já havia adiantado que, para além de Ourém, o Transporte a Pedido deverá iniciar-se em Tomar, Vila Nova da Barquinha e sul de Abrantes. As várias dúvidas dos utentes podem ser consultadas na página eletrónica da CIMT. Os serviços municipais e das juntas ajudam quem precise, mas as reservas dos transportes são realizadas através do número 800 209 226, de forma gratuita. Sãos os serviços do CIMT que asseguram o registo do transporte, discriminando as paragens a servir e os passageiros a recolher em cada paragem.

“Os serviços de Transporte a Pedido são, atualmente, realizados por táxis (de 8 ou de 4 lugares). No entanto, os veículos apresentarão um dístico que permitirá a sua fácil identificação e associação ao projeto. De forma a otimizar a utilização dos veículos, os horários indicados poderão sofrer um atraso, que não ultrapassará os 10 minutos”.

O bilhete é pago no local ao motorista, que passa o comprovativo. “Foram definidas quatro tarifas em função da distância: 1,60€; 2,80€; 4,00€ e 5,10€. Estes preços são mais elevados do que os preços cobrados nas carreiras interurbanas, mas inferiores aos praticados pelos táxis. Os preços foram definidos para garantir o equilíbrio possível entre as despesas e as receitas de modo a evitar graves prejuízos, podendo virem a ser alterados em função dos resultados desta experiência piloto nomeadamente do número de passageiros que aderirem a este projeto”.

E os taxistas?

Américo Freitas (ao centro) e os colegas fazem rotas nas freguesias do norte do concelho
Américo Freitas (ao centro) e os colegas fazem rotas nas freguesias do norte do concelho

O Transporte a Pedido veio trazer uma nova realidade e perspetiva de negócio aos taxistas de Ourém, que se organizaram para concorrer a este novo serviço de transporte. Em Seiça, o mediotejo.net falou com Américo Freitas, taxista na extinta freguesia de Formigais há 17 anos.

Depois de deixar Piedade Oliveira na extensão de saúde, teve que conduzir até às Fontainhas para trazer outra utente a necessitar do mesmo serviço. “Só sabemos os serviços no dia útil anterior”, explicou, referindo que faz as rotas de Formigais, Freixianda e Seiça.

Ainda que a nível financeiro o trabalho não seja muito compensatório, é uma nova possibilidade de gerir o negócio e ir ao encontro de novos clientes. Atualmente, os serviços de táxis na zona norte de Ourém estão muito fracos. “São mais os idosos ou para levar um emigrante para o comboio ou até Lisboa”, sintetiza. Um dos fatores desta situação, esclarece de seguida Américo Freitas, foi a perda das credenciais pelos taxistas, que lhes permitiam fazer o transporte de doentes. Esse serviço hoje é assegurado apenas pelas ambulâncias.

“Mas pronto, vamos tentar! É bom para a gente e para quem precisa”, é o derradeiro comentário de Américo Freitas, que vê com bons olhos o Transporte a Pedido na perspetiva dos utentes. “Os jovens desapareceram. Haverá certas zonas onde terá mais incidência”, pondera.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here