Ourém | Via-Sacra do Castelo celebrou 20 anos. Aproxima-se o tempo de redesenhar a tradição (c/vídeo e fotos)

António Gonçalves, 57 anos, já o afirmou noutros anos, mas tornou a admiti-lo quando se preparava para tornar a encarnar Cristo no 20º aniversário da Via-Sacra ao vivo do Castelo de Ourém, esta sexta-feira santa, 19 de abril: aproxima-se o momento em que terá que abandonar a personagem que o tornou famoso por terras oureanas e dar a vez a outro protagonista.

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Este ano voltou, porém, tornou a subir ao burro que o transporta na entrada triunfal pelas muralhas da vila e percorreu, mais uma vez, os penosos quilómetros de estrada calcetada com uma cruz às costas até ao cimo do Castelo. À sua volta, algumas personagens foram mudando de rosto ao longo do tempo, mas os protagonistas têm-se mantido essencialmente os mesmos, preservando uma identidade que já se tornou quase simbólica na encenação.

Foi um momento quase apoteótico: no preciso instante em que Cristo era condenado à morte na cruz, uma carga de chuva caiu do céu, escondendo por alguns minutos o sol e o céu azul que estavam a marcar uma agradável tarde na vila medieval de Ourém. Ao longo do percurso as condições climatéricas melhoraram, com a multidão reunida em torno da Igreja Matriz a seguir a procissão rumo ao cimo do morro, onde, frente ao Castelo, decorreu a derradeira cena da crucificação que marca a Semana Santa.

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O texto mantêm-se, assim como os cânticos e as vozes, acompanhando esta história de abnegação que se tornou intemporal.

António Gonçalves repetiu papel que o tornou conhecido no concelho, mas reconhece que o seu tempo está a terminar Foto: mediotejo.net

Uma parte da cerca de uma centena de figurantes que encarnam a Via-Sacra a vivo da vila medieval de Ourém percorre estes caminhos há 20 anos, desde que a encenação começou a ser montada pela mão de Norberto Barroca, seguindo-se o projeto, mais conceptualmente pensado em torno da paisagística do Castelo, por Mário Catarino, que coordena o espetáculo há 18 anos.

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Conforme explicou ao mediotejo.net, algumas figuras foram mudando com o tempo, mas os protagonistas têm-se mantido, criando um grupo coeso que todos os anos leva a bom termo a representação dos últimos passos da vida de Cristo.

Entretanto o espetáculo cresceu, ganhou algum destaque nacional e foi cativando interessados de outras freguesias do concelho e não só da comunidade da freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias. Hoje é uma Via-Sacra de todo o concelho de Ourém, que tem na sua vila medieval outro espaço marcante da religiosidade nacional.

A interpretação do arrependimento de Judas é um dos pontos mais intenso da encenação Foto: mediotejo.net

De todas as personagens, a que mais se destaca é o Cristo de olhos azuis e barbas fartas que vive há duas décadas a personagem e que, não obstante ter falado várias vezes em abandonar o papel, continua a repetir a penosa representação todos os anos. “É uma missão”, afirma, que vive com fé e poucas palavras, mas com um sorriso enorme pela ação cumprida. Na comunidade, António Gonçalves é hoje o “Cristo de Ourém”, título que enverga com manifesto orgulho.

Outra figura que se destaca nesta Via-Sacra, ainda que com uma breve aparição, é a da Judas, interpretada há alguns anos por Anacleto Gonçalves. Ator de Os Pépétos – Grupo de Teatro do Sobral, vive com intensidade a cena do arrependimento de Judas, não só proferindo as suas deixas com forte sofrimento, como também interagindo com o público.

A Via-Sacra da vila medieval marca o encerramento da Semana Santa em Ourém, aquém do programa religioso, com a missa de Páscoa no domingo, 21 de abril. Dentro da data aniversária, a Galeria Municipal tem ainda patente uma exposição coletiva sobre os 20 anos da encenação da Via-Sacra ao vivo.

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