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Domingo, Agosto 1, 2021

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Ourém: Um último fôlego para a “Tijomel” de Júlio Redol ( c/vídeo)

Considerada a melhor fábrica de cerâmica da Península Ibérica nos anos 60, a “Tijomel”, em Caxarias, Ourém, viria a morrer na instabilidade política e económica do pós-25 de Abril. Para a memória ficou o imponente edifício, hoje uma ruína que assombra a paisagem social da vila ferroviária. Ali se tiram fotografias de casamento, ali se refugiam sem abrigo, ali vai permanecendo uma estrutura mítica que ameaça ruir sem que algo de significativo seja feito com o espaço. Há um ano, três jovens de Ourém resolveram recuperar a história da “Tijomel”. E encontraram o fabuloso legado de Júlio Redol.

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Seria um intelectual, um personagem de caráter e grande espírito de trabalho, empreendedor, que criou na sua fábrica de cerâmica uma dinâmica empresarial e social pouco usual no seu tempo, sobretudo num ambiente profundamente rural como era o da então Caxarias. Uma faceta de Júlio Redol com que Rúben, Mélanie e Luís se depararam quase de forma inesperada, nas muitas entrevistas que realizaram para construir a exposição “Ao Redol da Tijomel”, patente no Museu Municipal de Ourém – Casa do Administrador até maio.

“Começámos com um parágrafo”, comentam os três amigos, todos licenciados em design industrial pela Escola Superior de Caldas da Rainha. O livro “CAXARIAS: A Terra e o Povo” revelar-se-ia porém insuficiente para empreender o trabalho a que se tinham proposto: “oferecer algo de nós a Ourém, a nível artístico e cultural”.

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Luís, Mélanie e Rúben têm 22 anos e são recém-licenciados em Design Industrial

Foi a responsável pelo Museu Municipal de Ourém, Ana Saraiva, que lhes falou na “Tijomel”. Um “monstro” abandonado em Caxarias, onde o grupo, inicialmente de cinco pessoas, pensou ocupar com diversas manifestações artísticas. O projeto foi-se afunilando, do grupo ficaram apenas três pessoas, e as ideias transformaram-se à medida que a informação foi sendo revelada. “Só sabíamos que tinha sido uma fábrica grande em Caxarias”, confessam, “nem sabíamos o que tínhamos à espera”.

O grande passo na investigação deu-se quando conseguiram contactar a filha de Júlio Redol (este faleceu no início dos anos 90), Maria Redol, que reside em Tomar. Inicialmente pouco recetiva à ideia de falar sobre a fábrica e o pai, a idosa acabou por receber os três jovens, com os quais criou afinidade. “Deu-nos essa oportunidade”, sublinham os amigos, admitindo que foi a partir deste encontro que o projeto começou realmente a desenvolver-se.

Na casa de Maria Redol descobririam o livro “X Aniversário”, uma obra de cariz familiar da autoria do escritor Alves Redol, primo direto de Júlio Redol, oferecida pelo décimo aniversário da “Tijomel”. Todo o trabalho seguinte foi de intensa descoberta sobre a personagem do industrial e da sua fábrica. Um homem profundamente apaixonado que acabaria por morrer com a sua obra e que se tornaria uma figura obscura entre os seus.

“Toda aquela família ficou a conhecer um avô, um bisavô, toda uma memória fechada em casa”, comentam os amigos, para quem esta reabilitação da memória de um homem de vanguarda e fortes ideais “já valeu a pena” a exposição e o documentário que realizaram. O filme venceu o Grande Prémio Regional António Campos.

Quando quem tomava banho recebia um prémio

Júlio Redol Nunes nasceu em Tomar em 1915. A morte do pai levou-o a mudar-se com a mãe para Espanha, regressando anos mais tarde à terra natal, onde começa a trabalhar na fábrica de cerâmica Prista. Dinâmico e empreendedor, revolucionou os métodos de fabrico, acabando por decidir criar a sua própria fábrica, em Caxarias.

A localização junto à linha ferroviária e a abundância de matérias-primas nesta região, como o barro e os desperdícios das serrações, constituíam as condições ideais para a indústria. Com a secção da “Pavimel” e da “Decormel”, dominava toda a produção de cerâmica, da matéria-prima ao produto final, assim como a sua comercialização. A fábrica seria considerada uma das melhores a nível ibérico, com uma grande aposta na assistência social dos seus funcionários. Por ali passariam também vários artistas, como Júlio Resende e Martins Correia.

A empresa nasce em 1945 com o nome “Materiais para Edificação Lda” e só em 1961 se transforma em “Tijomel”. No pós-revolução, o nome de Júlio Redol perdeu prestígio, apagando-se na contestação revolucionária que marcou a época. A fábrica encerraria sem honra em 1985 e o seu fundador morreria em 1992. Na memória do povo permaneceria patente uma imagem caída em desgraça, a quem os funcionários fariam frente e perderiam o respeito após o 25 de Abril.

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O grande edifício da “Tijomel” encontra-se ao abandono. O terreno foi dividido em lotes e pertence a vários donos

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A “Tijomel” laborava com cerca de 300 funcionários

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Os operários tinham refeitório, sanitários e um professor que todas as semanas vinha ensinar a ler e a escrever

Pelos menos assim pensavam Rúben, Mélanie e Luís, até que falaram com um casal que havia trabalhado na “Tijomel” e que conservava boas memórias da empresa e do patrão. Na conversa com Maria Redol e as consecutivas entrevistas a antigos funcionários (a fábrica teria cerca de 300 trabalhadores, tendo os amigos descoberto um que ainda guardava o número 630), aperceberam-se que a história foi moldada negativamente pelo tempo e pela revolução.

“Era um homem de família, um homem de trabalho, de bom humor, muito objetivo”, que procurou desenvolver na sua fábrica um cariz social que, à época, não foi muito compreendido pelos próprios funcionários. Por exemplo, todas as semanas ia um professor à fábrica para ensinar os funcionários a ler e a escrever. No refeitório (havia refeições para os empregados) chegaram a ser projetados documentários de cariz educativo, projeto que acabaria abandonado dado o pouco interesse mostrado pelos trabalhadores. Construiram-se sanitários e quem tomasse banho ganhava um prémio. Ali se sucediam gerações de pais e filhos. “A fábrica foi ele”, salientam os amigos.

Um “mamarracho” sem destino

IMG_0578A produção da “Tijomel” tem traços artesanais e é facilmente reconhecida por todo o país, inclusive na Ponte 25 de Abril. Após a revolução e a crise dos anos 80, a fábrica encerra em desgraça. Júlio Redol morre poucos anos depois. O espólio que compõe a exposição é de Adelino Vieira, ex-funcionário que mais tarde adquiriu vários objetos que compuseram, afinal, a sua infância (foi trabalhar para a “Tijomel” com 14 anos). O terreno da fábrica foi dividido em lotes e vendido a vários proprietários, existindo hoje ali casas e uma oficina automóvel.

O mediotejo.net perguntou ao presidente da junta de Caxarias, Fernando Silva, se existe algum projeto na autarquia para o edifício da “Tijomel”. O autarca explicou que o terreno hoje tem vários proprietários, reconhecendo no espaço mais um problema para Caxarias que um investimento. Seria talvez o sítio ideal para uma superfície comercial se alguém quisesse investir, mas já existem supermercados na vila.

O edifício, porém, não deixa de possuir a sua mística. Invadido pelo tempo, compõe o cenário propício à criação, ali se fotografando muitos casais no dia do casamento. Há pormenores em cada recanto e resquícios de uma época dourada. A imponência dá-lhe nostalgia e o encanto particular dos espaços que sobreviveram à ruína e contam uma história. A sua, a de outros, a de uma terra que se rendeu à sua majestade e à daqueles que a transformaram.

Respira assim o último fôlego a obra da vida de Júlio Redol.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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