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Sexta-feira, Maio 14, 2021

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Ourém/Torres Novas | O “Parque Jurássico” que o país esqueceu viveu melhor ano da última década (c/vídeo)

Monumento Natural situado no Bairro, nos limites geográficos dos concelhos de Ourém e Torres Novas, em pleno Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros (PNSAC), as Pegadas de Dinossáurios da Serra De Aire tiveram anos de grande procura, mas uma última década de profundo decréscimo de visitantes. Em 2017, 20 anos após a sua abertura ao público, o centenário das aparições da vizinha Fátima parece ter dado um impulso significativo nas visitas, tendo o Monumento vivido o seu melhor ano desde 2007. Quem trabalha no espaço reconhece-lhe o potencial – científico e turístico – mas continua a faltar um projeto de valorização que efetivamente potencie este património natural. Enquanto isso, a exposição das pegadas às intempéries vai fazendo os seus estragos na laje.

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“Parque Jurássico” nacional não morreu e parece ter algum impacto junto dos turistas estrangeiros. Foto: mediotejo.net

A história tem mais de duas décadas e marcou os idos anos 90 nos concelhos de Ourém e Torres Novas, quase se vivia a nível internacional a “febre” dos dinossauros: na pedreira do Galinha, em julho de 1994, a Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia descobriu um dos maiores registos de pegadas de dinossáurios saurópodes (grupo de herbívoros quadrúpedes), num total de 20 trilhos ou pistas destes animais, incluindo a mais longa pista, com 147 metros de comprimento, até hoje conhecida no mundo. “É considerado um importantíssimo registo icnofóssil do período Jurássico, o qual inclui as pegadas de alguns dos maiores seres que alguma vez povoaram o planeta Terra”, há 175 milhões de anos, refere a página do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

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O Estado adquiriu o terreno por, referem notícias sobre o mesmo, 4,5 milhões de euros, tendo o Monumento sido criado em 10 de outubro de 1996. Em março de 1997 as “Pegadas” abriram ao público, tendo sido alvo de um programa de intervenção pelo Ministério do Ambiente, que se mantém sensivelmente nos mesmo moldes até hoje. A tutela do espaço pertence ainda ao ICNF, que tem uma parceria com a ADSAICA – Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros, que integra todos os municípios que estão inseridos no PNSAC, incluindo Ourém e Torres Novas, entre outras entidades. Segundo o ICNF, à ADSAICA compete “a responsabilidade na gestão da visitação neste Monumento”.

José Alho, ex-vice-presidente da Câmara de Ourém (2009-2013) e atual deputado municipal, estava no Ministério do Ambiente quando o projeto de promoção das Pegadas lhe foi entregue. “A partir de 1998 conseguiu-se ter um financiamento do Programa Operacional do Ambiente que contribuiu para o que lá está hoje”, recordou, desde o dinossáurio em ferro de tamanho real ao jardim jurássico, passando pelo circuitos de interpretação que ainda se preservam. “Havia uma outra fase, que em 2002 deixou de ser contemplada, para um centro de interpretação com exposições temporárias, laboratórios e ateliers para investigadores”, mencionou, investimento que nunca mais tornaria a ser equacionado.

Pegadas foram descobertas na pedreira do Galinha em 1994, abrindo ao público em 1997 Foto: mediotejo.net

Quando integrou o executivo da Câmara de Ourém, José Alho e a sua equipa propuseram ao Ministério do Ambiente uma “gestão de proximidade” do Monumento a partir do município ouriense, com uma comissão de acompanhamento composta pela Câmara de Torres Novas, ICNF e Museu de História Natural. Na época, corria o ano de 2010, falou-se inclusive na possibilidade da criação de um parque “temático” que potenciasse o local, que José Alho frisa teria uma perspetiva científica e didática e nunca como parque de diversões. Tendo saído do executivo após as eleições de 2013, o autarca referiu ao mediotejo.net que nunca mais acompanhou a situação.

Enfrentando grandes dificuldades financeiras, a ADSAICA esteve em vias de encerrar em 2014. Os municípios decidiram no entanto manter a estrutura, assumindo algumas das suas competências. Os custos da gestão das “Pegadas” passaram para Ourém e Torres Novas, ficando Ourém também com uma equipa de sapadores. O ex-presidente da Câmara ouriense, Paulo Fonseca, manifestaria sempre a vontade de assumir a gestão do monumento, tendo em fevereiro de 2016 dado pela última vez um ponto de situação das negociações, que se encontrariam num impasse com o ICNF.

O impasse, ao que o mediotejo.net apurou junto dos dois municípios interessados, Ourém e Torres Novas, mantém-se, no sentido de que não houve desenvolvimentos no que toca a um novo modelo de gestão do Monumento. Da parte do ICNF o jornal foi informado via email que “não está em curso qualquer processo tendente a transferir para os municípios a gestão Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios de Serra D’Aire. Antes está a ser estudado um modelo de gestão das áreas protegidas que necessariamente irá envolver uma maior participação dos municípios na sua gestão”.

Esquecido a nível nacional, o tema das “Pegadas” surgiu no entanto durante a última campanha eleitoral, nomeadamente da parte da Câmara de Torres Novas, que não parece querer assumir um papel secundário numa possível “gestão de proximidade” do Monumento. No programa eleitoral do presidente torrejano, Pedro Ferreira, foi afirmada a vontade de “assumir o protocolo de gestão do monumento natural Pegadas da Serra D’aire, o ICNF e o Município de Ourém”.

A posição do sol ajuda a identificar melhor as pegadas, nomeadamente pela manhã. Foto: mediotejo.net

O mediotejo.net questionou, por email, os municípios de Torres Novas e Ourém sobre a gestão do Monumento e eventuais projetos que gostariam de desenvolver. Da parte de Torres Novas, o vereador Joaquim Cabral, que representa este município na ADSAICA, referiu que “o futuro está a ser equacionado pelo ICNF e pelos Municípios de Torres Novas e Ourém, embora ainda não se tenha decidido nada de concreto, a não ser que o espaço necessita de intervenção urgente de valorização e requalificação. Esta intervenção tem de se articular com a valorização do Património natural da Serra de Aire e com o turismo religioso de Fátima, nomeadamente na óptica da complementaridade quanto a  rotas e programas de visitação”.

Salientando que o município torrejano “está muito interessado em participar na gestão do Monumento, seja através da ADSAICA ou em conjunto com o ICNF e o Município de Ourém”, referiu que “urge, já em 2018, no âmbito da ADSAICA ou dos Municípios programar candidaturas a fundos comunitários e fazer investimentos”.

“A Câmara de Torres Novas considera importante a requalificação de todas as estruturas de apoio ao visitante: receção, guias, produção de filme e materiais informativos e educativos, projectos de educação ambiental e animação cultural, abrigos para visitantes ao longo do percurso, painéis de sinalética e interpretação, produtos de merchandising, conservação das pegadas fósseis. Devemos ainda dinamizar uma exposição permanente interpretativa do Monumento”, enumerou.

Torres Novas salienta ainda a necessidade de reforçar a divulgação na internet e na região, “colocando placas indicativas da sua localização nas autoestradas e estradas da região. Para as escolas, devem ser preparados programas específicos de visitação, adequados às matérias curriculares dos vários graus de ensino. Devemos ainda estar recetivos a estudos científicos por parte das nossas universidades. Pode e deve ainda este local ter um espaço próprio para mostra de produtos regionais de referência dos Municípios de Ourém e Torres Novas”, termina.

As mesmas questões foram colocadas ao município de Ourém, não tendo o mediotejo.net recebido resposta até à publicação da reportagem. De recordar que no último ato eleitoral este concelho mudou de executivo e de cor partidária, o que pode resultar numa diferente visão para a esta estrutura daquela que foi defendida por Paulo Fonseca nos últimos oito anos.

 

O melhor ano da última década

Para quem visitou o Monumento no final dos anos 90 enquanto criança ou adolescente numa das tradicionais visitas escolares que ainda hoje recebe, as “Pegadas” despoletam uma certa nostalgia. No essencial, está tudo sensivelmente na mesma, fora alguns sinais de deterioração dos equipamentos e da própria laje.

Se nos primeiros anos o espaço era muito visitado (alguns dados encontrados online apontam para 50 mil pessoas), os números foram diminuindo significativamente com a entrada no século XXI. Aquando a visita ao Monumento para a presente reportagem, o mediotejo.net foi informado que em 2007 o espaço recebeu 22.860 turistas, número que desceu abruptamente para 16.500 em 2008, tendência que se manteve na década seguinte.

Mas se em 2016 o registo foi de 15.600 visitantes, o ano de 2017 reservou uma agradável surpresa ao espaço: até novembro, este havia recebido 20.694 visitas, o que o coloca ao nível de há 10 anos e com um aumento de cerca de 25% em apenas um ano. Apesar de uma fatia significativa dos visitantes continuarem a ser as escolas, este ano as visitas turísticas representaram cerca de 70% das entradas.

O dinossauro em ferro continua a ser o ícone do espaço. Foto: mediotejo.net

Qual o mistério deste crescimento? “Teve a ver com o centenário das aparições de Fátima e confirmámos isso depois de outubro, porque as visitas começaram a diminuir”, explicou ao mediotejo.net a rececionista, Luísa Santos. Funcionária há várias anos no Monumento, adiantou que o espaço já sofreu alguns assaltos, mas nunca com prejuízos avultados. As mudanças mais significativas no edificado vieram em consequência da grande tempestade de 2013, que fez estragos no telhado do edifício da bilheteira e loja, o que resultou em algumas obras de reparação.

O Monumento parece causar um grande impacto nos turistas, sobretudo nos estrangeiros, admitiu Luísa Santos. “As pessoas pedem mais condições, mais tecnologia, mais produtos e mais informação no percurso sobre as pegadas”, enumerou, mas a grande queixa, salientou, é mesmo a falta de sinalização para chegar ao local, que facilmente desorienta quem vem de fora e procura o espaço. O nome “Bairro” é muito comum, comenta, e os GPSs nem sempre são fiáveis.

Quem visita, frisa, gosta de voltar, sobretudo estrangeiros que descobrem o Monumento pelos guias turísticos da região ou na internet. Chegam dos mais diversos países: Brasil, Holanda, Espanha, Áustria, Singapura e até há registos de japoneses. A influência próxima de Fátima é notória, sobretudo se as famílias têm crianças.

“Estamos perante um diamente”, defende Luísa Santos, “este espaço precisa de ser valorizado”.

 

Afinal, estão ou não as pegadas a desaparecer?

A posição do sol pela manhã ajuda a visionar as pegadas, nem sempre perceptíveis, sobretudo para quem está à procura de registos mais evidentes na rocha. São pequenos socalcos ao longo de vários metros, em pares semi paralelos, que evidenciam uma história de milhões de anos nas encostas da atual Serra de Aire. Ao longo do tempo foram realizadas várias intervenções para preservar as pegadas, mas há quem afirme que elas correm um sério risco de desaparecer se não houver uma aposta mais eficaz no Monumento.

Silvério Figueiredo, investigador de pré-história e paleontologia de vertebrados e presidente da direção do Centro Português de Geo-História e Pré-História, comentou ao mediotejo.net que, numa visita recente, ficou com a sensação de as pegadas estarem menos visíveis que há 20 anos. A passagem do Monumento para a gestão municipal poderia ser uma solução para a estrutura, considera, defendendo que se têm que encontrar novas soluções para este património.

Do histórico de preservação das Pegadas, José Alho lembra que em 1998 foi realizado um estudo geotécnico e concluiu-se que era preciso sanear os taludes. “Foram construídos perímetros de proteção”, mas o problema fundamental “era o arrastamento de gravilha na laje que cria microfraturas”, sofrendo com o frio e o calor. “Tudo foi limpo”, salientou, mas são necessários cuidados a manter.

Uma proteção integral, com uma espécie de pavilhão a cobrir toda a laje, considerou, não será possível. Há a “ideia que as pegadas estão a desaparecer, mas isso tem que ser visto mediante o tempo geológico”, considerou. Ao longo dos anos foram sendo realizadas pequenas intervenções de preservação, mas o também ambientalista encontra-se atualmente por fora do tema.

Um buraco na laje é a marca mais evidente da passagem do tempo e da necessidade de cuidados de preservação, mas garantem-nos que as pegadas estão conservadas. Foto: mediotejo.net

“Agarrei isto quando o Galinha o entregou ao Ministério do Ambiente”, lembrou, e “levei sempre este projeto” por onde passou: foi diretor do PNSAC, vice-presidente e presidente do Instituto de Promoção Ambiental, vice-presidente na Câmara de Ourém, atualmente deputado na assembleia municipal de Ourém. “Gostava que aquilo tivesse as intervenções e os equipamentos necessários para garantir a conservação do Monumento nas suas muitas vertentes”, comentou, construindo-se um centro de divulgação científica e de sensibilização ambiental.

A explicação sobre o estado de conservação das pegadas é semelhante à que nos é facultada por Luísa Santos, que porém frisa que estas “estão bem a nível de saúde”. O que aconteceu nos últimos 20 anos, constata, é que a laje, anteriormente muito branca, escureceu com a exposição às intempéries. “Ainda não temos um problema sério”, explicou, sendo que o Monumento é acompanhado por equipas especializadas. “Quando se fala em proteger o espaço é um problema mundial”, referiu.

Já o ICNF admitiu que “as questões relacionadas com a geoconservação da jazida com pegadas de dinossáurios, nos seus vários aspetos, conservação, valorização e divulgação, são uma preocupação permanente dos responsáveis pela gestão deste Monumento Natural.  A monitorização realizada ao longo do tempo permite verificar a existência de meteorização e erosão, como é espectável, não se verificando grande aumento da fracturação”.

Os esforços ao longo das duas décadas têm sido variados. “Para além da implementação de um sistema de monitorização mais vasto, tem-se pesquisado um mecanismo que permita defender a laje das ações erosivas, e que simultaneamente não provoque impacto visual, e a médio e longo prazo a perda de material paleontológico, recorrendo a especialistas na área da conservação de rocha in situ”.

É um dos maiores trilhos de pegadas de saurópedes do mundo, mas permanece ainda à margem do potencial que todos lhe reconhecem Foto: mediotejo.net

Além disso, adianta a instituição, “pretende-se, no âmbito do presente quadro comunitário, enquadrar um conjunto diversificado de programas de ações de geoconservação do património paleontológico no PNSAC, onde se inclui o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém/Torres Novas”.

Para quem visita o Monumento e sabe de antemão que as pegadas exigem algum posicionamento em termos de luz para serem percepcionadas, o que salta sobretudo à vista é a deterioração de algumas falhas na laje, onde o impacto das condições climatéricas é evidente, dando origem a buracos onde já se vê a terra. As pegadas por ali continuam e só as torres eólicas parecem ter mudado na paisagem.

Nas redondezas apenas o restaurante “O Transmontano” parece ter aproveitado a dinâmica jurássica, permanecendo um dinossauro à porta do estabelecimento. A proximidade com Fátima tem sido um argumento para apelar às potencialidades do espaço, mas 20 anos não parecem ter consigo granjear mais interessados quer no património quer na exploração económica envolvente.

Na primavera de 1994, quando as pegadas foram descobertas, vivia-se ainda o impacto do êxito de bilheteira de Steven Spielberg “Parque Jurássico” (estreado em Portugal em outubro de 1993, segundo o IMDB), que tem pronta a estrear a sua quarta sequela em 2018. Talvez isso ajude a explicar a história do Monumento Natural das Pegadas da Serra de Aire e o percurso de desinvestimento e esquecimento de que tem vindo a sofrer, apesar de todos lhes reconhecerem o potencial científico, didático e de atração turística.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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