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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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Ourém/Torres Novas | Galopim de Carvalho triste com “degradação lamentável” das Pegadas de Dinossáurio

Na Serra de Aire degradam-se alguns dos mais importantes vestígios do período Jurássico. O conceituado geólogo ajudou a classificar a antiga pedreira nos anos 90 como "movimento nacional, para preservar 20 trilhos de dinossáurios, incluindo a mais longa pista de pegadas conhecida no mundo, com 147 metros de comprimento.

* notícia atualizada às 18h58 de 12 de agosto de 2021 com a resposta do ICNF

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António Galopim de Carvalho, o “avô” dos dinossáurios, celebrou 90 anos esta quarta-feira, 11 de agosto. Em entrevista ao jornal Público, o responsável pela classificação do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurio da Serra de Aire, na outrora Pedreira do Galinha, manifestou-se entristecido pela “degradação lamentável” do espaço descoberto e classificado nos anos 90, entre os concelhos de Ourém e Torres Novas. Para o geólogo, a responsabilidade desta situação é do Instituto da Conservação da Natureza (ICN), que não zela devidamente pelo espaço.

Na década de 90, aproveitando a onda de interesse pelos dinossáurios, conseguiu a classificação de cinco monumentos naturais de pegadas por todo o país, entre eles as pegadas de saurópedes descobertas na Serra de Aire em 1994 pela Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia. A conquista “fácil”, uma vez que se conseguiu congregar à época o interesse do Governo, com o Ministro das Finanças a libertar o dinheiro necessário para reembolsar a pedreira pelo encerramento, revelou-se porém uma vitória com sabor amargo.

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ICNF encabeça candidatura para requalificar as Pegadas da Serra de Aire Foto: mediotejo.net

“A última vez que lá estive, há cerca de um ano, verifiquei que aquilo está abandonado. A manutenção não existe”, referiu em entrevista ao Público. “A jazida da Pereira do Galinha está num estado de degradação lamentável, por falta de manutenção. E atribuo ao Instituto da Conservação da Natureza (ICN), que é a entidade que classifica, a responsabilidade da sua conservação e manutenção”, precisa.

Para o geólogo, a falta de manutenção está a conduzir à degradação das pegadas. “Está a haver uma passagem das pessoas ao lado das pegadas. Criaram umas baias para as pessoas não pisarem as pegadas. Propus nessa altura que se fizesse uma coisa parecida como aquelas que agora se fazem nos passadiços, como os do Paiva, ao lado do trilho. As pessoas andavam cá em cima, a 20 centímetros do chão. Não quiseram fazer isso. As pessoas andam em cima da laje de calcário. Como o calcário é brando, a laje está polida.”

“Propus que se fizesse uma coisa parecida como aquelas que agora se fazem nos passadiços, ao lado do trilho. As pessoas andavam cá em cima, a 20 centímetros do chão. Não quiseram fazer isso. As pessoas andam em cima da laje de calcário. Como o calcário é brando, a laje está polida”

O espaço, conforme recorda, teve uma musealização parcial, mas o “projeto não foi integralmente feito. Caiu no esquecimento. O arquiteto Martins Barata fez um painel do tempo magnífico [sobre a evolução da vida na Terra ao longo do tempo geológico], nunca mais foi substituído. Há cerca de um ano, estava muito degradado. No Jardim Jurássico fizeram um lago com um rebordo como se fosse um lago de jardim, quando devia ser um lago natural. Tinha pedido que não fizessem isso. É feio. Até propus que se fizesse a cabeça e o pescoço de um saurópode a sair da água, não precisava de se ver o corpo, fazia de conta que estava escondido”, lamenta.

Galopim de Carvalho conseguiu a classificação de cinco monumentos naturais de pegadas de dinossáurios (a Pedreira do Avelino, Lagosteiros, Pedra da Mua, Carenque e a Pedreira do Galinha), entre os sete que existem no país, mas constata que o ICN “não tomou nunca nenhuma iniciativa no sentido de promover a proteção do património geológico. Não obstante não ter tomado nenhuma iniciativa nesse sentido, não mantém, não assegura, não protege os monumentos que classificou. Nenhum”. Considera ainda que há falta de legislação de proteção do património paleontológico.

“O ICN não mantém, não assegura, não protege os monumentos que classificou. Nenhum”

Obras de 450 mil euros com passadiço para visitação até final do ano

Em julho de 2019, Galopim de Carvalho passou pelo Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurio da Serra de Aire para celebrar os 25 anos do achado. Na altura foi apresentado o ponto de situação de um projeto de recuperação do espaço, que entretanto já vira o seu valor de financiamento reduzido de 800 mil euros para 450 mil euros.

O plano apresentado originalmente em 2018, em Torres Novas, numa parceria entre a ADSAICA – Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros, que gere o Monumento, e o ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta, previa a georeferênciação, a substituição de todo o material didático e de interpretação existente e uma rota de visitação apoiada por passadiços, para proteger a laje do desgaste.

O mediotejo.net contactou esta terça-feira a ADSAICA e o ICNF para obter um ponto de situação da obra. 

*Segundo informação do ICNF, a conclusão de “uma infraestrutura de passadiços com o objetivo de ordenar e minimizar o impacte da visitação nestes locais” está prevista “até final do ano”. Também até dezembro prevê-se que estejam terminados “diversos projetos no âmbito da requalificação da exposição do Centro de Interpretação do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios, e do circuito de visita exterior”.

Acrescenta a instituição que “tem em curso projetos relativos à geoconservação de lajes com fósseis – o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém/Torres Novas e a Jazida com pegadas de dinossáurios de Vale de Meios, tendo como objetivo a conservação, proteção e valorização dos locais, a mitigação das perdas de informação científica fornecida pelos icnofósseis aí presentes, e criar as condições para que a visitação futura tenha o mínimo de impacte nos elementos paleontológicos”.

“Os projetos compreendem a elaboração de estudos, ponto de partida para o trabalho a desenvolver na etapa seguinte de aplicação das medidas de conservação, e a proposta das medidas de conservação; após a validação do relatório final, serão então aplicadas as respetivas medidas. Estão a ser desenvolvidos por uma equipa multidisciplinar na qual estão representadas as especialidades de: Paleontologia, Geotecnia, Hidrogeologia, Conservação, Arquitetura Paisagística, Informação Geográfica e Deteção Remota. No final deste mês de agosto, deverá estar terminado o Estudo”, conclui. 

Aquando a visita ao Monumento, Galopim de Carvalho confessou ao mediotejo.net que embora algumas das beneficiações que projetou não tenham sido concretizadas, o monumento encontra-se dentro do plano que se elaborou há um quarto de século. Para se fazer mais, constatou, será necessário “ter o apoio concreto dos governantes”, além “dos locais, que não têm grandes posses, mas do governo central”.

Galopim de Carvalho diz que o primeiro-ministro António Costa e o Ministro do Ambiente deviam visitar o espaço e “orgulhar-se” do património existente, que é único na Europa e está a 10 quilómetros de Fátima. Não seria difícil, refletiu, com o devido investimento, visitarem o monumento 10% dos turistas que passam pela cidade religiosa, sendo que se atingisse os 600 mil visitantes por ano, o monumento já estaria em sobrelotação.

No geral, afirmou, “a boa vontade continua” entre as pessoas que envolvem as Pegadas da Serra de Aire, “o que eles não têm é disponibilidade financeira” para alcançar muito mais. “Só com apoio governamental podem levar a cabo as ideias que já têm, que não são diferentes das minhas”, concluiu.

Um símbolo da “febre” dos dinossáurios dos anos 90

Em 2017, aquando uma reportagem do mediotejo.net ao monumento, este encontrava-se a viver um pico de visitação, após uma década de contínuo decréscimo de interesse pelos turistas das região. O centenário das Aparições de Fátima, à época, aparentava ser a causa do súbito interesse pelo local.

Monumento das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire Foto: mediotejo.net

Após 20 anos, o monumento tornara-se o símbolo da época da “febre” dos dinossáurios dos anos 90, quando o Estado investiu 4,5 milhões de euros para adquirir o terreno da Pedreira do Galinho, onde espeleólogos de Torres Novas descobriram um dos maiores registos de pegadas de dinossáurios saurópodes (grupo de herbívoros quadrúpedes), num total de 20 trilhos ou pistas destes animais, incluindo a mais longa pista, com 147 metros de comprimento, até hoje conhecida no mundo. “É considerado um importantíssimo registo icnofóssil do período Jurássico, o qual inclui as pegadas de alguns dos maiores seres que alguma vez povoaram o planeta Terra”, há 175 milhões de anos, refere a página do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

O monumento foi classificado em 1996 e abriu ao público no ano seguinte, tendo sido alvo de um programa de intervenção pelo Ministério do Ambiente, que se mantém sensivelmente nos mesmo moldes até hoje. A tutela do espaço pertence ainda ao ICNF, que tem uma parceria com a ADSAICA – Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros, que integra todos os municípios que estão inseridos no PNSAC, incluindo Ourém e Torres Novas, entre outras entidades. Segundo o ICNF, à ADSAICA compete “a responsabilidade na gestão da visitação neste monumento”.
 
José Alho, ex-vice-presidente da Câmara de Ourém (2009-2013), estava no Ministério do Ambiente quando o projeto de promoção das Pegadas lhe foi entregue. “A partir de 1998 conseguiu-se ter um financiamento do Programa Operacional do Ambiente que contribuiu para o que lá está hoje”, recordou em 2017 ao mediotejo.net, desde o dinossáurio em ferro de tamanho real ao jardim jurássico, passando pelo circuitos de interpretação que ainda se preservam. “Havia uma outra fase, que em 2002 deixou de ser contemplada, para um centro de interpretação com exposições temporárias, laboratórios e ateliers para investigadores”, mencionou, investimento que nunca mais tornaria a ser equacionado.
 
Quando integrou o executivo da Câmara de Ourém, José Alho e a sua equipa propuseram ao Ministério do Ambiente uma “gestão de proximidade” do monumento a partir do município ouriense, com uma comissão de acompanhamento composta pela Câmara de Torres Novas, ICNF e Museu de História Natural. Na época, corria o ano de 2010, falou-se inclusive na possibilidade da criação de um parque “temático” que potenciasse o local, que José Alho frisa teria uma perspetiva científica e didática, e nunca como parque de diversões. A ideia não chegou a avançar.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. Criem uma FUNDAÇÃO !!! .. Tantas Fundações que existem sem ter qualquer lógica e este Tema que é um Tema de Interesse Superior, não formam uma Fundação digna, até para criar bolsas de investigação. Transformem o Parque numa coisa A SÉRIO e que orgulhe os Portugueses !!

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