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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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Ourém reivindica solução “urgente” para a saúde

“Todos os dias se ‘esturram’ milhares de euros em viagens e despesas várias para que as pessoas possam aceder àquilo que a Constituição e a Civilização lhe garantiriam – acesso à saúde.” A acusação é do presidente da Câmara Municipal de Ourém, Paulo Fonseca, que em declarações ao mediotejo.net defende a urgência de uma solução para o problema. Em seu entender, há apenas uma saída – e passa por Leiria.

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“Sendo o maior concelho do Médio Tejo, Ourém não tem Hospital, o Centro de Saúde fecha às 20h e vários milhares de pessoas [cerca de 14 mil, segundo dados de 2011] não têm médico de família. Não é um problema novo mas foi agravado há quatro anos quando o Ministério da Saúde centralizou a receção de utentes na unidade de Abrantes, forçando as populações do concelho de Ourém a fazerem 70 km para acederem ao Hospital, apesar de terem um Hospital no mesmo país e do mesmo Ministério a 20 Km, em Leiria”, considera Paulo Fonseca, presidente da Câmara de Ourém.

“Dizem-me que Leiria está noutra região – a região Centro – e que, por isso, Ourém não pode aceder ao Hospital de Leiria. E eu pergunto: Mas as populações do Alto Alentejo que se socorrem do Hospital de Abrantes não integram também outra região? Para termos uma ideia, basta pensar no agravamento de custos, ou nas perdas de eficácia na resposta em saúde. Todos os dias se «esturram» milhares de euros em viagens e despesas várias para que as pessoas possam aceder àquilo que a Constituição e a Civilização lhe garantiriam – acesso à saúde. A não ser que o governo tivesse querido garantir boa rentabilidade na SCUT da A23 e, por isso, obrigue os 46 000 habitantes do concelho de Ourém a percorrê-la neste calvário…”, ironiza.

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Ourém situa-se a 73 km de Santarém, a 25 km de Torres Novas, a 21 km de Tomar, a 70 km de Abrantes e a 26 km de Leiria
Ourém situa-se a 25 km de Torres Novas, a 21 km de Tomar mas a 70 km de Abrantes. A autarquia defende a utilização do Hospital de Leiria, a 26 km (embora fora da comunidade do Médio Tejo)

“Faço um desafio a todos: olhemos para o mapa do Médio Tejo e vejamos onde está o centro geográfico e populacional. Daí concluiremos que o Estado pouparia muitos milhares de euros se resolvesse o óbvio. Se querem ter um só Hospital então coloquem-no no local que serve toda a população do Médio Tejo. Mais grave, agora preparam-se para agravar os custos, a despesa, a qualidade de serviço e fundir o Centro Hospitalar do Médio Tejo com o Hospital de Santarém, o que é agravar seriamente o problema”, diz, referindo-se à anunciada fusão, a ocorrer previsivelmente em 2016.

“Um dado real para ilustrar o estado em que estamos: o Conselho de Administração do CHMT veio anunciar os resultados de gestão. Eles são claros. Há 4 anos o CHMT tinha uma dívida de 42 milhões. Nestes 4 anos consumiu 85 milhões do Orçamento do Estado. Agora a dívida é igual ao que era – 42 milhões. Ou seja, deviam 42 milhões de euros, receberam um extra de 85 milhões de euros e continuam a dever 42 milhões de euros… Em 4 aninhos, apenas… Por outro lado, o CHMT realizou menos 50 000 atos médicos em 2014 do que em 2010. Porque as pessoas deixaram de ter condições para ir ao médico, porque o Hospital está longe, porque quem pode pagar vai às clínicas e quem não pode está abandonado em casa… Está tudo dito.”

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Ourém tem 46 mil habitantes (14 mil sem médico de família) e recebe anualmente 5 milhões de pessoas que visitam Fátima. A transferência de mais especialidades para Abrantes agudizou as preocupações da autarquia

Um hospital longe demais?

Os Hospitais de referência para o concelho de Ourém são os de Tomar e Abrantes, mas abrem-se exceções quando em causa está a urgência no atendimento.

O empenho político para que o Hospital de Leiria passe a ser o Hospital de referência para o concelho de Ourém é conhecido e obtém o apoio da população. Mas o Comandante dos Bombeiros de Ourém, Júlio Henriques, esclarece ao mediotejo.net que sempre que há urgências em freguesias como Cercal, Espite ou certas zonas de Nossa Senhora da Piedade e Atouguia, que estão nos limites com as freguesias de Leiria, os utentes são encaminhados para aquela cidade.

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Em casos de urgência, os bombeiros de Ourém recorrem já muitas vezes ao hospital de Leiria

“O Hospital de Leiria não nega atendimento”, frisa o bombeiro, sublinhando que por vezes, depois da situação estar regularizada, o utente possa ser encaminhado para as especialidades em Tomar ou Abrantes. Mas, numa primeira urgência, “não há qualquer barreira”.

Para os atendimentos não-urgentes, o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) chegou a articular com a Rodoviária de Ourém um autocarro que percorresse os três hospitais – Tomar, Torres Novas e Abrantes – mas o serviço foi cancelado pela fraca aderência.

Existe um serviço, organizado pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, de um transporte a pedido para os Hospitais do CHMT, sobretudo destinado a idosos que estejam mais limitados nas suas deslocações. Este serviço ainda não existe em Ourém. A maioria das requisições de ambulâncias no concelho são por via dos hospitais e para utentes que estão isentos de pagamento do transporte, explica Júlio Henriques. Há a possibilidade de requisitar um transporte de ambulância aos Bombeiros, mas tem que se pagar pelo serviço.

Segundo dados do CHMT disponibilizados ao mediotejo.net, Ourém é o concelho sem Hospital que mais beneficia dos serviços hospitalares. De janeiro até setembro, foram recebidas de Ourém 7159 urgências, 751 cirurgias, 13175 consultas externas e 1403 sessões de Hospital de Dia. As especialidades mais procuradas são oftalmologia, pediatria, ortopedia e psiquiatria.

“Em caso de necessidade de cuidados de saúde, os doentes deverão dirigir-se ao Serviço de Urgência Básica mais próximo da sua residência. No caso de Ourém deverão dirigir-se ao Serviço de Urgência Básica de Tomar, que encaminhará de acordo com a situação clínica diagnosticada”, refere o CHMT. “Exceção aos doentes transportados pelo INEM, cuja decisão de destino é da responsabilidade do CODU, e em situações de urgência obstétrica, que deverá ser encaminhada para Abrantes”.

O CHMT adianta que quando a atual administração tomou posse “estava suspensa uma carreira da rodoviária que fazia a ligação entre as três unidades do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Perante esta situação e o desconforto reportado, este Conselho de Administração encetou várias reuniões com responsáveis da Rodoviária para encontrar uma solução que pudesse minimizar os constrangimentos com o transporte”. Após um período de tempo, a empresa que assumia o serviço optou por cancelá-lo “ devido à pouca utilização da mesma”. De qualquer forma, “todos os utentes que têm necessidade de transporte específico têm-no assegurado após prescrição médica, sendo efetuado através de solicitação aos serviços sociais, quer do CHMT, quer das autarquias, nomeadamente através das corporações de bombeiros”, afirmam.

À falta de outra solução… valhe-lhes Fátima

Por vezes, sem alternativas próximas, os utentes recorrem ao Santuário de Fátima, sobretudo nas pequenas aflições. Com serviços de enfermagem assegurados todo o ano e médicos durante o fim-de-semana, o Posto de Socorros é conhecido em Fátima como uma forma de obter cuidados de saúde básicos, ultrapassando as filas em Hospitais ou a falta de médicos no concelho.

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Criado para dar apoio a peregrinos, o Posto de Socorros de Fátima não fecha a porta à população. No ano passado, em 5300 atendimentos contabilizaram-se 2836 moradores

Marisa Silva ainda não tinha completado os 18 anos. No Verão, estando a estagiar num hotel em Fátima, começaram a crescer-lhe bolhas nos pés de dimensão fora do vulgar. Chegando a um ponto que já não podia andar – e não tendo meio de transporte nem oportunidade, entre os apertados horários, de ir ao seu médico de família – decidiu ir à Farmácia. Da Farmácia aconselharam-na a ir ao hospital, tendo Marisa optado por tentar a sua sorte no Centro de Saúde de Fátima. Aí informaram-na que a infeção precisava de ser vista por um médico e que teria que ser atendida pelo respetivo médico de família ou numa urgência. Sem saber o que fazer, seguiu o conselho dos colegas de trabalho e foi ao Posto de Socorros do Santuário de Fátima.

Localizado no lado Norte do Santuário, na Casa Nossa Senhora das Dores, o Posto de Socorros atende durante todo o ano (fecha no dia de Natal) quem ali se dirige com pequenas urgências. O serviço é assegurado por uma enfermeira diária, tendo, de Maio a Outubro, também o apoio da comunidade de Servitas (médicos e enfermeiros católicos que, de forma voluntária, prestam serviço no Santuário de Fátima).

Marisa Silva foi atendida de imediato, tendo lá voltado nos dias seguintes para limpar a ferida. Não resolveu o problema mas permitiu-lhe andar, tendo acabado por ir ao seu médico quando a mesma infeção lhe apareceu noutro pé. “Achei o atendimento espetacular. São muito prestáveis. Até brincaram com a situação”, comentou ao mediotejo.net.

Como Marisa, muitas pessoas da zona de Fátima ali se dirigem todos os dias, sendo o Posto de Socorros conhecido na cidade como uma alternativa na saúde. Os utentes da região de Fátima (concelho de Ourém e arredores) contabilizam, inclusive, cerca de metade dos utentes recebidos por este pequeno posto.

A história do atendimento a peregrinos vem do tempo das Aparições, em 1917, quando se começou a sentir a necessidade de cuidar dos grupos de pessoas que acorriam à Cova da Iria. Há cerca de 50 anos os serviços do Santuário de Fátima chegaram a ganhar fama de Hospital, realizando-se ali partos e até cirurgias.

Hoje, explica a enfermeira responsável, Catarina Pereira, o Posto serve apenas a pequena urgência. “Aparece de tudo”, sublinha, desde casos de hipotensão (por as pessoas estarem tanto tempo ao sol no recinto do Santuário), hipoglicémia, ansiedade, enfartes, pés e joelhos a precisarem de tratamento devido às promessas, já aconteceu pessoas morrerem ou aparecerem grávidas com perda de líquidos. “Casos mais complicados mandamos logo para o Hospital de Leiria”, destaca a enfermeira, salientando mais uma vez o fato do Posto não ter internamento e só receber casos de tratamento rápido.

O Posto de Socorros é um local amplo e extremamente cuidado, onde o silêncio preenche boa parte dos dias. Logo à entrada, uma religiosa faz as inscrições. Enquanto o mediotejo.net aguardava, um senhor do Montijo fazia a requisição de uma cadeira de rodas, sendo-lhe indicado os horários de funcionamento do local e quando poderia vir buscar o equipamento.

Segundo dados já organizados de 2014 (sem os serviços de dias 12 e 13 de maio a outubro da responsabilidade dos Servitas), o Posto de Socorros atendeu 5 300 pessoas, 2 836 da região de Fátima e 2 464 peregrinos. Catarina Pereira não tem dados concretos sobre os dias de atendimento dos Servitas, mas contabiliza em cerca de uma centena a média de atendimentos nesses dias. De 10 a 13 de maio de 2015, por exemplo, o Posto tem o registo atual de 581 pessoas. Numa análise por alto, a enfermeira acredita que em 2014 o número de atendimentos ascendeu os 6 mil utentes, cerca de metade deles da região.

Os dados deste ano ainda estão a ser organizados, mas de janeiro a setembro há a estimativa de 3940 pessoas atendidas, 1852 da região de Fátima e 2088 peregrinos. Os serviços prestados são sobretudo de pensos (1068), injeções (409), consultas (766), medição da tensão arterial (903) e requisição de cadeiras de rodas (995). No geral, todos estes números se vão mantendo de ano para ano, refere a enfermeira.

O Posto de Socorros recebe qualquer pessoa que ali venha pedir auxílio, mas não há autorização para passar nem receitas nem credenciais, ou seja, qualquer tipo de documento que tenha que ser obtido através do médico de família. Essa não é a finalidade do Posto, que não se quer sobrepor às entidades próprias para o efeito, sublinha Catarina Pereira.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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