Ourém | Pastorinhos de Fátima foram presos? Dúvidas sobre 13 de agosto de 1917 permanecem

As paróquias de Ourém promoveram nas últimas semanas um ciclo de conferências celebrativo da restauração da diocese de Leiria, em 1918, momento que é considerado fundamental pela historiografia para a progressiva aceitação das aparições de Fátima pela Igreja Católica. Na última sessão, domingo, 11 de fevereiro, reuniram-se no antigo edifício dos Paços do Concelho de Ourém historiadores e observadores do fenómeno de Fátima para abordar o contexto histórico e o papel do administrador do concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, no desenrolar dos acontecimentos com o rapto das crianças em agosto de 1917.

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A tese não é nova, partilhada por estudiosos do fenómeno de Fátima. O extremismo anticlerical da primeira República numa sociedade ainda profundamente religiosa, rural e analfabeta foi o grande impulsionador do fenómeno de Fátima, ao qual praticamente só a imprensa republicana deu destaque, na tentativa de desacreditar. Num tempo de miséria, fome, doença e guerra, o ataque teve, porém, o efeito oposto, que o milagre do sol em outubro de 1917 veio cristalizar.

Um século depois dos acontecimentos, celebrando o centenário da restauração da diocese de Leiria, a visão religiosa e laica encontram no administrador do concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, uma figura injustamente demonizada, mas com um papel fulcral para o desenvolvimento de fenómeno religioso. As três crianças não terão estado propriamente presas, nem terão sido maltratadas pelo administrador. Já ameaça de morte numa caldeira de azeite a ferver caso não contassem o “segredo” terá a sua veracidade.

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Na última sessão do ciclo de reflexão “Por entre luz e sombras”, promovido pelas paróquias de Ourém, o ex-reitor do Santuário de Fátima, monsenhor Luciano Guerra, e o historiador José Manuel Poças das Neves, que possui um doutoramento sobre Fátima e primeira República, apresentaram duas comunicações sobre o “rapto” dos três pastorinhos de Fátima por Artur de Oliveira Santos, a 13 de agosto de 1917.

Monsenhor Luciano Guerra interveio depois de uma contextualização histórica da época, realizada pelo Padre David Barbosa. Tendo investigado ao longo dos anos a documentação do Santuário de Fátima sobre as aparições, o ex-reitor constatou que tanto os testemunhos de Artur de Oliveira Santos como os de Lúcia de Santos, anos depois dos acontecimentos, deixam dúvidas sobre os contornos dos acontecimentos de agosto de 1917.

Bilhete de Identidade de Artur de Oliveira Santos Foto: José Manuel Poças das Neves

A polémica, recordou, incide sobre dois pontos em específico: terão os pastorinhos estado efetivamente presos na prisão de Ourém e sido ameaçados de morte? Se a ameaça de morte na caldeira de azeite a ferver não parece oferecer dúvidas, ainda que seja entendida como uma forma de assustar as crianças e não de ser efetivamente concretizada, a estadia de dois dias na prisão de Ourém divide opiniões.

Apesar de olhar os acontecimentos com espírito crítico, monsenhor Luciano Guerra reconheceu estar “mais do lado da Igreja Católica que de Artur de Oliveira Santos”. O administrador do concelho de Ourém era membro da maçonaria e republicano radical, com um forte preconceito anticlerical. Fátima seria para o responsável “o aguilhão do seu orgulho republicano e maçónico”, constatou.

Na perspetiva do prelado, Artur de Oliveira Santos acreditava que as três crianças estavam a ser instrumentalizadas por um clérigo e foi essa convicção que o levou a aldrabar os pais dos jovens a 13 de agosto e, em vez de os encaminhar para a Cova da Iria, os conduziu a Ourém. Pretendia, referiu lendo um relatório da época, que estas fossem avaliadas por uma junta médica e instaladas num casa de educação. No espírito fortemente laicizante da primeira República, acreditava-se que a Igreja manobrava as populações incultas contra o Estado, de que Fátima parecia ser um exemplo.

Artur de Oliveira Santos terá acreditado que sem a aparição de agosto o movimento de crentes iria dispersar. Lúcia dos Santos narrou nas suas memórias que ela e os primeiros estiveram na cadeia e rezaram com os presos, tendo sido ameaçada duas vezes de morte. Além deste episódio, as crianças parecem ter sentido apenas o abandono dos pais, que não os foram buscar.

Monsenhor Luciano Guerra referiu que enviou mais de 300 perguntas à Irmã Lúcia com perguntas sobre as aparições. “Em primeira mão” para a plateia reunida na antiga Câmara Municipal, referiu que a vidente lhe respondeu que estavam seis presos na prisão, tinham ficado numa sala junto a um escritório, o administrador tanto os tratava de forma afável como austera, a esposa deste sempre os tratou bem e não sabia se Artur de Oliveira Santos falava a verdade quando a ameaçou com a caldeira de azeite a ferver.

Não há registos deixados pelo administrador do concelho, apenas artigos em jornais e o trabalho de reabilitação da imagem deste realizado pelo filho. Com o crescimento de Fátima, a figura do Artur de Oliveira Santos foi um tanto diabolizada, em particular na sequência das produções cinematográficas sobre a história.

Monsenhor Luciano Guerra concluiu assim que o que moveu Artur de Oliveira Santos no rapto das crianças foi sobretudo o preconceito. Já o mal que os três pastorinhos viram nele foi a mentira e a traição, por lhes ter dito que voltariam a tempo da aparição de Nossa Senhora. A ameaça de morte não foi a brincar nem a sério, constatou, mas uma forma assustar os videntes para que revelassem o nome que de quem os estaria a instruir.

“Ele foi afinal o São Tomé das aparições de Fátima”, concluiu o sacerdote, num tempo em que a República claudicava e se queria combater a todo custo a influência da Igreja. Um amigo ter-lhe-á dito, narrou, que o administrador sem querer havia criado Fátima.

O mesmo tema foi abordado de seguida por José Manuel Poças das Neves, historiador fatimense com trabalho académico sobre Fátima e a primeira República. Afirmando logo no início da intervenção que é católico e acredita nas aparições, frisou porém que não concorda com a visão da prisão dos pastorinhos que foi difundida. Procura assim “desfazer mitos simplistas de uma época extremada”, em que a sociedade se bipolarizou entre apoiantes da Igreja ou apoiantes da República e tudo era visto a preto e branco.

Poças das Neves constatou que o movimento republicano português passou, em Ourém, pela casa de Artur de Oliveira Santos, conhecendo este figuras como José Relvas e Afonso Costa. “Artur de Oliveira Santos era um radical, mas tentou ser correto”, frisou, lembrando que ele condenou o regicídio. No entanto, era a figura do republicanismo na região, sendo não apenas maçon como membro da Carbonária.

Num tempo de miséria, em que fome se sentia em Portugal, doenças e, por fim, a entrada na primeira guerra, a Igreja assumiu um papel de orientação e de condenação dos movimentos radicais e anticlericais que haviam tomado o governo do país. A linguagem extremou-se, sendo que os jornais republicanos foram os que mais falaram em Fátima, na tentativa de desacreditar o fenómeno. “Houve politização à volta da Cova da Iria desde o princípios”, salientou.

Quanto à prisão dos três pastores, “do ponto de vista do historiador” permanecem dúvidas. Poças das Neves constatou que há contradições nos vários relatos da Irmã Lúcia sobre a estadia na prisão e o tratamento que recebeu da família do administrador, além de que houve testemunhas que os viram a brincar na cada do responsável. Os pais não os foram buscar nem se queixaram do rapto, referindo nos depoimentos que os filhos regressaram normalmente a casa sem indicações de maus tratos. O historiador, porém, também não confia totalmente nos relatos do administrador do concelho.

Remetendo-se aos factos, Poças das Neves referiu que os três pastorinhos terão estado no rés-do-chão da antiga Câmara Municipal, onde funcionava a antiga prisão, mas que se tratou essencialmente de uma detenção, eventualmente potenciada pela pressão dos jornais republicanos em torno do caso. Há registos que Artur de Oliveira Santos tencionava passar o mês de agosto no Agroal e que ao entregar as crianças terá mencionado que não queria saber mais do assunto. Deste modo, comentou, apesar do ataque, não teria havido grande percepção na época do risco que Fátima representava para os ideais da primeira República.

“Na Cova da Iria juntaram-se as crises de uma sociedade”, concluiu. Uma real e rural, outra utópica e que queria criar uma nova realidade.

Encerramento do ciclo de conferências do centenário da diocese de Leiria Fátima. Bispo António Marto

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

Na conferência participaram também o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, e o Bispo de Leiria-Fátima, D.António Marto. O clérigo salientou a importância de conservar a memória do passado, para que possa inspirar o presente. Adiantaria também que tem recebido muitas cartas a pedir relíquias dos pastorinhos e que as visitas aos túmulos triplicaram.

O bispado de Leiria foi restaurado a 17 de janeiro de 1918. A diocese havia sido criada inicialmente pelo Papa Paulo II, a pedido do rei D.João III, em 1545. Apenas em 1984 a estrutura recebeu, por decreto da Santa Sé, a denominação de diocese de Leiria-Fátima.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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