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Sexta-feira, Maio 14, 2021

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Ourém | Onde a Virgem Peregrina passou trouxe turistas e peregrinos a Fátima – João Heitor

O investigador ouriense João Caldeira Heitor lançou recentemente em livro a sua tese de doutoramento, focada na “Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima”. Ao mediotejo.net, João Heitor, que atualmente é coordenador científico da licenciatura em Gestão do Turismo no Instituto Superior de Gestão, explicou que procurou olhar a imagem como uma “marca” e apercebeu-se de como esta acabou por trazer a Fátima peregrinos e turistas dos países por onde circulou ao longo dos anos. “A Igreja não estava preparada para a dinâmica e conquistas da Imagem”, constata. 

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O conceito de “marca” encontra-se atualmente muito associado ao marketing e à publicidade e, em traços muito gerais, caracteriza um ícone, um símbolo ou um signo com determinadas características que o ligam a uma determinada ideia (que tem o potencial de despertar emoções e, em consequência, consumo).

Natural do concelho de Ourém e tendo trabalhado no gabinete do ex-presidente da Câmara de Ourém, Paulo Fonseca, um grande impulsionador da marca “Fátima” a nível internacional, João Heitor acompanhou de perto uma das épocas mais ricas em termos de discussão de projetos de internacionalização do município, com base na cidade religiosa.

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“Vivíamos tempos áureos de crescimento do turismo”, recordou, tendo-se envolvido em documentos estratégicos e promoção institucional, conhecendo por dentro vários dos problemas estruturais de Fátima a este nível. Neste sentido, a sua proposta para tese de doutoramento em turismo acabou por incidir na ideia da Imagem Peregrina como fonte dessa mesma internacionalização. Uma marca.

João Heitor trabalhou para a Câmara de Ourém no período de maior investimento em turismo religioso, que culminou com o centenário de 2017 Foto: D.R.

“Não havia um livro dedicada à Imagem Peregrina” a nível académico, começa por explicar, sendo que a sua tese, que contou com o apoio do Santuário de Fátima, lhe abriu as portas dos muitos desejados, e nem sempre facilmente acessíveis, arquivos da instituição.

Na academia encontrou porém alguma resistência. O seu orientador foi Vítor Ambrósio, o único doutorado em turismo religioso a nível nacional (fora da área da teologia), que apoiou a sua investigação. Mas “senti grandes entraves para estudar a imagem peregrina” de outros elementos da instituição. “Penso que aquelas pessoas ainda não estavam preparadas para que se estudasse um ícone religioso como uma marca”, reflete.

A sua investigação levou-o a Itália, acompanhando uma das viagens da Imagem Peregrina, tendo realizado mais de 500 inquéritos na localidade de Ladispoli. Segundo explicou ao mediotejo.net, procurou perceber as motivações e as reações da população perante a presença da Imagem, tentado perceber se as características apontadas eram semelhantes às das marcas.

“Quando as pessoas olham para a Imagem peregrina sentem uma ligação”, reflete, conexão que está próxima daquela que é procurada pelas técnicas de venda. O marketing, afinal, foi beber às práticas e rituais da cerimónias religiosas, despertando emoções, notou.

“Estudar a imagem peregrina foi um privilégio muito grande”, vincou. A primeira escultura da Virgem Peregrina surgiu na sequência das primeiras incursões da imagem original a algumas Dioceses e a Espanha, onde alguns crentes, ligados à Ação Católica Portuguesa, começaram a aperceber-se da “força” da presença da escultura. Nos anos 40, seguindo as indicações da Irmã Lúcia, decidiu fazer-se então outra escultura que assumisse esse objetivo de peregrinação pelo mundo.

“A Igreja não estava preparada para a dinâmica e para as conquistas da Imagem”, reflete. Na sua primeira viagem, em 1947, a imagem já ia quase na Bélgica, depois de uma passagem por Paris, quando o bispo de Notre Dame se apercebeu que perdera a visita da Virgem Peregrina e pediu para a escultura voltasse para trás.

A Imagem atravessou Espanha sem qualquer acompanhamento, constatou João Heitor, no entanto, onde parou, as pessoas juntavam-se em adoração. No pós-guerra, a imagem simbolizou um desejo de paz, constata. “Penso que isso foi determinante para a força que a Imagem viria a ter”.

Investigação foi publicada este mês em livro Foto: D.R.

Nas viagens que se seguiram, em consequência, a Imagem Peregrina já foi esperada e recebida por autoridades locais, civis e religiosas, entregavam-se oferendas, lançavam-se primeiras pedras de igrejas, atribuíam-se nomes de ruas e praças a Nossa Senhora de Fátima.

“Ela rasgou fronteiras”, frisa, sendo recebida inclusiva em países muçulmanos sem tradição portuguesa, ficando tanto em palácios como em palhotas.

“É uma Imagem que vai ao encontro das pessoas”, frisa Heitor, ou seja, faz o movimento inverso ao tradicional, em que o crente se tem que deslocar ao local de culto para conhecer o santo. “As pessoas sentem que é a Imagem que as vem visitar”, explica. Daí surgir uma necessidade peculiar, a de ir “agradecer” a visita ao Santuário, visitando Portugal. “96% das pessoas afirmaram-me motivadas a vir a Fátima” nos seus inquéritos.

É neste sentido que a Virgem Peregrina é uma marca do turismo religioso. João Heitor estudou os percursos de quatro das 13 imagens peregrinas existentes, fazendo uma relação entre os países visitados e os grupos que nos anos seguintes visitavam o Santuário de Fátima. Encontrou 192 correspondências, o que confirmou a sua teoria.

Segundo o investigador, o Santuário de Fátima tem noção deste poder da Imagem Peregrina. Fátima tem conseguido deste modo ultrapassar a decadência da prática religiosa católica, vivendo dentro do espírito das novas espiritualidades, eminentemente individuais, que misturam vários de elementos de religiões e filosofias espirituais. Muitos dos devotos entrevistados por João Heitor nos seus inquéritos não eram sequer católicos.

A Imagem Peregrina foi “durante muitos anos o cartão de visita de Portugal pelo mundo. Há uma grande rede de Fátima espalhada pelo mundo, de congregações, de devotos”, constatou, que permitiu e potenciou esta circulação. Como “extensão” da imagem original de Fátima, a Peregrina permite que quem está longe viva a “experiência” de Fátima.

A trabalhar no Instituto Superior de Gestão, regressando à atividade de docente, João Heitor prepara agora um novo trabalho sobre o marketing religioso.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. Só pela entrevista não é possível fazer uma apreciação ao trabalho. Apesar disso, parece-me um tema encarado com algum “arrojo” dado que faz a comparação da imagem de Fátima com uma marca comercial, quando há muito mais que isso e portanto parece-me redutor. Há um fundo bem mais importante que levou ao conhecimento da imagem de Fátima pelo mundo: A mensagem de Fátima, seguida pela fé dos crentes. Como ainda não li o livro, vou abster-me de mais comentários sobre o assunto. Contudo, entendo louvar João Heitor pela abordagem do tema. Obrigado.

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