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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022
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Ourém | O primeiro dia de Luís Albuquerque (PSD) na pele de presidente de Câmara (REPORTAGEM)

À chegada ainda alguém se engana e o trata por “vereador”. Luís, Albuquerque, sr. Presidente. Vem na companhia da esposa, de mão dada com o filho, Luís Miguel, de 7 anos, menos preocupado que o grupo que o acompanha em esconder o entusiasmo pelo primeiro dia de trabalho do pai como presidente da Câmara de Ourém. A primeira paragem é na tesouraria, onde a nova equipa se detém durante cerca de uma hora. Na linha da tradição autárquica, Luís Albuquerque pode estar perante o início de quatro, oito ou 12 anos na presidência. Mas este primeiro dia nunca mais se repetirá da mesma forma…

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Venceu com cerca de três mil votos de diferença da segunda força política, o PS. Luís Albuquerque acumulou oito anos como vereador na oposição até ter a hipótese de se sentar na cadeira da presidência. É contabilista de formação, foi jogador de futebol no Centro Desportivo de Fátima, clube que posteriormente dirigiu. Entrou na vida política quase inadvertidamente, ainda que a política e o concelho de Ourém fossem marcantes no seio da família. O pai, Mário Albuquerque, foi presidente de Câmara durante 15 anos.

Luís Albuquerque chegou à Câmara de Ourém com a família e a equipa. Foto: mediotejo.net

O ponto de encontro estava marcado para a entrada da Câmara de Ourém, pelas 8h45 de 24 de outubro, terça-feira. No dia anterior fora a tomada de posse, marcada por alguma nostalgia dos que encerravam o capítulo e a euforia dos que o iniciavam. Passeando mais tarde pelos gabinetes e corredores do andar da presidência e vereação, imperaria o sentimento do vazio, como se de alguma forma se estreasse um edifício novo. Secretárias limpas, armários vazios, desapareceram fotos e objetos pessoais. Fechou-se um ciclo para dar início a outro, com toda a parafernália que tal acarreta. Desapareceram as pessoas e as histórias de vida política que elas contavam.

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Luís Albuquerque chega com a família e a nova equipa entra pela porta principal. As primeiras horas da manhã foram reservadas à comunicação do primeiro dia de funções, com um conjunto de jornalistas a acompanhar. Apesar da presença de executivo e até do novo presidente da Assembleia Municipal, é o pequeno Luís Miguel que mais chama a atenção. Quer estar com o pai, conhecer os gabinetes, olhar para os papéis que logo entregam ao novo presidente. Quer ver o escritório da presidência, o futuro gabinete do progenitor, fala com todos os que lhe pedem opinião e abraça-se à mãe quando começa a cansar-se de tanto reboliço.

O filho e a esposa de Luís Albuquerque foram presença contínua na campanha eleitoral Foto: mediotejo.net
Sem tempo a perder, primeiro dia começa na tesouraria Foto: mediotejo.net

A manhã tem de imediato um compasso de espera. O novo executivo faz a sua primeira paragem do dia na tesouraria, gabinete junto ao átrio de entrada, onde permanece perto de uma hora. São passadas informações dos movimentos correntes, sabem os jornalistas posteriormente, assistindo de longe à troca de papéis e análises atentas ante os computadores.

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Neste impasse, falamos com João Moura, presidente da Assembleia Municipal, e indagamos sobre as transformações que quer levar a cabo na instituição. A mudança das reuniões da assembleia para outra sala, com mais condições, está em análise, revela. João Moura quer “tornar a Assembleia Municipal naquilo que deve ser”, respeitando uma “vida própria” que não passará por ser “uma caixa de ressonância” do executivo municipal.

Foto de família: Rui Vital, Isabel Costa, Luís Albuquerque e Natálio Reis Foto: mediotejo.net

Uma das suas ideias mais inovadoras é a criação de uma Assembleia Municipal Jovem que congregue os eleitos das escolas do concelho, públicas e privadas, pelos respetivos 3º ciclos. “Acho que podem sair daqui coisas engraçadas, novos quadros políticos”, constata.

A equipa move-se entretanto pelos corredores dos Paços do Concelho. Luís Albuquerque conhece bem a casa, onde trabalhou como adjunto de David Catarino e se manteve como vereador na oposição. Luís Miguel dá-lhe a mão enquanto caminham para a sala 2.1. O momento tem a sua magia. Abrem ambos a porta e a luz forte da manhã embate em flash contra as lentes fotográficas dos jornalistas. Da penumbra da ilusão ótica surge um gabinete estranhamente vazio, com meia dúzia de papéis deixados em cima da mesa.

O mais velho acomoda-se no cadeirão da presidência, o mais novo procura-lhe o colo. Há alguma emoção e lágrimas à mistura. Não – afirma o presidente – não irá impulsionar o filho a procurar a vida autárquica. No entanto, admite, sente que a sua vida acabou por ser influenciada pela atividade municipal do pai. Quem sabe se a foto marcante do dia, pai e filho na cadeira da presidência, num momento carinhoso e cúmplice, poderá, dentro de 30 ou 40 anos, ter a sua simbologia. A 24 de outubro de 2017 o momento foi apenas emotivo, com leituras familiares e íntimas que só os envolvidos serão capazes de transcrever.

Salta-se de escritório em escritório, numa animação pueril de primeiro dia. Tudo foi limpo e arrumado, não há sequer canetas esquecida nas mesas. A vereadora Isabel Costa experimenta alegre um capacete de obras deixado no seu futuro gabinete, uma antevisão porventura dos pelouros que lhe caberão. Garante que o espaço terá o seu toque pessoal. O vereador Natálio Reis ocupa o antigo gabinete reservado à Assembleia Municipal. Não chegamos a saber qual será o possível escritório de Rui Vital, cujas funções a tempo inteiro ainda terão que ser votadas na reunião de câmara de 30 de outubro.

A vereadora Isabel Costa experimenta um capacete de obras deixado no seu futuro gabinete Foto: mediotejo.net
O presidente da Assembleia Municipal, João Moura, acompanha a visita e fala dos seus próprios projetos para o futuro da assembleia Foto: mediotejo.net
O gabinete da oposição será o 2.8, garantem ao mediotejo.net Foto: mediotejo.net

E o gabinete da oposição?, questionamos. Foi a promessa deixada por Luís Albuquerque, depois de anos a reivindicar um espaço condigno para os vereadores em não permanência que nunca lhe foi atribuído. O presidente encaminha-nos, o espaço já está escolhido e mostra-o sem hesitações. Será o gabinete 2.8, garante, no mesmo andar da presidência.

A visita prossegue para o edifício clássico dos Paços do Concelho, que possui atualmente um corredor de ligação com o edifício principal. O espaço não é desconhecido para a maioria dos autarcas. João Moura lembra os tempos antes da inauguração da Câmara atual, os velhos escritórios exíguos e de como a requalificação mudou substancialmente a configuração interior da estrutura. O antigo gabinete do presidente David Catarino, adianta, deverá ser a sala requisitada para os serviços da Assembleia Municipal. Para as sessões plenárias, equaciona-se eventualmente o grande salão no rés do chão, mas o tema está ainda em análise, garante.

A efetivar-se, a Assembleia trabalhará paredes meias com a divisão cultural, que se encontra a preparar, no mesmo edifício clássico, um secção do Museu Municipal dedicada à prisão dos pastorinhos de Fátima. Realiza-se uma visita rápida ao espaço, ainda em restauro mas já com alguns objetos, pedindo-se aos jornalistas que não tirem fotografias.

Luís Albuquerque iniciou funções na Câmara de Ourém a 24 de outubro de 2017 Foto: mediotejo.net
Funcionários cumprimentaram o novo presidente da Câmara Foto: mediotejo.net
Há vários planos para rentabilizar os escritórios do edifício da antiga Câmara, recentemente requalificado Foto: mediotejo.net

Alguns corredores mais à frente foi descoberta, para surpresa geral, uma velha inscrição com a aparente referência de “Biblioteca Municipal”. A chefe de divisão, Ana Saraiva, comenta que não há documentos que indiquem a existência ali duma biblioteca. É uma das muitas surpresas de quem estuda o património.

Regressa-se à sede principal e prepara-se a reunião do executivo. Quem veio apenas para acompanhar a chegada despede-se. Os jornalistas ainda seguem, querem uma foto dos vereadores a tempo inteiro a iniciar a sua primeira reunião. Constata-se que no salão nobre, onde estão dispostas nas paredes as fotografias de todos os presidentes de Câmara e Assembleia de Ourém, está a faltar a foto de Luís Albuquerque. O novo presidente, porém, hesita. Hum… “Acho que só se deveria colocar no fim do mandato, não agora…”, comenta.

A decisão ficará, portanto, para outras núpcias.

Mais duas, três fotos. “Tanta fotografia”, já refila, sorrindo, Rui Vital.

A primeira das reuniões à porta fechada é com o executivo em permanência Foto: mediotejo.net

Fecha-se a porta. É a primeira de um conjunto de reuniões que Luís Albuquerque terá à porta fechada no resto do dia. Primeiro com os seus vereadores, depois do almoço com os chefes de gabinete. Os dossiers mais complicados foram passados à nova equipa nas semanas anteriores, diretamente do executivo cessante, mas há muito que a nova gestão desconhece e que terá que se ir apercebendo, documento a documento, nos próximos meses. E talvez até encontre algumas surpresas.

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Uns instantes à mesa

Acompanhámos Luís Albuquerque num cozido à portuguesa no restaurante O Girassol Foto: mediotejo.net

Luís Albuquerque, 50 anos, acompanha a gestão do município desde o último mandato de David Catarino (2005-2009). Passou pelas convulsões na concelhia do PSD após a derrota de Vítor Frazão em 2009 e acabou por assumir a liderança, conseguindo resistir à nova derrota, em 2013, por 120 votos, contra Paulo Fonseca (PS). Discreto e com alguns traços de formalidade, não possui as características de oratória do seu antecessor, transmitindo o essencial da sua mensagem em poucas palavras. Já lhe louvaram a humildade e o espírito de entrega ao projeto municipal. Vai agora ter que mostrar que está à altura das expetativas.

A nossa reportagem passou por um almoço com o novo executivo, entre um cozido à portuguesa no restaurante O Girassol, em Ourém. No âmbito do primeiro dia de funções na Câmara, quisemos colocar algumas questões de índole mais pessoal ao novo presidente. Luís Albuquerque não se inibiu. Lembrou o passado, analisou o presente e preferiu não se estender muito sobre o futuro. Há projetos e ambições, mas não vale a pena falar já, afirma, em recandidatura.

Qual exatamente a sua formação?

Sou contabilista certificado. Certifiquei-me através da minha experiência profissional.

Como assim, através daqueles cursos com equivalências?

Não. Eu tenho o 12º ano. E como trabalhava, tinha experiência já na área da contabilidade, desde muito cedo, uma altura houve a possibilidade de ser contabilista certificado através da experiência profissional adquirida. Tive que fazer um exame de admissão à Ordem e fui aprovado. Foi através disso que me tornei contabilista certificado. Mas aquilo reunia várias condições, anos de experiência, não podia ser qualquer pessoa.

“A imagem que eu gostaria de lhe deixar é a imagem daquilo que também me deixaram a mim. Uma imagem de seriedade, de honestidade, ao serviço da causa pública”

Olhando em retrospetiva, onde se imaginava estar aos 50 anos?

(risos) Se for a pensar há 30 anos atrás, quando tinha 20 anos e andava a estudar ainda, estava longe de imaginar que hoje estaria a ocupar as funções que ocupo desde hoje. Sempre estive ligado à área da contabilidade e esperava estar a exercer a profissão.

O que pensava ser quando era criança?

(risos) Nem sei bem o que dizer. Sempre ligado a esta área da contabilidade… Sempre tive alguma apetência por esta área e foi sempre aí que pensei estar desde o início. Desde os 18 anos que comecei a trabalhar na área da contabilidade e foi uma área que eu sempre gostei e foi aí que me senti bem.

Lembra-se quando tomou a decisão de que um dia gostaria de ser presidente da Câmara?

Eu há 12 anos estava longe de imaginar que alguma vez poderia enveredar pela carreira política. Tinha a minha empresa, tinha os meus clientes, trabalhava diariamente, sempre longe da política. Embora não esconda que sempre tive interesse e sempre acompanhei, também por força das circunstâncias, da atividade do meu pai. Sempre acompanhei a atividade municipal e sempre me fascinou de alguma forma a política e todo este mundo que a envolve. Há 12 anos, quando o Dr. Catarino ganhou as eleições, eu estava na Madeira quando recebi uma chamada dele a perguntar-me se eu podia passar pela Câmara que ele precisava de falar comigo. Foi com surpresa grande que ele me lançou o desafio de ser seu adjunto. Assumi e na altura foi uma decisão ponderada, porque como disse tinha o meu escritório, a minha atividade, e não foi uma decisão fácil de tomar. Depois de ponderar, de falar com a minha mulher, a minha família, entendi que devia aproveitar a oportunidade que me estava a ser dada e aceitei. Foi a partir daí que tudo isto começou. Depois é uma sequência. Estive ali três anos e meio como adjunto, depois estive seis meses como vereador por força da saída dele e da entrada em funções do Dr. Vítor Frazão. Perdemos as eleições na altura, como se sabe, há oito anos atrás, e depois houve ali um período de convulsão grande a nível interno no PSD. É normal, depois de se perderem umas eleições, depois de estar 30 anos no poder, que haja clivagens – que houve – complicadas. Dois anos depois, já a pensar nas eleições seguintes, foi-me lançado o desafio, por um conjunto de pessoas, para assumir a presidência da comissão política do PSD em Ourém. E assim foi.

Concorri, na altura com uma lista opositora. Os militantes entenderam dar-me esse privilégio de presidir à comissão política do PSD nos primeiros dois anos. Nessa altura a comissão política entendeu propor o meu nome à comissão política distrital, que por sua vez o fez à nacional e fui candidato. Não tivemos o sucesso desejo, perdemos por 120 votos. Como foi uma derrota por esta margem, entendemos que poderia haver condições para eu voltar a ser candidato. Foi um percurso de mais quatro anos que culminou com esta vitória há três semanas.

Contabilista, jogador de futebol, dirigente associativo, vereador. O currículo de Luís Albuquerque é diversificado. Foto: mediotejo.net

Foi uma derrota amarga?

Sim, porque perder por 120 votos dadas as circunstâncias – que tinham a ver com a divisão que houve (na altura) por força de uma candidatura independente que surgiu na altura, e também surgiu agora, de uma pessoa que tinha sido anterior presidente de Câmara do PSD, dividiu em parte o eleitorado do partido – foi amarga também por isso. Ao contrário do que muita gente pensava, acho que na altura nós podíamos ter ganho. Não conseguimos, por uma margem muito reduzida. Quatro anos depois isso tornou-se efetivo por uma margem que todos reconhecem.

O seu filho, Luís Miguel, acompanhou-o esta manhã. Que imagem gostaria de lhe deixar?

A imagem daquilo que também me deixaram a mim. Uma imagem de seriedade, de honestidade, ao serviço da causa pública. E penso que isso são valores fundamentais, são valores que eu recebi dos meus pais e quero também deixar a ele, para que ele tenha também um dia mais tarde orgulho naquilo que o pai fez e os valores que o pai lhe deixou. E isso é o maior legado que eu lhe quero deixar.

Que memórias pessoais tem da época em que o seu pai, Mário Albuquerque, era presidente da Câmara? Andava a correr pelos corredores da antiga Câmara Municipal?

Algumas, mas era raro vir à Câmara. Na altura era uma criança. O que eu guardo efetivamente é que o tempo que ele tinha disponível era muito pouco em casa, por força da atividade enquanto presidente de Câmara. A maior recordação que eu guardo é efetivamente essa.

Que mensagem é que o seu pai lhe deixou neste primeiro dia? Algum conselho?

Não falei com ele hoje ainda, por acaso. Falámos ontem, ele esteve na tomada de posse, e desejou-me boa sorte e felicidades. E no que fosse preciso, obviamente, com a sua experiência, ele estaria sempre disposto para ajudar.

Como espera que seja a sua rotina a partir de agora?

Trabalho, trabalho, trabalho… Será a rotina normal de uma pessoa que se apresenta para trabalhar diariamente. Tenciono também visitar as juntas de freguesia e fazer o acompanhamento das diversas iniciativas do município.

Espera encontrar muitas surpresas na Câmara?

Algumas. Umas boas, outras menos boas. Seguramente vão haver surpresas. Já tive oportunidade de reunir não só com o anterior presidente como também com os técnicos e já me reportaram situações que carecem de uma análise mais profunda.

A política é como um jogo de futebol?

Acho que não. O jogo de futebol é um jogo que está intrinsecamente legado à arte e à sorte. Na política é preciso sorte, mas para se ter sorte é preciso trabalhar muito. Acho que são coisas diferentes. Acho que a política é uma atividade nobre que não tem nada a ver com o futebol, mas que tem um objetivo que é o vencer. E nós para podermos vencer os obstáculos que nos vão aparecendo diariamente temos que trabalhar muito e só depois de trabalharmos muito é que podemos ter sorte. No futebol não é bem assim, às vezes é o contrário. É preciso ter sorte para ter sucesso. É uma analogia um pouco complicada.

Gostou de ser futebolista… guarda-redes, certo?

Sim, obviamente. Foram 18 anos a praticar deporto, não a alto nível mas a um nível médio, e obviamente que guardo grandes recordações desse tempo. Fiz grandes amizades que ainda hoje perduram, aprendi também um pouco a ser homem, porque foi na idade dos 17, 18, 20 anos, e ao contrário do que muitas pessoas dizem acho que o futebol também pode ser uma escola de vida de virtudes. Porque também se aprende muita coisa no futebol. E eu tenho que estar agradecido àquilo que o futebol proporcionou. Ainda hoje sou um assíduo espectador de jogos de futebol.

Ainda joga, assim com colegas, ao fim-de-semana?

Quando tenho tempo, ainda à quinta-feira, ainda faço ali uma futebolada no Pavilhão do Caneiro. Brinco lá um bocadinho. Mas tenho muito cuidado, também tenho receio de alguma lesão que me possa impedir da minha atividade. Mas quando posso, quando tenho disponibilidade, ainda hoje tenho o bichinho de correr atrás duma bola.

Qual o seu clube?

Benfica.

E a nível local? O Centro Desportivo de Fátima?

A nível local tenho alguma dificuldade em definir. Não só pelas funções que desempenho, mas também porque, efetivamente, se é verdade que sou de Ourém, moro em Ourém, tenho um carinho especial pelo Atlético Ouriense, onde comecei a praticar desporto, estive aqui durante três anos, também não posso esconder que tenho um carinho muito especial pelo Centro Desportivo de Fátima. Foi lá que exerci a grande parte da minha atividade desportiva, estive lá 16 anos como desportista e sete ou oito como dirigente e isso obviamente deixa marcas. E essas marcas vão ficar e perduram para sempre na minha vida. Se a nível nacional sou do Benfica, indiscutivelmente, a nível local estou muito dividido entre estas duas associações porque ambas me dizem tudo.

“O jogo de futebol é um jogo que está intrinsecamente ligado à arte e à sorte. Na política é preciso sorte, mas para se ter sorte é preciso trabalhar muito”

Além de tudo isto, o que gosta de fazer nos seus tempos livres?

Gosto muito de estar com o meu filho, com a minha família. Gostaria de dar mais atenção ao meu filho, infelizmente não posso mais, porque está numa idade que precisa de atenção e tenho também que prestar uma homenagem à minha mulher, que me tem substituído. Mas quando posso estou com eles, é o que me dá vida ao fim e ao cabo. Gosto de ver televisão, gosto de estar informado. Gosto de assistir ao desporto, quando posso tento acompanhar as atividades dos grupos desportivos do concelho. Os tempos livres não são muitos. E com os amigos.

Qual o seu filme favorito?

O Titanic. Gostei de ver o enredo do filme. O barco a afundar-se. Comparo um bocadinho àquilo que se passa por vezes nas vidas de muitas pessoas e também do país. As pessoas a verem diariamente e hora a hora que a vida não está a correr bem, mas continuam a participar em festas, continuam a brincar, como se não fosse nada com elas. Isso faz-me pensar muito no que é a nossa vida.

Tem algum livro favorito?

Não sou muito homem de leituras…

Referiu que gosta de ver televisão, tem algum programa favorito?

Programas informativos, programas desportivos, algumas séries que vão aparecendo, embora não seja algo que possa ver com frequência.

Qual a figura que mais o inspirou?

Era miúdo ainda, mas gostei muito, também por aquilo que ele defendia, do Francisco Sá Carneiro. Percebia já que era uma pessoa muito humanista, uma pessoa que tinha uma ideia e defendia ideias muito importantes para o futuro do nosso país e eu revejo-me muito nalgumas das suas ideias.

Qual o momento mais feliz da sua vida?

O nascimento do meu filho (suspiro profundo). Foi um momento muito feliz por diversos motivos. Foi um momento que eu esperava há muitos anos, porque infelizmente não foi fácil ter tido a possibilidade de ser pai…

Qual o momento mais triste da sua vida?

Nessa linha de raciocínio, quando, anos antes, alguém me disse, a mim e à minha mulher, que não conseguiríamos ter filhos (emociona-se). Outra situação foi a injustiça de que fui alvo, um processo judicial por uma coisa que nunca fiz (acusação de corrupção passiva da qual foi ilibado)

Como gostaria de ser lembrado enquanto presidente?

O presidente que ajudou e contribuiu para que o concelho de Ourém fosse efetivamente melhor. Para que a cidade de Ourém, a cidade de Fátima e o norte do concelho tivessem padrões de qualidade de vida mais idênticos. Gostava de contribuir para que o concelho de Ourém fosse todo ele mais igual que o que tem hoje. Reconheço que existem assimetrias grandes entre o sul e o norte do concelho e gostava que daqui a quatro anos houvesse uma homogeneidade em termos de vivências, em termos culturais, sociais, económicos. Gostava de ser reconhecido por isso e vamos trabalhar para isso. Em Ourém, gostava de dar uma volta grande à cidade. A cidade de Ourém merece ter muito mais do que tem hoje. E continuar a dinamizar e a potenciar o potencial que Fátima tem, que é efetivamente muito. Fátima é uma jóia da coroa que temos que potenciar.

Acredita que a sua formação como contabilista o pode ajudar?

São coisas diferentes. Eu estou habituado a trabalhar com a contabilidade normal, dos privados digamos assim, e isto é a contabilidade pública. Mas tenho noção de que a minha vivência como contabilista e de gestão da minha empresa me vai ajudar muito na gestão diária que tem que ser feita de uma organização como a Câmara Municipal, que é neste momento o maior empregador do concelho e movimenta muito dinheiro.

Chamou-me a atenção no seu discurso de tomada de posse dizer que vai assumir um município com quase mil anos. Independentemente de ficar uma semana ou 12 anos, já tem o seu nome inscrito na história do concelho e até do país. Qual a sensação?

É uma sensação de muita responsabilidade. Ficar na história da nossa terra, da minha terra, onde eu cresci, onde eu estudei, onde eu trabalho, onde eu quero continuar a viver e a trabalhar, onde quero criar o meu filho. É uma honra para mim muito grande, mas também uma responsabilidade. Eu tenho bem noção dessa responsabilidade e quero procurar estar à altura dos anseios e das expetativas de todos aqueles que depositaram confiança em nós e também dos que entenderam que havia outras alternativas. Quero ser o presidente de todos os ourienses, não quero deixar ninguém de lado.

“Aqui em Ourém, gostava de dar uma volta grande à cidade. A cidade de Ourém merece ter muito mais do que tem hoje”

É um presidente para 12 anos?

Neste momento sou um presidente para quatro anos. Obviamente que o projeto que nós apresentámos ao eleitorado é um projeto ambicioso, é um projeto vasto e eu reconheço que quatro anos é pouco para fazermos aquilo que queremos fazer. Eu não estou a dizer que vou ser candidato, porque isto muda muito. Vamos trabalhar para tentar cumprir o que prometemos, mas reconheço que quatro anos é pouco para fazer aquilo tudo com que nos comprometemos.

Não se assume então já como recandidato?

Obviamente que não. É o primeiro dia de uma jornada, de um caminho longo que temos que percorrer, e eu obviamente não lhe posso dizer hoje o que irá acontecer daqui a dois dias, quanto mais daqui a quatro anos.

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Os despojos do dia

Primeiro dia prosseguiu noite dentro, após um balanço aos jornalistas pelas 18h30 Foto: mediotejo.net

Os jornalistas regressam às 17h00. Prometido ficara um balanço do primeiro dia, mas este tardará até cerca das 18h30. Entre saídas e entradas de funcionários municipais na sala da presidência, é fácil perceber que a máquina já começou, ainda que lentamente, a trabalhar, regressando ao ritmo que perdeu enquanto esteve em período de gestão. Durante a tarde circularam mesas e cadeiras, refizeram-se os planos de distribuição do espaço, material informático foi deixado a um canto, nos corredores.

Luís Albuquerque já tem uma pequena pilha de papéis junto ao computador. Algumas situações carecem de resposta breve ou imediata. A gestão municipal não se parece compadecer de novos executivos, é necessário definir rapidamente pelouros, competências e representações. Essa informação será prestada à oposição na primeira reunião camarária do novo executivo, a 30 de outubro.

O presidente não mostra cansaço, adiantando que ainda nesse dia comparecerá num jantar onde já havia confirmado a sua presença. São os ossos do ofício, que só tenderão a intensificar nos próximos meses. Quem trabalha na causa pública não tem horários. E terá que deixar um pouco de lado a própria vida pessoal.

Mas sobre esses pequenos dramas não nos debruçamos ainda. É o final do primeiro dia de funções como presidente de Câmara. Qual o balanço?, questiona-se.

“Foi um dia de uma experiência nova”, resume, admitindo que pouco pôde fazer mais que reunir com executivo e chefes de gabinete e que terá que ficar para o resto da semana uma visita a outros serviços com dependência da Câmara e onde trabalham mais funcionários municipais. Aos que exercem funções nos Paços do Concelho “tivemos oportunidade de lhes dizer que confiamos em todos, contamos com todos”, afirmando que foi muito bem recebido.

Terminado o primeiro dia, um pouco menos a sério, seguir-se-ão outros mais atarefados. Na segunda-feira, pelas 9h00, decorre uma pequena inauguração do início da obra de requalificação da Avenida D. Nuno Álvares Pereira, em Ourém, um projeto deixado concluído pelo anterior executivo e que inicia agora a sua face mais visível com obras que marcarão o próximo ano da paisagem da sede do concelho.

A empresa municipal OurémViva é outro dos temas que preocupa o novo executivo, “uma situação muito complicada que devia ter ficado resolvida em 2016”, devido a uma ordem de encerramento do Tribunal de Contas. O futuro de 190 funcionários estará agora nas mãos deste novo executivo, que assume o problema e terá que encontrar uma solução.

Há um período tradicional de 100 dias em que se realizam as primeiras grandes decisões e se faz uma análise da gestão de um novo dirigente. É nesse momento que nos encontramos agora, depois deste 24 de outubro de 2017. Para já é a mudança e a expetativa do que poderá aí vir, novos rostos, novas opiniões, novas formas de trabalhar. O que virá dará notícia, mas por enquanto é o presidente a grande novidade.

Porque é de História que falamos, nunca um primeiro dia – este primeiro dia de mandato – se repetirá da mesma forma. O Luís Miguel não terá mais sete anos. O beijo de despedida da esposa não tornará a ter o mesmo sabor, a mesma intensidade no orgulho. O céu azul esquecerá uns estranhos 25ºC em pleno outubro. A equipa poderá não ser a mesma. Nem os tempos, as crises e outras tantas revoluções. Os funcionários mudam, reformam-se, partem. O edifício envelhece enquanto os objetos da memória acumulam.

Cria-se História, de Ourém, de Portugal, numa democracia que corre acelerada para o meio século. Em retrospetiva, já outro Albuquerque foi presidente de Ourém. Mas neste dia iniciou-se um outro capítulo dessa genealogia.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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