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Domingo, Outubro 24, 2021

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Ourém | No mundo dos mirtilos: a história de um recomeço através da agricultura

Susana e Jorge queriam mudar de vida. O stress e os ritmos acelerados do atual mercado de trabalho não permitiam o bem estar familiar que ambicionavam e começaram a sonhar com um regresso a uma vida mais natural ou, pelo menos, diferente da que tinham, embora com outros riscos associados. Foi assim que começou a germinar o projeto de se tornarem donos de uma pequena quinta dedicada à produção de frutos silvestres. A aventura já leva quase uma década, passou por várias dificuldades, mas permitiu-lhes recomeçar e encontrar um outro tipo de equilíbrio. Uma história que é um testemunho sobre os desafios e as motivações dos novos agricultores e de quem se quer aproximar da mãe Terra.

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No concelho de Ourém, têm nascido um pouco por todo o território pequenos projetos de produção de mirtilos, um fruto silvestre típico do norte da Europa, mas com menos tradição em Portugal. Na onda da alimentação saudável, esta baga azul tem sido introduzida na dieta e está cada vez mais presente nos supermercados. O mediotejo.net foi conhecer uma plantação situação em São Sebastião, freguesia de Atouguia, e tentar perceber o que atrai os agricultores para este tipo de cultura. 

A empresa “Fruto da Silveira” é um projeto do casal Susana Amaro, 45 anos, e Jorge Custódio, 51 anos. Ela, professora, ele, da área da gestão, desde 2013 que sonhavam erguer um projeto agrícola. O desafio não tem sido fácil e enfrentou altos e baixos desde a sua conceção inicial até à plantação que possuem hoje em São Sebastião, na tentativa de erguer uma marca local de qualidade.

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Quem nos recorda a história é Susana Amaro, começando por admitir que a ideia surgiu quando o casal manifestou o desejo de “dar uma volta à vida” e lutar por algo próprio. Num país já lotado de serviços, a agricultura começou a ganhar terreno no projeto familiar. 

a Fruta da Silveira tem 5 mil pés e cinco variedades diferentes de mirtilos. É um projeto nascido dos programas para jovens agricultores do PRODER Foto: mediotejo.net

A ideia inicial, explica Susana, até foi os morangos, mas acabaram por optar pelos mirtilos. A escolha do fruto não foi estranha ao casal, uma vez que têm passado na emigração em França onde o mirtilo é muito mais consumido. No entanto, a baga azul entrou na moda por meio dos circuitos da alimentação saudável e é uma área de negócio diferente do tradicional.

“Achámos que o mirtilo podia satisfazer melhor as nossas expectativas”, admite, constatando ser um produto mais resistente que a framboesa. “É um pouco uma novidade, como o abacate. Estes frutos não faziam parte da dieta, mas têm propriedades antioxidantes”, explica, o que pode estar na base do crescente interesse do mercado. “As pessoas estão mais atentas à alimentação saudável”.

Um das primeiras batalhas do casal foi a compra do terreno. Jorge Custódio recorda que “grande parte eram caros, outros não satisfaziam as necessidades…além disso, gostaríamos que fosse em Fátima ou bem próximo, dentro do concelho, se possível. Quando vimos este, gostámos logo da sua localização, aqui no sopé da colina do Castelo de Ourém… a vista é bonita e tem um ambiente muito tranquilo”.

O casal concorreu então ao programa jovens agricultores do PRODER – Programa de Desenvolvimento Rural (fundos da UE), já em 2015, e iniciaram este percurso pela agricultura dos pequenos frutos. Após a aquisição do terreno, o primeiro passo foi fazer um teste com 50 plantas. Como o solo não se revelou o ideal para a plantação, optaram pelos vasos, método de cultivo que mantêm atualmente e que beneficia com o clima da localização.

“Não é um caminho fácil, foi preciso muita resiliência, muita persistência para não desistir”, admite Susana, que mantém o emprego como professora, enquanto o marido se dedica à produção. A agricultura é um caminho lento e difícil. “Só plantámos em 2017, só transplantámos em 2018. Quem não tem força de vontade, desiste”, reconhece. 

A produção da “Fruta da Silveira” tem 5 mil pés numa área de 8500m2 e cinco variedades de mirtilos. São uma produção pequena, ainda a dar os primeiros passos, apostando sobretudo no mercado local. Não obstante a pandemia, foi possível ir crescendo nos últimos anos, estando 2021 a correr dentro das expectativas.

na Fruta da Silveira o cultivo é em vaso, dado o solo não ser o mais indicado Foto: mediotejo.net

“Estamos nas mãos da natureza”, acrescenta Susana, assegurando que não se usam químicos no cultivo e tudo é feito de forma bastante artesanal. A rega é gota a gota. “Tem muitos mais riscos”, constata, mas a garantia é a qualidade do produto e os benefícios para a saúde. 

“Como em qualquer projeto, vamo-nos deparando com alguns contratempos, mas mesmo assim, consideramos que está a correr bem”, acrescenta Jorge. “Estamos no nosso terceiro ano de colheita e as plantas são ainda relativamente novas, mas estamos com boas expectativas ao nível da produção. Aos cinco anos de idade uma planta poderá dar até 3 / 4 quilos por época, o que na nossa plantação significa que, em condições muito favoráveis, poderíamos colher mais de 15.000kg. Este número baixa sempre que vem chuvas tardias e com as quebras causadas por pássaros, por caracóis, excesso de calor, etc. O facto de não estarmos a utilizar químicos para o controlo de pragas, é sem dúvida um entrave ao aumento da produção, no entanto poder comer um fruto diretamente da planta, faz-nos sentir que este é o caminho certo”, esclarece.

“Sonhos há muitos”, confessa ainda Susana, nomeadamente investir em produtos derivados, como o mirtilo desidratado ou em doces. Já no retorno do investimento realizado é algo que prefere não pensar. A área agrícola, é sabido, é difícil e de parco retorno. “Vale pelo regresso às origens, à natureza”, constata, “de termos uma vida mais tranquila”.

“Está a valer a pena, dentro de todas as dificuldades que enfrentamos”, nomeadamente no longo inverno em que não há qualquer produção. Além disso, na medida em que há mais procura também há mais concorrência, havendo quintas de mirtilos na Corredoura, Seiça e Alburitel, alguns dos produtores oriundos da mesma formação do PRODER que o casal realizou.

“Apanhar mirtilo não é difícil, não é pesado”, reflete. O problema é a “delicadeza” que o trabalho exige. “Tem que se ter muito mimo”, concentração, num trabalho que é essencialmente manual. 

A maior praga são os pássaros, razão pela qual a produção está neste momento toda coberta por rede. Fora as aves, não obstante não sejam usados químicos, não têm tido problemas de maior com pragas, sendo o maior fator de preocupações as eventuais vicissitudes do clima. 

“Fomos muito autodidatas”, constata Susana, “lemos muito, falámos com outras pessoas”. A troca de conhecimento não é difícil, não obstante sejam concorrência. “Quem vai para a agricultura não vai com a intenção de enriquecer”, constata, “há quem perca tudo com o pedraço” (granizo).

“É um negócio arriscado, não temos a estabilidade de outrora”, reconhece. Mas, no final, “é colocar na balança o que vale a pena”.

Susana continua a dar aulas, mas Jorge dedica-se agora inteiramente à produção. A mudança radical, reflete, está a ser muito positiva. “Tinha um emprego (como muitos, nesta sociedade que corra constantemente) que causava muito stress… andava sempre com mil e uma coisa para resolver, pensar… Apesar de ser fisicamente mais exigente, o contacto com a Natureza, o poder usufruir a tempo inteiro do ar puro tem sido muito compensatório… “, refere, salientando estar feliz.

“Temo-nos dedicado muito a cada planta, a cada baga que tem de ser tratada com muito cuidado. Fazemos tudo com muito carinho. Nem sempre é fácil, pois os dias (na época alta) começam muito cedo e terminam muito tarde, todos os dias… Contudo, tem valido a pena: os ecos são bastante positivos e queremos continuar a dar o nosso melhor, da forma mais natural…”, conclui. 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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