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Domingo, Agosto 1, 2021

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Ourém: Jornalismo, xadrez e o encontro inesperado de Anka com José Alves

José Alves, 43 anos, fundou o AurenTV, página de facebook com perto de 7 mil seguidores e canal MEO 585132. O projeto de jornalismo cultural veio na sequência de uma outra paixão, o xadrez, o qual tem vindo a desenvolver junto dos mais jovens no concelho de Ourém. O mediotejo.net quis entrevistá-lo na semana em que celebra o segundo aniversário do seu projeto. Pelo caminho conheceu Anka Leloup, numa entrevista que se transformou numa reportagem sobre como as redes sociais potenciam as mais diversificadas formas de comunicar o mundo que nos rodeia. 

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“A vida imita o xadrez”. Quem o afirmou foi o jogador de xadrez Garry Kasparov (o tal que só foi vencido por um computador da IBM), citado por José Alves durante uma entrevista ao mediotejo.net. O trabalho unidirecionado rapidamente se tornou em entrevista polivalente, com a AurenTV também a reportar a presença do mediotejo.net. É o jornalismo deste novo século, em que as redes sociais e as novas tecnologias vieram abrir lugar a projetos diversificados e de proximidade, como o que José Alves desenvolve em Ourém com apenas um smartphone com banda larga, baterias e a página de facebook. Tal como no xadrez, é preciso saber olhar para todas as direcções e perceber para onde nos levam os cavalos…

Encontramo-nos junto ao pelourinho da Vila Medieval e vamos beber uma ginja à “Ginjinha do Castelo”. José Alves monta o pequeno tripé e o telemóvel e grava parte da entrevista. A sua história é a de um curioso que sentiu necessidade a dado instante de dar a conhecer o lado positivo do concelho em que nasceu. “Vi que havia necessidade de trabalhar este todo”, na grande diversidade patrimonial e histórica que existe em Ourém, focando-se nos eventos culturais e de raiz associativa que tendem a ser deixados de parte pelos Media tradicionais. O próprio reconhece que estes terão as suas limitações e que a AurenTV é um projeto amador. Mas veio preencher uma lacuna no panorama informativo, procurando ir ao encontro dos emigrantes através de uma plataforma “poderosíssima” que é o facebook.

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Faz reportagens de vídeo das mais diversas iniciativas, de festivais de folclore à Feira Quinhentista de Torres Novas. Já faz diretos, nova abordagem que tem vindo a desenvolver. O objetivo passa por dar a conhecer o que de melhor se vive e se faz no concelho e na região em que se insere. “Tenho descoberto muitos artistas ligados à música e à arte”, comenta, salientando que este trabalho é todo ele um hobbie, trabalha sozinho e que “daqui não ganho nada”.

a preparar o equipamento de reportagem. foto mediotejo.net
A preparar o equipamento de reportagem. Foto: mediotejo.net

Mas de onde surgiu esta vocação?, queremos saber. “Nos anos 90 cheguei a trabalhar num jornal quinzenal, onde aprendi um pouco de jornalismo”, lembra, o já extinto “Ourém e o seu concelho”. “Nunca deixei que esse bichinho morresse”. Sendo um autodidata, não tem medo de correr riscos, pelo que na época encarou a oportunidade com gosto e assumiu com dedicação as responsabilidades que lhe couberam. “Foi um estímulo”, sublinha.

Esteve parado em relação ao jornalismo durante muitos anos, até que as novas tecnologias lhe permitiram possuir as condições para lançar um projeto de comunicação pessoal. “Estou a utilizar o facebook para uma coisa boa”, afirma, reconhecendo o grande potencial da ferramenta e de como pode ser utilizada para fins menos pacíficos. Critica o excesso de negativismo que existe em alguma comunicação social e a necessidade de procurar conhecer os gostos do público, para além das notícias mais vulgares de acidentes e de mortes. “Este projeto é feito por mim para todos”, afirma, apelando a contributos dos que queriam participar.

O video com mais visualizações que teve até hoje foi sobre a praia fluvial do Agroal, em que com uma peça de 47 segundos conseguiu ter mais de 200 mil visualizações. Em Fevereiro deste ano o alcance total da página de facebook atingiu um milhão de pessoas. Este sucesso deve-se à sensibilidade deste jornalista/produtor, algo cineasta, “de fazer as coisas de como quer o espetador”. Os dois anos da AurenTV foram celebrados no Consolata Museu, dia 6 de junho, com a emissão em direto do “Chá com Arte”.

jogo de xadrez com um desconhecido, que vence em menos de cinco minutos. foto mediotejo.net
Jogo de xadrez com um desconhecido, que vence em menos de cinco minutos. Foto: mediotejo.net

Para José Alves, o jornalismo é “a arte de saber comunicar bem”. Neste mundo, a AurenTV quer marcar pela diferença, mostrando “aquilo que as pessoas tinham sede em ver nos canais oficiais e que não são mostrados”. O termo Auren (topónimo original de Ourém) remete assim para esse lado cultural, da história e da vida das suas gentes, abordagens que são noticiadas pela rama nos programas culturais do país, comenta.

“Em vez de ir à pesca ou para o golfe, o meu hobbie é o jornalismo amador”, refere. Trabalho “ocasional, 24 horas por dia”. Qualquer momento pode ser notícia, basta deparar-se com ele. O que não é muito diferente do jornalismo profissional…

Um jogo de xadrez com Anka Leloup

Deixamos a “Ginjinha do Castelo” e subimos ao Castelo de Ourém, onde José Alves quer falar da sua paixão pelo xadrez. Começou na escola, incentivado por um professor de Matemática, que lhe ensinou a apreciar o jogo. “É a perder que se aprende”, terá este dito ao aluno, já algo frustrado pelas sucessivas derrotas. Há dois anos também, José Alves começou a tentar divulgar esta modalidade, através da Associação P’escola da Soutaria, que hoje possui uma equipa federada de xadrez. Confessa posteriormente que a divulgação do jogo esteve entre os motivos pelos quais criou a AurenTV.

Anka Leloup "tem" uma página de facebook onde os donos relatam as suas viagens. foto mediotejo.net
Anka Leloup “tem” uma página de facebook onde os donos relatam as suas viagens. Foto: mediotejo.net

Primeiro com aulas na Biblioteca Municipal, depois com pequenas competições em Ourém e pela região, a promoção do xadrez não tem sido fácil e tem tido pouca adesão. José Alves não desanima. O próximo passo é um grande evento no Torreão do Castelo de Ourém, o “Auren Chess Castel”, a decorrer dia 3 de julho com música e animação. Explica que o xadrez é como uma batalha medieval, com reis, rainhas, cavalos, bispos e tropas, e o tabuleiro o campo de batalha. Como Aljubarrota e o campo de batalha de São Jorge. “Digo isto para entrar no imaginário, assim ganha-se o gosto”, explica, referindo que dá esta imagem quando ensina xadrez aos seus jovens alunos.

“Na vida jogamos todos xadrez”, refere, explicando o conceito do jogo e que tudo se resume a estratégia e antecipação dos movimento dos adversário: porquê aquele movimento? E para quê? Entretanto fez uma formação em xadrez e tornou-se monitor federado, rodeando-se de associações e figuras nacionais e internacionais que lutam pela promoção da modalidade. “Tive que me apoiar em alguém que me apoiasse e encontrei as pessoas certas”, refere, salientando os nomes do árbitro Carlos Oliveira Dias, o mestre e campeão de europeu de veteranos de xadrez António Frois ou do mestre angolano de xadrez João Francisco, que passou recentemente por Ourém.

“Ourém tem potencial para ter crianças a praticar xadrez”, defende, mas a adesão continua escassa. Modalidade que estimula o raciocínio e a capacidade de pensar além do óbvio, e que, por tal, por vezes se torna cansativa. Mas o filho de José Alves, com oito anos, já é praticante. “Noto que ele aprende a matéria da escola facilmente”, comenta.

O mediotejo.net é desafiado para uma partida de xadrez junto ao Torreão. “Já lá vão muitos anos e nunca foi muito boa no jogo”, defende-se a jornalista. José Alves anima-se, começa a enumerar os vários erros do jogador principiante. A jornalista, obviamente, comete-os todos. A meio da conversa somos surpreendidos por um cão com traços de Husky e vozes em francês chamando por ele. Os assobios perturbam a gravação e procuramos os donos do animal.

Chama-se Anka Leloup e é a protagonista de uma página de facebook que viaja pela Europa. Os donos, um casal jovem francês, aproxima-se e narra a sua viagem. Durante cinco anos percorreram França, agora pretendem levar Anka pelo resto da Europa. Não são estudantes nem têm nenhum tipo de objetivo neste seu projeto com divulgação nas redes sociais. Anka Leloup é uma turista errante que se perde pelas paisagens europeis. Eles, que não se chegam a apresentar, são “meros seres humanos” que a acompanham.

O rapaz pede que não publiquemos fotos dele, apenas da protagonista. José Alves convida-o para um jogo de xadrez. Este aceita – “já lá vão muitos anos…” – e perde em menos de cinco minutos. O dialogo sucede-se em inglês, francês, italiano e espanhol. Partilham-se páginas de facebook, trocam-se cartões, explicam-se projetos de vida. José Alves convida o casal e a sua carismática cadela para participarem no “Auren Chess Castle”, mas por essa altura já não estarão por Ourém. Explica que fazemos, ambos, reportagens para os respetivos meios de comunicação. É o rapaz quem segura o telemóvel na última parte da entrevista para a AurenTV.

Sociedade global, das redes sociais, toda a gente se entende. O mediotejo.net não chega a jogar xadrez…

O episódio com Anka Leloup marca o final desta reportagem, onde jornalismo, xadrez e novas tecnologias se cruzam, à boa maneira do século XXI. José Alves será o símbolo do que o futuro ditará da profissão, entre telemóveis, baterias, facebooks e uma imensa vontade de ir aonde outros  – novos projetos, novas abordagens? – não tenham tinha coragem de perscrutar.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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