Ourém | Imigração está a crescer no concelho à revelia da pandemia

A comunidade imigrante, em particular de brasileiros, está a crescer no concelho de Ourém. A perceção já havia sido mencionada em assembleias municipais e é confirmada por brasileiros ao mediotejo.net, que começam a criar negócios no concelho. Mas há também angolanos e indianos, esta última comunidade a estabelecer-se na zona de Caxarias. Com o turismo estagnado, viram-se para o apoio à terceira idade, as fábricas, a construção e as pedreiras, áreas com necessidade de recursos humanos no território. A reboque da pandemia, é incomportável viver em Lisboa ou no Porto. O interior é um novo foco de oportunidades para quem procura, sobretudo, não riqueza mas qualidade de vida.

Nem sempre vêm devidamente informados sobre a realidade portuguesa e passam por períodos de aperto até conseguirem adquirir documentação e estabilizar-se, processo que pode demorar alguns anos.

Em entrevista ao mediotejo.net, o youtuber e empresário Rodrigo Sangelo, 39 anos, reconheceu que a pandemia deixou vários imigrantes da região numa situação complicada, mas as pessoas estão a adaptar-se, deixando o turismo e voltando-se para os lares de idosos e fábricas. Há contas para pagar e por vezes não há hipótese de recorrer à Segurança Social, uma vez que a situação não está regularizada. Nem sempre regressar a casa é uma opção.

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No seu canal de youtube, Rodrigo procura dar apoio aos imigrantes que chegam a Portugal e admite que tem sido um influenciador no que toca às oportunidades que existem na região de Ourém/Fátima. De forma algo inesperada, tornou-se um mediador entre a comunidade imigrante local, ajudando compatriotas e outros imigrantes de várias nacionalidades a tratar da documentação laboral e a encontrar emprego. Conhece assim de perto as transformações que, no último ano e meio, têm afetado a este nível o território.

Rodrigo Sangelo chegou a Portugal há três anos, com seis filhos e a esposa, mas ao fim de ano e meio decidiu sair de Lisboa e procurar a sua sorte numa zona mais de interior. No mapa, surgiu Fátima. “Pesquisámos e percebemos que era uma zona mais acessível e com melhor qualidade de vida”, recorda. “A região é muito boa, muito tranquila”, acrescenta a esposa, Mércia Lopes.

O processo de imigração, admitem, é uma reinvenção constante. Quem chega tem que se adaptar a vários níveis e estar preparado para mudanças repentinas, assim como para realizar trabalhos que provavelmente nunca faria no país natal. Face à crise pandémica, foi o que que muitos compatriotas mais ligados ao turismo tiveram que fazer. “Quem dependia da hotelaria, do turismo, teve que se reinventar para outras áreas”, comenta Rodrigo Sangelo.

Na zona de Fátima/Ourém, no entanto, tem havido por onde encontrar alternativas. Os lares, aponta o casal, têm sido um dos setores a absorver estes recursos humanos. Depois há a construção civil, as fábricas, os cafés. “Muitas pessoas me procuram por causa de trabalho. Tenho feito essa mediação”, admite.

Há casos de retorno, mas a maioria da comunidade brasileira permaneceu em Portugal neste ano pandémico. E continuam a chegar. Rodrigo e Mércia constatam que se não fosse a pandemia o fluxo de brasileiros provavelmente seria muito maior. O facto de ser atualmente muito difícil viver com ordenados baixos em Lisboa e no Porto faz com que os imigrantes procurem cada vez mais oportunidades no interior.

Brasileiros, angolanos e indianos começaram assim a estabelecer-se no concelho de Ourém no último ano. O próprio casal admite que assistiu a esse crescimento, do qual foram em parte protagonistas entre os compatriotas. “Tenho dito para virem para o interior. Há trabalho, uma renda mais acessível, segurança, escolas, deslocamento”, reflete. Com as outras nacionalidades vão-se cruzando e aperceberam-se também do respetivo crescimento, o qual acreditam que a pandemia poderá ter potenciado.

No caso dos brasileiros, refletem, não se vem propriamente à procura de riqueza, mas de qualidade de vida. “Há pessoas que trocam tudo no Brasil pelo sossego. Não tem preço”, afirmam, salientando a segurança da região, assim como a excelente qualidade do ensino público em Portugal. O preço da alimentação também é muito baixo.

Rodrigo Sangelo montou recentemente uma empresa e já tem cerca de uma dezena de colaboradores, refere. Garante que os brasileiros são trabalhadores e salienta que os imigrantes podem ser uma fonte de riqueza para a região.

Por tal fica surpreendido quando lhe falamos do gabinete de apoio ao imigrante da Câmara de Ourém, o qual desconhecia. “Faz falta ajuda para orientar na documentação”, enumera, mas também apoios para os filhos dos imigrantes que ainda não estão completamente regularizados no país, apesar de estarem a trabalhar. O processo é demorado, constata, e se o município pudesse ter em conta estas situações seria uma forma de permitir a estas pessoas estabelecerem-se com mais facilidade.

Contactado pelo mediotejo.net, o presidente da junta de Fátima, Humberto Silva, afirmou não ter números, mas referiu que efetivamente se tem registado um aumento de brasileiros e angolanos na autarquia a tratar de documentação. Muitos, notou, aparentam já não ser de classes mais baixas, como noutras épocas, mas de classe média, média alta.

Em Caxarias, o presidente da junta, Filipe Graça, reconhece um crescimento curioso de indianos e cidadãos do Bangladesh, para além de brasileiros. “Estas três comunidades tornaram-se muito representativas”, referiu ao mediotejo.net, ao ponto de se gerar um problema na freguesia de falta de apartamentos para arrendar. Vêm trabalhar em empresas ligadas à desmatação e à atividade agrícola, assim como em fábricas localizadas nesta freguesia, cuja sede é atravessada pela linha de caminhos de ferro.

A questão da imigração foi mencionada numa reunião camarária do executivo municipal a 9 de novembro. O PS fez notar que não há apoio municipal para estas pessoas, as quais ficaram sem os empregos ligados ao turismo de Fátima devido à pandemia, havendo situações de desespero. Face às críticas, o presidente Luís Albuquerque referiu que há um gabinete de apoio ao imigrante, que se encontra a funcionar no Espaço Empresa.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

3 COMENTÁRIOS

  1. A merda transborda desde quando é que brasileiros ou angolanos são conhecidos por serem trabalhadores salvo poucas exceções . Daqui por algum tempo estará a segurança social a sustentar toda esta escumalha

  2. Olhem-me estes dois… Há que dar oportunidade às pessoas não ? Os brasileiros e angolanos não são diferentes de nos, quantos portugueses não temos nos a viver à conta da S.S ? É meus caros, até agora os emigrantes tem dado um saldo bem positivo para a S.S. A mesma que vos vai pagar a reforma um dia, e não se esqueçam que um dia também muitos dos nossos compatriotas rumaram ao Brasil em busca de melhor vida e talvez um dia os vosso filhos ou netos o façam de novo, o Brasil tem um potencial enorme e as alterações climáticas não vão ser muito favoráveis a Portugal. Tratem bem se querem ser bem tratados, o mundo é redondo, dá uma volta sobre si mesmo um vez por dia.

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