Ourém | Empresários de Fátima assustados com cenário iminente de bancarrota

Santuário de Fátima. Fotografia de Paulo Jorge de Sousa

*texto retificado às 13h58 de 12 de agosto de 2020

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“Não há peregrinos, não há dinheiro.” A pandemia veio evidenciar os problemas estruturais de Fátima: excesso de oferta para a procura, preços demasiado baixos, dependência de grupos e de estrangeiros, atratividade reduzida. Quem visita a cidade só quer ir ao Santuário e os portugueses, agora os principais visitantes, pouco consomem e não permanecem. A ocupação hoteleira encontra-se nos 10%, a meio da chamada “época alta”. Uma eventual retoma só em abril de 2021, na melhor das perspectivas, consideram empresários de Fátima, que se reuniram na segunda-feira, dia 10, num debate promovido pelo MOVE – Movimento Cívico.

A pandemia chegou no momento em que se preparava o início da época alta em Fátima e foi ficando muito além do desejável, com um 13 de maio deserto e um surto de casos de covid-19 no coro do Santuário de Fátima, em junho, a afetar negativamente a retoma da economia. No debate culparam-se os meios de comunicação social que avançaram com a notícia do surto e o aparente alheamento do Primeiro-Ministro e do Presidente da República em relação à “asfixia” da cidade religiosa. Mas também se constataram as evidências: Fátima contribui muito pouco para o Produto Interno Bruto (PIB) turístico.

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O líder do MOVE é Vítor Frazão, ex-presidente da Câmara de Ourém que tem dado a cara pelos independentes no concelho. No início do debate expôs a necessidade de se criar um gabinete de crise para preparar a resposta às consequências da pandemia de covid-19 e de criar um lobby que pressione António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa a visitarem a cidade. Fátima, constatou, “não devia interessar apenas quando vem um Papa”.

Ex-presidente de Ourém, Vítor Frazão, quer que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa venham constatar a “asfixia” económica da cidade Foto: mediotejo.net

No debate realizado no restaurante “Retiro dos Caçadores” compareceram responsáveis das maiores unidades hoteleiras de Fátima e agências de viagens, bem como de alguns restaurantes e lojistas. O objetivo era criar um documento final com as principais preocupações dos empresários da cidade e um conjunto de propostas.

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O primeiro a intervir foi o Padre José Augusto, dos hotéis ligados aos Missionários do Verbo Divino. O responsável constatou que foram contratados recursos humanos com a perspetiva de um determinado ano e que agora estão “sobredimensionados” para a procura. “Como fazer frente à grande quantidade de recursos humanos que temos sem faturação?”, questionou.

Acrescem os encargos com investimentos recentes que ainda não foram amortizados. O problema principal é a tesouraria, frisou, apelando ao alívio de impostos e à redução do IVA, assim como a um novo layoff simplificado.

Por outro lado, Fátima ficou com má imagem depois do surto de covid-19 no Santuário. “Há três semanas que não temos casos novos. Estas notícias deviam ser ditas em voz alta”, afirmou. O sacerdote proporia assim a promoção de Fátima como “destino seguro”.

Há excesso de oferta para a procura mesmo em anos normais, e a pandemia só veio colocar em evidência problemas que já existiam, considera António Gonçalves, do Lux Hotels

De seguida interveio Afonso Carreira, da agência de viagens Verde Pino, que constatou que desde março não teve mais reservas. A empresa ainda tentou criar novos pacotes, mas o controlo de fronteiras, a exigência de testes à covid-19 e possíveis quarentenas desmotivam qualquer agendamento de viagem. “Não estamos com boas perspetivas até ao aparecimento de uma vacina”, admitiu.

O responsável apontou, porém, a falta de promoção em torno de Fátima e o facto do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já ter visitado várias vezes o Algarve nos últimos meses e não ter passado ainda pela cidade religiosa. “Fátima também vive do turismo”, afirmou.

Também em representação de uma agência de viagens, Sérgio Bregieira confirmou o cenário do colega. Adiantou porém pertencer a uma nova associação, designada Associação Portuguesa do Turismo Sustentável, que está a realizar algumas iniciativas, nomeadamente um workshop previsto para setembro para debater as debilidades de Fátima.

“Fátima vive de uma monocultura: o turismo religioso”, refletiu. “Nós temos Igrejas vazias por essa Europa fora”, constatou. Parte do turismo religioso em que se concentra Fátima tem “apenas” como objetivo “ver o fenómeno”. Sem pessoas, não há fenómeno para ver, referiu.

A associação quer assim apostar em novos produtos, como o ecoturismo e o envelhecimento ativo, por forma a diversificar a oferta de Fátima e combater esta dependência em torno do Santuário no longo prazo.

O discurso mais forte partiu de António Gonçalves, em representação do Lux Hotels, que possui unidades hoteleiras em Fátima, Lisboa, Porto e Évora. Segundo afirmou, mesmo o ano do centenário, em 2017, que deveria ter sido o melhor de todos, não foi particularmente bom em Fátima. Há excesso de oferta para a procura mesmo em anos normais, e a pandemia só veio colocar em evidência problemas que já existiam.

“Estamos todas a arranjar dívida”, comentou, face aos empréstimos disponibilizados para fazer frente à pandemia. Isto porque quem vem a Fátima por estes dias só vai praticamente à missa e não há perspectivas animadoras de retoma até abril de 2021.

“O Santuário é atrativo, mas falta o resto”, salientou, evidenciando a escassa oferta alternativa que potencie mais dormidas. A ocupação dos hotéis encontra-se nos 10% e vai demorar a tornar a ter os espaços cheios. Por tal, expôs, o que se pensar agora tem que ser para o médio/longo prazo.

Para António Gonçalves, a oferta de meia pensão por 20 euros, preços típicos da cidade, está a condenar a longo prazo a economia da cidade. “Não tem viabilidade. Eu sei que a culpa é nossa”, refletiu, “mas as pessoas não ganham dinheiro”. Os hotéis só estão abertos, diz, “porque são famílias que lá estão, fechadas, a trabalhar o ano todo”.

O responsável acredita que a oferta de quartos tem que diminuir, mediante o encerramento ou reconversão de unidades hoteleiras, ou conseguir aumentar o número de visitantes e a sua permanência. “Estamos todos a retirar valor ao mercado”, defendeu, usufruindo na prática muito pouco dos cerca de 5 milhões, em média, de turistas e peregrinos que passam todos os anos pela cidade. “Não é possível manter as coisas como estão”, refletiu.

Uma dúzias de empresários debateram a crise provocada pela pandemia e constataram que se evidenciaram problemas estruturais de Fátima Foto: mediotejo.net

Alexandre Marto, representante do grupo Fátima Hotels, partilhou parte das preocupações do colega, mas frisou que, neste momento, a “emergência” é salvar as empresas. As linhas de crédito disponibilizadas, admitiu, são um “presente envenenado” porque o período de retorno devia ser muito mais alargado, ao nível de 20/30 anos. “Os apoios são curtos, mal desenhados e não transmitem previsibilidade”, refletiu.

O responsável também defendeu um novo layoff simplificado. “Nesta fase emergente é a tesouraria que tem que ser ajudada”, referiu, adiantando que foi proposto ao município de Ourém a isenção do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), o que foi recusado.

Mais pessimista, Alexandra Marto comentou que não acredita numa retoma antes do segundo semestre de 2021. Um exemplo, referiu, é que os norte-americanos adiaram as intenções de viajar nos próximos seis meses.

“Estou preocupado. Fátima é o Santuário… Se houver peregrinos, vamos andando. Alternativas de natureza, desporto? Oiço isso há 30 anos”, diz João Manhãs, empresário de Fátima há 30 anos

Não obstante o ecoturismo e o envelhecimento ativo sejam projetos interessantes, o empresário defendeu que o produto turístico existente não é “Fátima” mas o “turismo religioso”, e é dentro dele, liderando mas em grupo, que Fátima pode reerguer-se, mediante apoios europeus. “Se tirarmos importância ao turismo religioso, mais ninguém a dará”, constatou.

Alexandre Marto propôs assim que se pressione o Turismo de Portugal a integrar no seu plano de ação a promoção junto de mercados como a Polónia, a Itália ou a Coreia do Sul, que são mercados fracos a nível nacional mas muito importantes para Fátima.

“O mercado implodiu”, considera, e é importante ter esta visão integrada e trabalhar numa perspetiva alargada. Apelaria assim a um novo foco voltado também para o turismo de eventos, procurando-se a isenção fiscal para utilização do Centro Pastoral Paulo VI para outro tipo de iniciativas que não as religiosas (a estrutura pertence ao Santuário e qualquer cedência para utilização civil com outros fins implica custos fiscais bastantes agravados).

O empresário João Manhãs, no mercado de Fátima há 30 anos com restaurantes e lojas, admitiu que os seus negócios estão a ser afetados pela falta de clientes nos hotéis. “Posso mudar o tipo de cliente, mas isto não é imediato”, constatou, referindo também dificuldades em cumprir os compromissos e encargos de tesouraria.

“Estou preocupado”, reconheceu. “Fátima é o Santuário… Se houver peregrinos, vamos andando. Alternativas de natureza, desporto? Oiço isso há 30 anos”, comentou. “O inverno vai ser longo”, concluiu, adiantando que os peregrinos baixaram para menos de 50% e, entretanto, agosto já vai a meio.

O testemunho de Jorge Reis, do Hotel Cinquentenário, não foi muito mais animador. “Nós estivemos induzidos em coma três meses”, afirmou, constatando que atualmente “não entra dinheiro suficiente para salários, quanto fará para impostos”.

“Nós estivemos induzidos em coma três meses, não entra dinheiro suficiente para salários, quanto fará para impostos”, diz Jorge Reis, do Hotel Cinquentenário

Para o empresário o fundamental é que chegue ajuda às empresas para suportar os encargos de tesouraria, considerando que estar a pensar em promoção do destino Fátima neste momento é gastar dinheiro. “As pessoas não vêm”, afirmou, referindo que o surto no Santuário de Fátima foi penoso para a economia local. “Temos que fazer das tripas coração. Precisamos de ajuda”.

Santuário de Fátima. Fotografia de Paulo Jorge de Sousa

Não havendo dinheiro para pagar salários, foi consensual que se vive na eminência de um problema social com contornos graves, do qual as autoridades não terão plena consciência.

“Não há peregrinos, não há dinheiro”, sintetizou Pedro Silva, da Luz Charming Houses, alertando que se não houver ajuda a questão social vai agravar-se. “Esperemos que não.”

O empresário também admitiu que é necessário começar a pensar Fátima doutra forma, apostando no turismo de congressos, por exemplo: “É preciso arranjar produtos complementares” ao Santuário de Fátima.

A encerrar, o empresário José Vieira resumiu os problemas identificados, comentando que se a Câmara não pode isentar o IMI, poderia eventualmente reduzi-lo. “Fátima parece uma cidade fantasma, não se vê ninguém”, constatou.

“Enquanto não houver aviões e autocarros” a circular normalmente, concluiu, a vida da economia de Fátima não voltará à normalidade.

A terminar os trabalhos, Vítor Frazão comentou que não se pretendeu atacar ninguém com este debate, que é apenas uma iniciativa de auscultação da população que irá passar pelas 13 freguesias do concelho de Ourém. “Fátima tem que ser repensada”, concluiu, confirmando que a comunidade empresarial vive bastante receosa, traçando um cenário de iminente colapso.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Vendam os Porches e os Jaguares. Enquanto correu bem enriqueceram e pagaram uma côdea aos empregados agora miam . Nenhuma pena a maioria são execráveis como empresários e como pessoas não são melhores

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