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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Ourém | “É uma mentira, é falso” que pastorinhos de Fátima tenham estado na cadeia

A Câmara de Ourém encontra-se a remodelar o edifício clássico dos Paços do Concelho para ali criar um pólo do Museu Municipal dedicado à prisão onde os pastorinhos de Fátima estiveram em agosto de 1917. As fontes são as Memórias da Irmã Lúcia e uma carta escrita pela própria ao presidente da Câmara, David Catarino, em 1998. Mas os resquícios da memória popular da época fizeram-se ouvir na assembleia municipal de 28 de abril, com alguns deputados a afirmarem que a reclusão das crianças com outros presos na cadeia da então Câmara Municipal nunca se verificou.

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“É um mentira, é falso. As pessoas desse tempo sabem bem que eles nunca aqui estiveram, estiveram em casa do administrador”, afirmou peremptoriamente o deputado Júlio Henriques (MOVE) durante a assembleia de 28 de abril. O presidente da Câmara, Paulo Fonseca, havia acabado de expor o projeto de se criar um núcleo museológico dedicado aos pastorinhos de Fátima no edifício da antiga Câmara Municipal (ao lado do atual), onde ficava a cadeia onde terão estado presos a 13 de agosto de 1917.

Ali será exposta a carta manuscrita da Irmã Lúcia a David Catarino que o afirma. Pretende-se também, explicou, criar uma “rota dos pastorinhos”, no objetivo concreto de trazer pessoas de Fátima até Ourém em busca dos lugares onde se viveram outros episódios da vida das três crianças.

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No entanto a memória que resiste em torno da atuação do administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, há 100 anos não é unânime. É facto que o responsável levou, sobre falsas pretensões, as crianças de Aljustrel para Ourém no dia da aparição, frustrando as expetativas da multidão que aguardava os pastorinhos na Cova da Iria. No entanto, persistem dúvidas sobre o que a Irmã Lúcia relata nas suas memórias, onde afirma que ela e os primos estiveram na cadeia, junto com outros presos, tendo até interagido com eles.

O mesmo afirmou numa carta ao presidente David Catarino, escrita em 1998, e que será exposta neste Museu. Diz a mesma: “no tempo das aparições, os pastorinhos de Fátima, foram detidos e levados para Ourém, estiveram, parte do tempo, em casa do Administrador, parte na cadeia juntamente com outros presos, que os trataram bem procurando distrai-los e rezando com eles, o terço”.

Jornal “A República” de 20 de julho de 1951. Fonte: Arquivo de Ourém

Este debate foi levantado por Júlio Henriques em assembleia municipal. Sublinhando a situação como uma “mentira”, lembrando relatos de pessoas da época que viram as crianças na casa do administrador brincando com os filhos deste, sugeriu que se lesse a entrevista a D.Carlos Azevedo, delegado pontifício da Cultura no Vaticano, publicada recentemente no jornal Público. Nesse artigo, o clérigo expõe as contradições encontradas da sua investigação em torno de Fátima.

A mesma visão dos acontecimentos foi partilhada pelo deputado Sérgio Ribeiro (CDU), que ainda chegou a conhecer Artur de Oliveira Santos, referindo que a carta da Irmã Lúcia credibiliza uma mentira. “Enquanto puder e tiver voz hei-de recordar o que me disse o Artur Oliveira Santos”, que faleceu tinha Sérgio Ribeiro 15 anos. “Enquanto puder não consentirei que seja dito isto em minha presença”.

A discussão teve ainda a participação de outros deputados, lembrando histórias de pais e avós. Uns mencionando que os pastorinhos estiveram em casa do administrador, outros que os foram visitar à cadeia. Paulo Fonseca procuraria acalmar os ânimos, salientando que se trata aqui apenas da presença dos pastorinhos em Ourém.

Artur de Oliveira Santos, republicano convicto, ficou marcado pelos acontecimentos de Fátima pela negativa. O “rapto” em agosto deixou para a história a narrativa de que teria ameaçado os primos de que seriam mortos numa caldeira de azeite a ferver se não revelassem o segredo que diziam lhes ter sido transmitido por Nossa Senhora. As crianças regressariam a casa sem mazelas, tendo o sucedido resultado em notícias nos jornais da época.

Em 1951, no jornal “A República”, Artur de Oliveira Santos ainda se tentaria defender das acusações que lhe faziam quanto à sua atuação com as crianças em 1917. Para os nossos leitores deixamos a cópia desse texto, escrito pelo autarca republicano.

Também a Câmara de Ourém, em várias iniciativas que envolveram a família de Artur de Oliveira Santos, tentou reabilitar a memória deste personagem da história de Fátima.

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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3 COMENTÁRIOS

  1. É evidente que a irmã Lúcia não mentiu. Inclusive, foi vítima de outras perseguições republicanas. O tal administrador quando viu as coisas correrem mal para o seu lado começou a desenrascar-se….

  2. Existem os que acreditam e os que nao acreditam visto que me parece que nenhuma testemunha da epoca esteve presente neste debate .
    E natural que agora ha duvidas, quando a minha avo me disse para nunca duvidar um so momento do que aconteceu naquela epoca pois ela assistiu aos acontecimentos eu sempre acreditei nela pois foi sempre uma mulher seria e integra

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