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Sábado, Maio 8, 2021

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Ourém | Com “O Novelo da Esperança” Filipa Reis partilha uma vida com cancro aos 34 anos

É como um novelo. Um nódulo que se identifica no peito e que traz angústia a qualquer idade, mas não é propriamente expectável a quem ainda mal entrou nos 30. Identificado cedo e sem ter criado metástases, sabe-se que será sobretudo um longo processo de tratamentos agressivos, com repercussões na saúde física e mental. A fatimense Filipa Reis sabia tudo isto e recusou-se a deixar-se levar pela revolta. “Acho importante nunca deixarmos de sorrir”, afirma. Assim nasceu a página “Renascer – o Novelo da Esperança”. A história de uma experiência de vida que é muito mais que uma luta química contra a doença. 

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Tudo começou com um check-up de rotina. A mãe tinha tido há alguns anos nódulos no peito, que tratou apenas com medicação. Consciente destes problemas, Filipa fazia rastreios regulares. Foi assim que no final de 2020 lhe foi diagnosticado cancro da mama, um tumor com 1,5 centímetros mas de progressão rápida.

O momento foi doloroso, tanto para ela como para o marido, mas desde cedo procurou contrariar a inevitável escalada de desânimo que se avizinhava. O primeiro passo, contou, foi escrever.  “No início andava com um caderno”, disse ao mediotejo.net, “para escrever o que sentia” e evitar o sentimento de revolta. Filipa procurava encontrar o sentido para o momento que vivia e as respostas que lhe permitiriam continuar em frente. Pensar positivo tornou-se o seu grande foco.

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A partir da escrita e das suas reflexões acabou por surgir a ideia de fazer uma página de facebook dedicado ao tema, ou seja, todo o processo de tratamento que vai empreender durante este ano de 2021. Filipa queria registar o percurso, sobretudo porque sabia que iria “mexer muito com a minha autoestima” e acabaria por enfrentar momentos inevitáveis de desânimo. Era preciso um objetivo que trouxesse sentido à sua experiência.

O processo de tratamento, desde o corte do cabelo, está a ser acompanhado pela fotografia de Piedade Oliveira Foto: Piedade Oliveira

A ideia do nódulo foi transposta para um novelo, design que um amigo lhe ofereceu para o projeto. O “renascer” marca esta nova etapa, que já a transformou profundamente para o resto da vida e trouxe ao de cima uma nova Filipa.

Surgiu assim “Renascer – O Novelo da Esperança”. A página tem pouco mais de um mês e teve logo uma adesão superior ao que Filipa Reis esperava.

Em parte porque as primeiras publicações focaram quase de imediato uma das partes mais sensíveis da luta contra o cancro no feminino: o corte do cabelo. Filipa pediu a uma amiga, a fotógrafa Piedade Oliveira, que fosse testemunha deste processo e ao longo de todo o percurso. O filho de 5 anos e o marido ajudaram no corte, por forma a participarem no momento.

O cabelo ficou mais curto, mas não rapado. A mudança foi repentina, mas gradual. Filipa, sozinha, rapou completamente o cabeça uma semana depois.

“Foi uma sensação de alívio”, admite. De um dia para o outro, o cabelo começou a cair-lhe em cachos. Conforme explica, não é o mesmo rapar o cabelo quando este ainda é saudável e bonito do que quando já está fino, frágil e com várias falhas.

“Senti uma grande leveza” e, não obstante sinta saudades do cabelo, confessa que no banho é relaxante sentir a água a passar-lhe na nuca.

Entretanto a página ganhou forma e tem por missão dar estrutura às suas experiências pessoais, sendo também uma forma de partilha e ajuda a quem vive momentos semelhantes. A antecipação da primeira sessão de quimioterapia e a vivência dos sintomas secundários é um dos temas que partilhou recentemente.

“Nos dias que antecedem o primeiro tratamento há muita ansiedade”, confessa, mas, no ato, pouco mais se sente que uma picada. “Na primeira semana senti muitas dores no corpo, um cansaço extremo, enjoos”, recorda, mas entretanto começou a adaptar-se.

Filho de 5 anos ajudou a fazer o primeiro corte de cabelo Foto: Piedade Oliveira

Para além do trabalho fotográfico de Piedade Oliveira, que vai documentar todo este processo, Filipa quer trazer testemunhos sobre conselhos de alimentação, a prática de terapias alternativas para melhoramento do bem estar, conselhos sobre exercício físico e até conselhos de beleza. Os turbantes que usa são um dos seus acessórios mais emblemáticos.

A sua página é também, por si, um testemunho de fé. “Agarrei-me muito à meditação, às orações”, confessa. “Sempre vivi perto do Santuário de Fátima e só quando passamos por estes desafios nos lembramos, não de pedir, mas de agradecer”, reflete, “sente-se ali uma energia que não se explica”.

“O mais importante é perdoar o que tem que ser perdoado e agradecer”, continua, “e depois confiar. Confiar que a cura está lá. Agradecer por haver cura, porque há muitas situações onde não há”.

A careca evidenciou alguns dos traços característicos de Filipa: olhos grandes e um grande sorriso, sempre aberto. “Acho importante não deixarmos nunca de sorrir”, afirma, “outra coisa que aprendi foi a viver um dia de cada vez. Sempre fui uma pessoa muito ansiosa”. Agora aproveita cada dia e vê a sua vida de maneira diferente; um renascimento como aquele que a procura relatar na sua página.

Filipa é comercial, mas o confinamento tem evitado que se exponha além das redes sociais. Ao anunciar no facebook o seu estado de saúde, quis também proteger a família, que trabalha nas pracetas de Fátima e são pessoas conhecidas na comunidade. E é assim, na primeira pessoa, pelas suas ações e testemunhos, que vai contando a sua história a quem esteja disponível para ouvir.

Aos 34 anos ninguém está à espera de ser diagnosticado com cancro. Em alguns grupos de apoio a que aderiu nas redes sociais encontrou, porém, histórias mais gravosas. Encontrou também ajuda e informação, que procura também partilhar.

A mensagem de Filipa é positiva. O cancro é uma experiência e vai vivê-la com esperança Foto: Filipa Reis

Não obstante o contexto pandémico e as dificuldades sentidas a nível nacional no diagnóstico e acesso a tratamentos oncológicos, todo o processo de Filipa sucedeu extremamente depressa. Ao primeiro indício da probabilidade de cancro, em dezembro, e dada a demora na resposta do serviço público, optou por socorrer-se do Instituto Champalimaud, onde fez os restantes exames. O diagnóstico mais preciso, com a respetiva gravidade e indicação de tratamento ocorreu poucas semanas depois, em janeiro, tendo começado pouco depois os tratamentos, que decorrem até junho.

Por tal, acabou por não sentir os impactos da pandemia, tendo só recentemente se apercebido do aumento significativo de afluência às sessões de quimioterapia.

Recordando o diagnóstico inicial, lembra que pensou que seria como a mãe e tudo se resolveria com medicação. Mas a sua história é, afinal, a de um diagnóstico extremamente precoce, sem metástases e boas probabilidades de sucesso. Terá inevitavelmente que ser operada, embora ainda não saiba a que profundidade e que outras cedências tenha que fazer pelo caminho.

Na vivência da doença, comenta a importância de se ter atenção à linguagem na comunicação com o paciente. Dizem “vai correr tudo bem”, reflete, mas de uma forma que quem ouve dificilmente acredita.

“Julgo que as pessoas precisam de ouvir palavras positivas”, refere, sugerindo que se troque “cancro” por “experiência”. Esta é, afinal, uma experiência. “Tento encontrar as palavras certas, que incentivem, encorajem”. Este será o seu ano de 2021.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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