Sábado, Fevereiro 27, 2021
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Ourém | Caxarias, uma freguesia em crescimento no coração industrial do concelho

*texto retificado às 10h06 de 12 de janeiro de 2021

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A Caxarias chega-se de comboio. A linha de caminho de ferro fez desta freguesia, cuja sede é uma das vilas do concelho de Ourém, o coração industrial do município. O presidente da junta, Filipe Graça, não tem dúvidas do seu potencial. O grande crescimento da comunidade imigrante é disso prova. Longe do reboliço de Fátima, a autarquia tem sabido captar e manter empresas, de setores tão díspares como agricultura, madeiras, metalurgia e até um curioso campo de footgolf. Há mais neste concelho para além do turismo religioso.

Freguesia desde 1947, Caxarias chegou a vila em 1995. A toponímia por aqui é um assunto complicado, explica Filipe Graça, uma vez que a junta de freguesia, próxima à estação de comboios, não fica exatamente em “Caxarias”, mas num lugar designado Carvoeira. Em 1985 alguns lugares acabaram por ser suprimidos e a designação geral da vila, muitos além de anteriores limites geográficos, é atualmente Caxarias, mas o presidente da junta admite que este não é um assunto fechado.

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A freguesia possui cerca de uma dezena de aldeias e os censos de 2011 atribuem a esta autarquia 2.166 habitantes. “Hoje serão 2500”, acredita Filipe Graça, dada o crescimento visível de imigrantes, entre brasileiros, indianos e cidadãos do Bangladesh.

“Estas três comunidades tornaram-se muito representativas. De há três anos para cá os ucranianos e os russos foram embora”, analisa. A imigração destina-se sobretudo à desmatação e para as várias empresas que existem neste território.

Filipe Graça acredita que a freguesia tem potencial para maior desenvolvimento Foto: mediotejo.net

“A nível industrial, Caxarias foi sempre o motor do concelho”, afirma orgulhosamente Filipe Graça. Para tal terá contribuído a linha do comboio, mas também a qualidade da mão de obra, acredita. “A população tem espírito trabalhador, é o seu ADN”.

Um exemplo, constata, é o espírito de voluntariado que existe nos Bombeiros de Caxarias. “Os bombeiros são quase um oásis no país em questão de voluntariado. É este espírito de serviço e de trabalho das pessoas. Esta é uma vila de trabalho”, reflete.

Para além da corporação de bombeiros, a freguesia possui a Associação de Caxarias para a Infância e Terceira Idade (ACITI), o Lar de São Miguel, um centro de saúde, um posto de correios, o Centro de Cultura e Desporto de Caxarias, Escuteiros, a Associação dos Andrés (dedicada ao teatro), um Grupo Columbófilo e a Escola de 2º e 3º ciclos Cónego Dr. Manuel Lopes Perdigão, também sede de agrupamento, para além de duas escolas de 1º ciclo com jardim de infância, em Carvoeira e Pisões.

Em 2020 um dos temas mais badalados sobre esta freguesia foi a criação de um EcoCentro perto da Escola de 2º e 3º ciclos. O projeto é do município de Ourém e foi apresentado pelo próprio presidente, Luís Albuquerque, em junho, tendo produzido de imediato alguma contestação. Filipe Graça explicou ao mediotejo.net que o tema já passou por uma assembleia de freguesia, com alguma participação popular, mas não tem mais informação sobre a eventual concretização do EcoCentro, que é apenas um estudo prévio.

Degradação do Centro de Saúde é uma das principais preocupações da população

A entrevista do mediotejo.net a Filipe Graça dá-se antes da hora de receção dos fregueses. O presidente, porém, reconhece que pouca gente recebe neste horário. Os problemas são-lhe transmitidos na rua, diretamente, a qualquer momento do dia ou da semana.

“Uma das grandes preocupações é o estado do centro de saúde, que em princípio será deslocalizado [para uma escola primária devoluta, ainda em fase projeto], e a falta de médico”, admite o autarca. Caxarias regista um total de 5 mil utentes sem médico, uma vez que o respetivo centro de saúde abrange outras localidades fora da freguesia. Neste momento, refere o autarca, há um médico em permanência e visitas pontuais de médicos contratados a empresas. “Mas é insuficiente”, constata, “os médicos ficam um ano e vão-se embora”.

Filipe Graça explica que o grande problema é a falta de condições. “O edifício parece o escritório de uma fábrica abandonada”, exemplifica. “Isso é a maior preocupação, o resto são os tradicionais buracos nas estradas”, reflete.

O autarca constata também a necessidade uma creche na freguesia. “Há trabalho, mas as pessoas não têm onde deixar as crianças”, que se distribuem pelas creches das freguesias vizinhas.

Fora estas questões, a junta de freguesia tem nos seus objetivos criar mais espaços de lazer e convívio no território. “É ainda nossa intenção melhorar as condições do espaço da feira”, adianta.

Não há apartamento para arrendar

Dentro da questão do grande crescimento do número de imigrantes na freguesia, Filipe Graça constata que se tem originado um problema no arrendamento. “Fátima e Caxarias devem ser das poucas freguesias com crescimento de população. Simplesmente não há apartamentos para alugar em Caxarias. Se houvesse…”, reflete, salientando as potencialidades de maior crescimento da localidade caso se criassem mais estruturas de habitação.

A comunidade brasileira tem mais facilidade em adaptar-se. Os restantes imigrantes vão-se envolvendo lentamente. “Não criam problemas”, frisa o presidente.

“Há aqui muita dinâmica e é isso que atrai as pessoas desde os anos 40”, salienta Filipe Graça. Uma parte da população é descendente de habitantes do norte, que se instalaram na freguesia devido à Tijomel, uma grande empresa de cerâmica desativada. Outras empresas aqui sediadas vão a caminho do século, refere. “Vejo muito potencial na freguesia, tem que ser é apoiada”, defende, “temos que ter condições”.

Filipe Graça sugere que se crie um Plano de Urbanização, à semelhança do que se está a fazer com Ourém e com Fátima. “São questões que devem ser trabalhadas agora”, argumenta, “não quando as coisas já estiverem feitas e faltar organização”.

Potencial para crescer desde que se criem condições à fixação de população

O mediotejo.net contactou várias empresas sediadas em Caxarias, mas só obteve resposta da Vinomatos, uma grande empresa vocacionada para a plantação mecanizada. O negócio cresceu pela mão do autodidata Georges Mandrafina, em Bordéus, França, há 40 anos.

“Foi nos arredores de Bordéus que se iniciaram os primeiros ensaios e protótipos daquela que viria a ser a primeira máquina de plantar mecanizada com guiamento por GPS a nível mundial, a OLIVA”, explica por email o fundador e gerente da Vinomatos, Georges Mandrafina. “Nos anos 80, o sector vitivinícola estava sedento de inovação. Com milhares de hectares para plantar, e sem equipamentos para realizar esta plantação de forma mecanizada”, decidiu lançar-se de forma autodidata nesta batalha.

A chegada a Caxarias, refere, foi “de certa forma acidental”, há mais de 20 anos, quando se decidiu levar o negócio para Portugal. Mas garante que “voltaria a tomar a mesma decisão”.

Vinomatos é uma empresa francesa que se instalou nos anos 90 em Caxarias Foto: Vinomatos

“Embora o mercado vitivinícola tradicional esteja situado nas grandes planícies alentejanas, a Vinomatos é cada vez mais solicitada para dar resposta a trabalhos de plantação noutras zonas de grandes vinhos no centro e norte de Portugal e para outros projetos de plantação de olival, amendoal e árvores de fruto”, explica.

“Situada no limite do distrito de Santarém e junto ao distrito de Leiria, a Vinomatos está numa localização estratégica para poder servir rapidamente todo o território nacional. Servida de boas ligações ferroviárias, como a linha de comboios do norte, coluna dorsal do nosso país e de novas infraestruturas rodoviárias como o IC9 que permitem a rápida ligação à A1 e acessibilidade direta dos concelhos mais interiores, como Tomar, ao litoral e à A8, a Vinomatos vive um momento de enorme crescimento, fruto de uma estratégia de integração de diversos produtos, equipamentos e serviços para a agricultura, e em especial para o pequeno e grande viticultor”.

Tal pode explicar o facto de que, mesmo em contra corrente devido à pandemia de Covid-19, ter inaugurado em junho a sua loja aberta ao público onde comercializa desde pequenos utilitários de bricolage HITACHI, HIKOKI e HUSQVARNA da gama doméstica à gama profissional, até alfaias e tratores. Desde 2016 que é o concessionário FENDT em Portugal e recentemente, ganhou a concessão para a zona centro dos prestigiados tratores Massey Ferguson.

Georges Mandrafina frisa, no entanto, que “é importante reconhecer que apesar de todo o potencial e investimento, por parte das empresas fixadas na região, é necessário um impulso modernizador capaz de fixar recursos humanos qualificados, nomeadamente através da dinamização da Zona Industrial de Ourém e do apoio das entidades governativas à Escola Profissional de Ourém. Este será talvez o maior desafio da região! Com a dificuldade que existe por parte das empresas no acesso à mão de obra qualificada para o seu núcleo produtivo, teremos que ser capazes de potenciar as estruturas educativas da região e tornar as empresas apelativas de forma a conseguirmos reter os nossos profissionais”.

Apesar dos bons acessos e vias de comunicação, é necessário criar condições à fixação de recursos humanos, frisa a empresa Foto: Vinomatos

“A Vinomatos sente esta dificuldade principalmente neste momento em que acaba de lançar mais um equipamento capaz de revolucionar o sector agrícola a nível mundial, a máquina RÉVOLUTION, que irá permitir rentabilizar de forma extraordinária os trabalhos de plantação, já que faz na mesma passagem e na mesma linha a plantação e armação, permitindo praticamente finalizar um trabalho que nas circunstâncias atuais, obriga a diversos intervenientes e custos muito mais elevados”, alerta.

“Para estar à altura das exigentes normas de qualidade e segurança é necessária uma otimização dos recursos, humanos e materiais e de colaboradores que sejam críticos e capazes de responder de forma capaz e responsável. Só assim as empresas da região poderão estar à altura deste enorme desafio. Só assim poderão crescer de forma sustentada e sustentável”, conclui.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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