Ourém | Biografia de Artur de Oliveira Santos lança nova luz sobre o homem que quis acabar com o fenómeno de Fátima

Artur de Oliveira Santos foi o administrador do concelho de Ourém que afastou os pastorinhos de Fátima a 13 de agosto de 1917, retendo-os em Ourém. Acreditava então que acabaria assim com as peregrinações à Cova da Iria. Foto: mediotejo.net

Uma investigação sobre a vida e obra de Artur de Oliveira Santos, o administrador do concelho de Ourém aquando as aparições de Fátima de 1917, foi lançada este sábado, 4 de julho, em livro pela editora Colibri. O trabalho do fatimense José Manuel Poças das Neves venceu o Prémio Villa Portela, atribuído pelo município de Leiria, e traça o retrato de um republicano radical, idealista, moralmente íntegro e consistente, que não terá tido de imediato plena noção da dimensão que os acontecimentos da Cova da Iria estavam a tomar. À semelhança de outras “aparições” da época, referiu o autor, terá entendido que bastava afastar os três pastorinhos de Fátima naquele 13 de agosto para que o tema esmorecesse. Apesar do medo sentido pelas crianças na prisão de Ourém, não há porém indícios que tenham sido maltratados.

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“Figura controversa” mas “apaixonante”, um homem de “grandes convicções” de que “vale a pena resgatar a sua memória”, assim o descreveu o responsável da Colibri, Fernão Ferro. Este é “um esforço de investigação de grande envergadura”, considerou, em torno de uma figura que “para o bem e para o mal, está ligada a Ourém e a Fátima”.

O historiador José Manuel Poças das Neves tem estudado a sociedade fatimense/ouriense dos inícios do século XX, constatando uma época de extremos, onde duas visões do mundo antagónicas (o republicanismo laico e um Portugal ainda monárquico e profundamente religioso) embatiam entre si Foto: mediotejo.net

O prefácio do livro é de Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, a quem coube a apresentação da obra. Para o responsável, o livro é uma biografia que vai muito além do personagem que retrata, sendo também uma historiografia do século XX.

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Como “republicano idealista”, Artur de Oliveira Santos cruzou-se com as principais figuras da I República, as quais passaram todas por Ourém. Por tal, constatou, a ação cívica do antigo administrador do concelho vai muito além dos episódios de Fátima, envolvendo-se ativamente com as convulsões políticas do seu tempo. “Ourém não era uma ilha”, constatou, sendo antes um território de circulação de ideias, ideologicamente marcado.

Artur de Oliveira Santos manteve uma grande fé no republicanismo ao longo de toda a vida, e mesmo na morte, onde exigiu um funeral civil. Afastado da religião, acreditava ser possível alcançar os ideais do positivismo. Com ligações à maçonaria e à carbonária, foi um “homem de pensamento”, tendo deixado bastantes escritos em jornais locais e nacionais.

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Marco Daniel Duarte lançaria o desafio a investigadores futuros e à Câmara de Ourém para que se procedam à reunião de todos os artigos que Artur de Oliveira Santos deixou escritos na imprensa da sua época.

Família de Artur de Oliveira Santos foi essencial à investigação de José Manuel Poças das Neves (ao centro, de casaco preto) Foto: mediotejo.net

Marcado pelos acontecimentos de 13 de agosto de 1917, em que, enganando os pastorinhos, os levou para Ourém, onde os manteve retidos, Artur de Oliveira Santos ficou para a história como o “algoz” dos videntes, retratado tanto como “Pilatos” como por “anticristo” nas narrativas futuras. A polémica manteve-se ao longo das décadas, com um filho do administrador a empreender como projeto de vida a reabilitação da memória do pai. A Irmã Lúcia, porém, deixou nas suas memórias um “ambiente de cativeiro” no episódio de 13 de agosto de 1917, referiu Marco Daniel Duarte.

“A história não é toda a preto e branco, por isso são precisos estes livros”, concluiu o responsável.

José Manuel Poças das Neves começou a sua intervenção por mencionar a presença na sala de familiares de Artur de Oliveira Santos (netos e bisnetos). “Sem vós não teria sido possível” reunir toda a documentação para a investigação, admitiu.

“Artur de Oliveira Santos é uma força da natureza”, afirmou o historiador, “pode-se ou não gostar dele, mas foi uma pessoa consistente ao longo da sua vida”. Republicano laico que acreditava que poderia transformar Portugal, envolveu-se com os movimentos radicais da época, não obstante tenha criticado o assassinato do rei D.Carlos. De personalidade vincada, grande fã de touradas, quando a I República cai associa-se ao movimento do reviralhismo, acabando por ser preso e a exilar-se em Espanha, onde assiste à guerra civil espanhola e é preso várias vezes por Franco.

Regressa a Portugal, foca-se nos assuntos da sua terra, morrendo aos 71 anos, em 1955. “Alto, seco”, um homem moralmente rígido, “vivendo ente o sonho e a realidade”, assim o descrevem os relatos do seu tempo, citou o investigador.

Sobre as aparições de Fátima, José Manuel Poças das Neves sustenta a teoria que tanto Artur de Oliveira Santos como o governador de Santarém não se terão apercebido da dimensão do fenómeno de Fátima, acreditando que bastava afastar os videntes da Cova da Iria para colocar fim às peregrinações. “Entendem [os acontecimentos de Fátima] como o seguimento de outras aparições” que naquela época também se registaram em Portugal e que acabaram “desmascaradas”, como se escreveu na época.

Apresentação da obra cumpriu recomendações da DGS Foto: mediotejo.net

O historiador deixou por fim um apelo ao município para que se debruce sobre outras figuras da história de Ourém do século XX que também tiveram um papel importante nos acontecimentos nacionais e que carecem de estudo.

A encerrar a apresentação, o presidente da Câmara, Luís Albuquerque, acolheu as ideias deixadas, mostrando a disponibilidade do município para os projetos que se vierem a desenvolver.

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