Ourém | Morreu o fotógrafo que revelou os rostos da emigração portuguesa em França

Esta semana morreu Gérald Bloncourt, o fotógrafo que revelou ao mundo a pobreza em que viviam milhares de emigrantes portugueses em França, nos anos 60 e 70, nos bidonvilles de Paris. Muitos dos rostos que Bloncourt imortalizou eram de emigrantes de freguesias de Ourém, como Atouguia ou Espite, de onde partiu a primeira grande vaga de portugueses para terras gaulesas, logo após a I Guerra Mundial.

Agosto é, ainda hoje, o mês do regresso dos “franceses” às terras dos seus pais e avós, onde a vida foi ficando melhor graças aos contributos da emigração. 

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Sara Tavares, 37 anos, professora de línguas a viver em Gaia. Os pais são naturais da freguesia de Atouguia, Ourém, mas ela nasceu, cresceu e fez toda a sua formação em Gagny, em França. Há 15 anos regressou à casa dos progenitores, na aldeia de Casal Novo, e manteve-se por terras lusas. O seu percurso é o retrato da emigração ouriense do século XX, que começou com a partida dos pais para França, enquanto jovem casal.

“Morei 22 anos na periferia de Paris, em Gagny (região de Seine saint Denis) onde vivem muitos portugueses da zona de Ourém, principalmente da freguesia de Atouguia”, começa por contextualizar ao mediotejo.net.

“Em muitas ocasiões convivíamos entre nós, aos fins de semana, em casa de uns e de outros, sempre a falar da terra. A convivência com outras nacionalidades era muito pouca, até com os franceses. Os amigos dos meus pais eram os amigos da terra, os amigos de infância que também tinham emigrado e viviam perto de nós. Estou a falar de dezenas de famílias”, conta.

Sara Tavares integrou a 2ª geração de portugueses em França, filha do fluxo dos anos 60/70, mas regressou à terra dos pais. Foto: Sara Tavares

“Morei 22 anos na periferia de Paris, em Gagny, onde vivem muitos portugueses da zona de Ourém, principalmente da freguesia de Atouguia”

“Os filhos dessas famílias (como eu, nascidos em França), acabaram por se tornar amigos, pela convivência dos pais. Era giro porque nos encontrávamos muitas vezes noutras ocasiões, sempre à volta da comunidade portuguesa, como nas aulas de português ou na catequese (em português)”, salienta.

Quando vinha de férias a Portugal, Sara Tavares gostava de ter amigos “locais”, misturando-se com os primos e os amigos destes. “Gostava de não ser considerada emigrante. Fiz muito esforço para disfarçar ao máximo o sotaque”, admite. “Mas muitos dos filhos de emigrantes acabavam por reencontrar aqui os amigos de lá e passavam as férias juntos, naturalmente. O que começou a criar este fosso entre filhos de emigrantes e os jovens de cá, que ainda hoje se mantém. Uma pena…”, constata.
As férias de verão eram sempre esperadas com “muita ansiedade”. “Vale mais um mês aqui que um ano inteiro lá”, cita Sara, relembrando uma frase cliché entre os emigrantes. “Era contar as semanas a partir de junho e pensar nas festas da aldeia, nos casamentos e outros encontros de família que íamos ter… Ainda hoje os meus amigos que lá moram vivem esta situação. As semanas na terra são a recompensa de um ano de trabalho. Porque todos se sentem portugueses e gostam de estar em Portugal e de trazer os filhos deles, netos da primeira geração, para manter viva a cultura portuguesa”, refere.

Ao contrário de muitos dos seus amigos, Sara optou por regressar. “Os meus pais sempre tiveram o sonho de voltar para Portugal e cresci a ouvir falar nesse regresso. Por isso, para mim, era natural pensar que um dia voltaria para cá. ‘Voltar’, no meu caso, não se aplicava porque nunca tinha cá vivido, mas era o verbo que usava e é aquele que a maioria dos filhos de emigrantes usa”, explica. O mesmo aconteceu com a irmã. “Regressaram” ambas ainda antes dos próprios pais.

“Quando acabei o curso, podia vir trabalhar um ano para uma escola em qualquer país do mundo e, claro, decidi candidatar-me para Portugal, para ver o que dava. Tinha 22 anos: se gostasse de cá estar, ficava; se não gostasse, voltava para França e fazia lá a minha vida. Gostei e fiquei.”

“Os meus pais sempre tiveram o sonho de voltar para Portugal e cresci a ouvir falar nesse regresso. Por isso, para mim, era natural pensar que um dia voltaria para cá. ‘Voltar’, no meu caso, não se aplicava, porque nunca tinha cá vivido… mas era o verbo que usava e é aquele que a maioria dos filhos de emigrantes usa”

A importância desta comunidade emigrante é bem visível no concelho nos meses de agosto, quando Ourém saboreia um misto de línguas que vai muito além do impulsionado pelo turismo religioso da Cova da Iria. É o regresso dos “franceses”, como a tradição oral teima em intitular aqueles que parecem ter perdido a nacionalidade, falando ora em português ora em francês, ou uma amálgama das duas línguas na mesma frase, passeando de carro com matrícula estrangeira ou recente, alugado para as férias de verão. Em 2016 o município criou inclusive um Gabinete de Apoio ao Emigrante, para responder às dificuldades daqueles que passam a maioria do ano fora da sua terra natal.

Berço dos “franceses”, Ourém celebra os que ajudaram a moldar a face do concelho no último século. Mas longe vão os tempos em que a chegada dos emigrantes mostrava a riqueza que havia no resto da Europa, em contraste com o conservadorismo agrícola de Portugal. Ourém tem hoje a marca na sua cultura e arquitetura do que foi (e ainda é) a emigração, em especial a de França, e o nível de vida dos que por cá ficaram cresceu exponencialmente.

Um perfil do emigrante ouriense

O fotógrafo Gérald Bloncourt ficou conhecido pelo seu trabalho, nos anos 60, retratanto os emigrantes portugueses em França. As suas fotografias a preto e branco revelavam a dureza do percurso a pé pelos Pirenéus, a entrada clandestina no país, os bairros de lata nas imediações de Paris (os “bidonvilles”), as autorizações de residência, o trabalho na construção civil e os rostos da pobreza que marcavam então a comunidade portuguesa.

O fotógrafo Gérald Bloncourt revelou ao mundo o rosto da emigração portuguesa em França, nos anos 60. Foto: Le Parisien

Passou mais de meio século, chegando-se a uma terceira geração de emigrantes em França que já quase não fala português. Contudo, milhares de famílias cumpriram o sonho, e voltaram a Ourém na viragem do milénio.

Não é fácil fazer o retrato do emigrante ouriense, entre aquele que partiu na grande vaga de emigração dos anos 60, sobretudo para França, e o que saiu do país com a crise de 2008, já para muitos outros países. Há três gerações que se cruzaram nas mudanças sociais e económicas dos últimos 50 anos mas, apesar de todas as diferenças nos contextos históricos, as motivações para a partida permanecem quase imutáveis.

Registos da emigração Portuguesa em França. Foto: Gérald Bloncourt

Entre 1864 e 1960, esclarece a investigadora Ana Saraiva, autora da obra Casas (Pós) Rurais entre 1900 e 2015 (Ed. Colibri), a população do concelho de Ourém foi sempre crescendo, apesar das guerras, das dificuldades económicas e de algumas vagas epidémicas. O ponto mais alto de população no concelho está registado em 1960, com 47.511 pessoas (o Census de 2011 regista 45.887 residentes).

Ao longo de 30 anos houve uma descida de 7 mil habitantes, com várias fases, “principalmente por influência da emigração para França”, salienta Ana Saraiva. Esta descida inverteu em sentido contrário durante a década de 90 (de 40.185 em 1991 para 46.216 em 2001). Ao longo da primeira década do século XXI registou-se um pequeno decréscimo populacional, mas no geral teremos que aguardar pelo Census de 2021 para perceber o impacto real da crise de 2008 na movimentação da população.

“Jorge Carvalho Arroteia (1983) já tinha defendido que Vila Nova de Ourém fora dos primeiros locais de partida de emigração ilegal de Portugal para França”, cita Ana Saraiva.

Espite terá sido a primeira localidade portuguesa de emigração para Champigny e territórios vizinhos, em França, por alturas da I Guerra Mundial. Há um conjunto de homens ourienses destacado para a frente de guerra, na Flandres, em 1917, que não foram dados como mortos nem regressaram a Portugal. Entre 1918/1919 há também registos de passaportes de emigração masculina para França.

Esta primeira emigração foi constituída por militares e trabalhadores agrícolas, que aproveitaram a guerra e o seu rescaldo para irem trabalhar na reconstrução daquele país.

“Afirmar que Espite foi e ainda é uma terra de emigrantes é um lugar-comum, tal a evidência aos olhos de todos”, escreve Jacinto Gonçalves na sua Monografia de Espite. O autor salienta o Brasil, desde 1822 até anos 30 do século XX, e a França, nos anos 60 e 70, como as preferências de destino dos habitantes locais nos últimos dois séculos.

“Sentindo-se como que encurralados no seu isolamento e miséria, nem sempre conseguindo angariar o seu sustento e da família, o espitense encontra na emigração a resposta às suas privações”, constata. Em 2011, a freguesia celebrou os seus 800 anos e homenageou este legado com a inauguração de um monumento ao emigrante.

População de Espite foi a primeira a nível nacional a emigrar para a construção civil em França, logo após a I Guerra. O ciclo tornou a repetir-se em massa no final da II Guerra Mundial. Foto: Gérald Bloncourt

Na sequência da destruição provocada pela II Guerra Mundial, França lançou-se num grande programa de construção civil e obras públicas que durou até aos anos 60. A necessidade de mão-de-obra levou novamente a uma subida da emigração masculina para aquele país. “De 4.567 emigrantes em 1955, subiram para 38.046 em 1964”, cita Ana Saraiva. E “entre 1962 e 1974, dos imigrantes que entraram em França, 62% eram portugueses”.

Assalariado agrícola num país pouco industrializado, o emigrante português era no entanto habilidoso, com grande espírito de sacrifício e ambição de ascensão económica e social. O ouriense enquadrava-se neste perfil, refere Ana Saraiva, optando-se pela França por não haver capacidade económica para tentar a sorte em países mais longínquos, como o Brasil.

Antes do 25 de abril, a fuga à miséria e à pobreza, à guerra colonial e ao conservadorismo do Estado Novo eram os grandes impulsionadores da emigração. A revolução e a adesão à União Europeia, constata a autora, vieram alterar as condições do país e a forma como se encaravam os emigrantes. Em consequência, a partir dos anos 80 começam a regressar muitos casais que haviam emigrado, “com Ourém a registar uma das taxas mais elevadas de regresso do país”.

Criar negócios próprios, encontrar uma vida mais calma e social que a vivida nos subúrbios de Paris, a consciência de que os filhos se integrariam melhor no contexto social e território de origem dos pais, o acompanhamento de família já idosa, o ocupar finalmente a casa construída “na terra” com o dinheiro da emigração e uma noção que Portugal estava a desenvolver-se estão entre os motivos do regresso enumerados.

A agricultura foi sendo abandonada desde os anos 60, com o crescimento do comércio, da indústria e da construção civil, que teve no crescimento económico da então vila de Fátima o seu grande alicerce a nível municipal. Ana Saraiva refere que nos anos 90 a empregabilidade de Fátima (comércio, hotelaria e restauração) e Ourém (serviços) cresceu significativamente. A título de exemplo, a Cova da Iria teve uma explosão demográfica de 708,5% entre 1940 e 1981.

Assim, no dealbar do século XXI, o concelho de Ourém encontrava-se num contexto inverso àquele que o dominara durante 30 anos: um grande regresso de emigrantes conjugado com o afluxo de imigrantes, sobretudo da Europa de Leste, que se instalaram em Ourém e Fátima.

A chegada de um novo ciclo de emigração ao país e a Ourém, semelhante ao dos anos 60, começa a pressentir-se em 2002, com a redução do investimento na construção civil. Com a crise financeira a rebentar em 2008, dá-se novo pico de saídas a partir de 2011, mas deste vez por todo género de trabalhadores/empresários da construção civil. França está mais uma vez entre as preferências, mas Ana Saraiva constata que a emigração dos últimos anos se dividiu por muitos mais países. Ironia do destino, muitos dos que “regressaram” a Ourém acabaram por tornar a partir.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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