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Domingo, Julho 25, 2021

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Ourém: As dificuldades de António Neves em conciliar os estudos e a alta competição

António Neves, jovem de 13 anos que competiu recentemente na Rússia num campeonato europeu de Badminton, enfrenta hoje a luta que cada desportista trava em tão tenra idade: conciliar a atividade de alta competição com o percurso escolar. Para o pai, Luís Neves, Portugal tem muito que trabalhar ao nível do seu sistema educativo, que deveria dar mais espaço e alternativas a quem deseja enveredar pela carreira desportiva. A crítica passa pelos conteúdos lecionados nos currículos escolares, pelas perspetivas de carreira (ou falta dela) e pelo cortar de asas a quem tem outro tipo de objetivos que não os estabelecidos pelo sistema. A equipa António Neves quer chegar ao topo! Mas falta-lhe tempo para se dedicar em pleno a tão ambicioso objetivo.

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No 8º ano, António Neves não intervém muito durante a entrevista. Comenta que a viagem à Rússia “foi boa” e vai retificando alguns dos dados sobre jogadores e competições de Badminton que surgem durante a conversa com o pai. É Luís Neves quem fala, defendendo a perspetiva que há tempos vem travando com a escola do filho e com os colegas de competição. “Ele precisa de tempo para treinar” e a estrutura escolar, tal como está organizada, não permite esse foco quase exclusivo ao desporto. “A nossa escola é uma escola estúpida”, afirma.

Apesar de comentar que “o apoio que temos da escola é muito rudimentar” para que o António consiga obter resultados, as críticas de Luís Neves não se dirigem à instituição em particular, mas a todo o sistema educativo. Na sequência da viagem à Rússia, o jovem acabaria por perder um teste de Matemática. O problema é recorrente e prevê-se que se agrave com a necessidade de realizar estágios e competições, quase sempre em alturas de aulas. “O António é o líder do projeto, mas estamos a chegar a uma fase de opção”, afirma por diversas vezes Luís Neves, salientando que a partir de determinado escalão se for para apostar tudo no Badminton, António terá que sair da escola.

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Alguns destes problemas são contornados pelo Estatuto de Alta Competição que, uma vez adquirido, possibilita algumas regalias a nível escolar, com fazer exames numa época especial ou ter um horário específico que permita ao atleta treinar. Apesar de ter ido a um campeonato europeu e de já poder concorrer a este Estatuto, António não o possui.

Questionado a este respeito, Luís Neves explica que para adquirir o Estatuto de Alta Competição é necessário preencher certos critérios a nível de resultados que o Badminton, dada a representatividade desportiva que tem em Portugal, não havia permitido até ao momento atingir. Mas mesmo agora, após a Rússia, António não deverá procurar este Estatuto, uma vez que traz implicações. “O atleta fica escravo da Federação”, salienta Luís Neves, “se não estiver disponível, perde o Estatuto”. “É mais um faz de conta!”.

“Acredito num ensino verdadeiramente articulado” é a filosofia de Luís Neves, que comenta também alguma falta de “sensibilidade” da estrutura escolar para com o seu caso. Pois mesmo “apesar de todo o apoio da escola, nem sempre os pais, professores e colegas entendem”.

O “Tempo” é o conceito fundamental. “Como podem querer resultados se não criam condições?” é a interrogação constante de Luís Neves. A viagem à Rússia foi paga do próprio bolso e o mesmo acontecerá noutras viagens, como em breve à Dinamarca. “O Desporto hoje é uma coisa muito cara, muito profissional e que não se compadece com escolas”, constata.

António Neves pertence à União Desportiva de Ourém. foto João Boto
António Neves pertence à União Desportiva de Ourém. foto João Boto

A paixão pelo Badminton começou com Luís, que o tem incutido aos filhos, tendo o mais velho também chegado a jogar. “É a adrenalina da competição e se temos um atleta que nos dá resultados competitivos…”, tenta explicar.

Para já tem um pequeno ginásio e respetivo campo montado em casa e é aí que António treina todos os dias. Luís tem feito contatos por todo o mundo, procurando abrir caminho nesta área desportiva para o filho. Sabe que com a idade este enfrentará desafios cada vez maiores e que é necessário nunca perder de vista os objetivos. “Temos que treinar e jogar com os melhores”, é o seu princípio.

Sem Estatuto de Alta Competição não existem alternativas

O mediotejo.net contatou o agrupamento de escolas de Ourém, ao qual António pertence, por forma a obter uma declaração a respeito do jovem e dos problemas de conjugação da sua atividade desportiva com a escolar. Da entidade escolar foi esclarecido de que “ao longo dos anos, o Agrupamento de Escolas de Ourém tem tido alunos abrangidos pelo regime escolar de Atletas de Alto Rendimento, consagrado pelo Decreto-lei 272/2009 de 1 de outubro. A estes alunos a escola tem aplicado os benefícios legalmente contemplados”.

Mas uma vez que António não possui o Estatuto de Alta Competição, o agrupamento não pode aplicar as medidas que este prevê e que o libertariam de várias responsabilidades escolares. “Compreendendo alguns constrangimentos que se colocam na posição escolar do aluno, a escola tem colaborado na marcação de testes e na justificação das faltas mas, no entanto, está impedida de aplicar o disposto no normativo legal, em virtude de este não se encontrar abrangido pelo mesmo”, termina.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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