Ourém | Apoio à parentalidade: “os pais são o alvo das críticas todas”

Verónica Pereira é uma das coordenadoras da formação Foto: mediotejo.net

A APDAF – Associação para a Promoção e Dinamização do Apoio à Família, IPSS de Ourém, vai promover durante as próximas 12 semanas uma formação de apoio à parentalidade, de frequência gratuita. Como gerir as birras, como brincar com crianças entre os três e os oito anos são algumas das dicas que os participantes poderão aprender. No rescaldo da polémica “Supernanny”, o mediotejo.net quis saber as razões que conduzem os pais a pedir ajuda e o porquê da necessidade da existência de programas de apoio à parentalidade.

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“Mais Família, mais criança” tem início a 7 de fevereiro na APDAF. São aulas de grupo, de componente eminentemente prática, que pretendem sobretudo colocar os pais a refletir. “Razões para o mau comportamento”, “Elogios”, “Recompensas”, “Ordens e Limites” são alguns dos temas que serão discutidos ao longo das semanas, sempre às quartas-feiras, das 19h30 às 21h30.

Verónica Pereira, psicóloga clínica da APDAF e uma das dinamizadores da formação, fala com entusiasmo da iniciativa e da vertente pedagógica que pretende incutir junto de pais e educadores. O objetivo será sempre dar-lhes ferramentas, nem sempre óbvias, para lidar com os filhos, entre os três e os oito anos, numa fase em que a sua compreensão do mundo e respetiva resposta emocional ainda se encontra em desenvolvimento. “As crianças começam a passar de um mundo de fantasia para um mundo mais concreto, que tem regras”, explica, e “às vezes não é fácil para os pais saberem lidar com” com todo o que implica esta transição.

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“Não se pretende aqui ensinar os pais a serem pais”, frisa Verónica Pereira, “ninguém vem aqui dizer: você está a fazer mal! Isso não faz sentido”. Conforme salienta, “o que não faz sentido para mim pode fazer sentido no seio daquela família e essa individualidade tem que ser respeitada. Aquilo que nós queremos é poder de certa forma ajudar os pais em certos comportamentos em que eles têm mais dificuldades, de modo a podermos ajudar a trabalhar isso, para que se sintam com mais ferramentas para lidar com as diversas problemáticas que vão chegando”.

A psicóloga clínica percebe o lado pedagógico de um programa como a “Supernanny”, mas é crítica em relação ao formato televisivo. Em contrapartida salienta as vantagens desta modalidade de sessões de grupo ao longo de várias semanas. Os sentimentos de culpa dos pais são comuns, assim como a sensação de que estão a errar com os filhos. Mas, frisa, não se trata nunca de dizer aos pais que estão a fazer algo mal, mas de os fazer encontrar as respostas adequadas à sua lógica familiar. “Os pais têm os seus instintos e educam da melhor forma que fazem, com aquilo que eles têm. Que nós possamos dar uma ajuda, sim. Mas é mesmo isso: ajuda. Capacitá-los e não ensiná-los a ser pais ou mães”.

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Até porque existem problemas de variada natureza, enumera. “Acho que existe uma pressão, até social, para que os filhos sejam bem vistos, ou que se comportem de uma maneira positiva. Socialmente isso é esperado. E há muitos pais que relatam muito as birras em locais públicos. Porque muitas vezes sentem que são quase criticados pelos outros, ou são vistos de lado”, reflete. “Os pais são o alvo das críticas todas. Não há muitas vezes esta empatia, esta compaixão, que muitas vezes também tem que haver com os pais. Porque eles também estão cansados, eles também têm os problemas deles”, salienta.

A isto acresce a própria evolução das crianças, que passam por fases variadas, inclusive na escola, o que traz outra sobrecarga à vida familiar. As crianças também se sentem frustradas e incapazes. “As crianças não sabem gerir”, salienta. Daí a importância deste tipo de programas de apoio.

Verónica Pereira afirma que não é vergonhoso assumir que se precisa de ajuda, mas que a recusa da parte dos pais em admitir que se tem um problema também se verifica. É preciso tempo, envolvimento e força de vontade, o que nem sempre é fácil de conciliar. Mas também não há soluções mágicas nem imediatas, sublinha.

Por outro lado, “se há famílias que são efetivamente mais estruturadas”, outras estão em situação de maior vulnerabilidade e sem a rede de apoio devida. “É fácil criticar”, constata, mas também é necessário perceber o contexto social e cultural em que a família vive. Noutras situações, a pressão pelos bons resultados da criança é irrealista e é necessário ajustar expetativas, atendendo às características particulares da criança. A formação vai ao encontro de todas estas diferenças, tentando que os pais, sobretudo, reflitam.

A formação tem por base a obra “Os Anos Incríveis”, trabalho científico já clássico ao nível do apoio à parentalidade. Em última análise, pretende-se que pais e filhos se encontrem na sua pluralidade, frisando, porém, novamente a psicóloga: “não há soluções rápidas e eficazes”.

Há várias formações semelhantes organizadas pelo concelho, refere. As inscrições não foram muitas, o que faz esta psicóloga refletir. Reconhece porém que existem barreiras que é necessário, ainda, ultrapassar.

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