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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Gente da Nossa Terra | Abram alas a Lelita, a voz de Ourém

“Olá, Olá, bom dia, bom dia”, anuncia Lelita no seu tradicional programa de rádio, aos domingos, na ABC Portugal. A voz não engana e nem os olhos nos conseguem atraiçoar, reconhecer esta mulher que se fez a si própria e criou um percurso artístico indissociável do concelho que lhe deu berço. Da Ourém dos anos 40 a Angola dos anos 60, passando pelo retorno em 1975 e uma vida artística inesperada e preenchida de sucessos, Lelita encontrou nos últimos anos uma renovada paixão pela pintura, pela escrita e pelo voluntariado. Lelita não muda, não desiste, nem esmorece e ninguém lhe conseguirá retirar a alegria de viver. Cantará até que a voz lhe doa e vai atuar na sexta-feira na Festa do Emigrante, ao lado de Emanuel.

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Estatura baixa, jeito apressado e enérgico, olhos grandes, cabelo cor-de-rosa. Pronto, é difícil – reconhecemos! – desviarmos a atenção do pormenor do cabelo cor-de-rosa. Estamos, afinal, perante uma senhora de 73 anos, que desde há 28 anos alimenta as manhãs de domingo da rádio ouriense ABC Portugal (92.3 FM). Cuja voz percorre há muito os festivais de música e as festas populares da região. Que anima novos e velhos e é marca reconhecida do concelho de Ourém. Já no final da entrevista lá ganhamos coragem para fazer a inóspita pergunta: porquê cor-de-rosa? Lelita ri-se, explica que detestaria ver-se de cabelos brancos. O rosa “dá-me vida”, salienta. E pronto…é do Benfica.

Lelita em criança
Lelita em criança

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A nossa conversa tem lugar na Atouguia, aldeia onde reside desde que regressou de Angola, mas é natural de Ourém. Maria Manuela Jorge, assim se chama, aí viveu com a avó até aos 20 anos, quando já era conhecida por Lelinha. Filha de pais separados nos anos 40 (“era um tempo complicado”), reconhece que a história dos amores a atemorizava e, apesar de muito alegre e maria-rapaz, casou com o seu primeiro namorado, 11 anos mais velho que ela, dois meses após terem começado o enlace. “Correu bem”, admite com um sorriso rasgado, “tem sido fantástico”, este casamento com mais de 50 anos que deu a vida a quatro raparigas, todas elas com carreiras realizadas. Salienta o respeito e o companheirismo do marido, Joaquim, que a acompanha nas suas aventuras pelo mundo da música.

Lelita com a avó, a qual afirma ser a "mulher da minha vida"
Lelita com a avó, a qual afirma ser a “mulher da minha vida”

Fui “criada assim à vontade, fui sempre uma criança feliz”, começa por contar, afirmando de seguida que a avó que a educou “é a mulher da minha vida”. “Ela deu-me as coisas a ver de outra forma, sempre com respeito pelas outras pessoas”, salienta. Sempre animada, sempre alegre, recorda que “andava sempre a correr de um lado para o outro” e que “não era capaz de ser uma senhora fina”. Mostra uma fotografia dos anos 50, teria cerca de 12 anos, descalça com a avó à porta de casa, num tempo de muita necessidade. Pouco depois outra foto, de 1964, no dia do seu casamento, quando a avó lhe confessaria que estava descansada com ela, que já era uma senhora casada. Lelita ri-se, lembra outos tempos e outros costumes, os seus medos de jovem e a descoberta da vida adulta.

os pais de Lelita separaram-se quando esta tinha 2 anos, nos anos 40
os pais de Lelita

Com Joaquim partiu para Angola, onde este já trabalhava como mecânico, e viveram em Luanda vários anos, onde nasceram as três primeiras filhas (a quarta nasceria já em Portugal). Com a 4ª classe, Lelita ainda tentou trabalhar numa loja, mas o patrão disse-lhe que ela não sabia vender. Acabaria por tirar um curso de datilografia e trabalhou em vários escritórios até 1975.

“O 25 de abril foi muito confuso”, recorda com nostalgia e alguma comoção. “Não sabíamos muito de política. Sabíamos dos grupos guerrilheiros, mas nunca grandes explicações…Tivemos que fugir…Nunca ninguém nos tinha explicado”, tenta elaborar. Recorda que as guerrilhas se instalaram em Luanda e frequentemente havia confrontos. “Houve muita mortandade, momentos aflitivos”, refere, tendo ela própria um dia sofrido um assalto violento e sido arrastada. Escondeu-se debaixo de um carro, ouviu tiros e as pessoas a comentarem que estaria morta. “Tenho muita pena que eles não se conseguissem entender”, lamenta.

Lelita e Joaquim casaram em 1964 e partiram pouco depois para Angola
Lelita e Joaquim casaram em 1964 e partiram pouco depois para Angola

Vivia no Bairro da Cuca. Os fins-de-semana eram na praia, sempre a cantar. Uma vida feliz, recorda, até aos momentos finais da saída, repletos de aflições. Em 1975 regressou a Portugal e nunca mais voltou. O marido ficaria em Angola mais algum tempo, tentado trazer alguns dos pertences. Com ajuda local conseguiram que as cargas não fossem vandalizadas e trouxeram para Portugal um Volkswagen que conservaram muitos anos, quase até “ficar podre”, comenta alegre. Mas tudo o resto ficou em África.

Em Ourém eram retornados.

O regresso e a música

A Dona Manuela, como a tratavam em Angola, voltou a ser Lelita. O curso de datilografia valeu-lhe empregos em escritórios, primeiro em Leiria e depois em Ourém, no Joaquim Verdasca Júnior, casa onde trabalhou 18 anos e da qual tece grandes elogios ao trato com os funcionários. Passou ainda pelo registo civil e foi telefonista nos Bombeiros de Ourém. “E depois chegaram os 65 anos e não parei!”.

Após regressar a Portugal, Lelita inicia uma carreira na música popular
Após regressar a Portugal, Lelita inicia uma carreira na música popular

Com o regresso a Portugal, Lelita iniciou uma vida associativa e musical que a transformaram numa das figuras mais proeminentes do concelho e uma voz que todos reconheciam. O arranque desta carreira foi em 1977, quando entrou no Chorus Aurius, por influência de um primo, o maestro Armando Rodrigues. Em 1982 entrou na Orquestra Típica. Com ambas as bandas viajou pela Europa, foi ao Brasil, e começou a ganhar nome enquanto artista.

O seu percurso no mundo da rádio deu-se em 1989, pela mão da Rádio Clube de Ourém, atual ABC Portugal. O programa “Olá, Olá, Bom dia”, aos domingos, entre as 9 e as 10 horas, marca ainda hoje as manhãs do concelho, com conversas e música, sob a direção de Lelita. “Há pessoas que me dizem que já me ouvem há 18 anos”, refere com satisfação. “Há coisas muito giras, entramos na casa das pessoas, quase sem autorização”, reflete, comentando que quando há problemas com a música há logo alguém que liga a avisar.

 Lelita não se inibe, conhece os colegas de rádios vizinhas e também liga a comentar e a pedir músicas. Está sempre a ouvir rádio – levanta-se e liga a grande aparelhagem que possui no pequeno escritório. Entretanto já referira que gravara dois CDS, “O Sonho” e “Nas asas do Sonho”. Possui um longo reportório e afirma que continuará a cantar, “até que a voz me doa”. Participa em festas, vai a instituições animar os utentes, acorre sempre que a chamam. Não para!

Da pintura ao voluntariado

Em 1989, Lelita começa a dar voz ao programa "Olá, Olá, Bom dia", da ABC Portugal
Em 1989, Lelita começa a dar voz ao programa “Olá, Olá, Bom dia”, da ABC Portugal

A partir de 2004 e com a entrada na reforma, Lelita intensificou a vida associativa e comunitária. Está nos corpos da Universidade Sénior de Ourém, pinta e faz teatro. Algures entre a descrição das suas variadas atividades recorda que foi também treinadora de futebol, durante uma época em 1997, da equipa feminina “Já Dissemos”. A filha, Maria João, era guarda-redes e a equipa ficara sem treinador. “Costumava dar-lhes tanta força” que acabaram por chamá-la para as treinar. “Fomos a Lisboa mas perdemos com as de Portalegre”, recorda rindo, lembrando as peripécias desta fase da sua vida.

“Sou saudosa das coisas”, reconhece, folheando o grosso volume que apresentou como trabalho final quando decidiu fazer as Novas Oportunidades. Uma das facetas destes cursos, no qual completou o 9º e o 12º ano, era contar a história de vida. As memórias de Angola, da rádio e da música estão todas ali. Refere que gosta de escrever e vai citando várias passagens. É uma vida volumosa…

Entretanto recorda que chegou a realizar por vários anos voluntariado no Hospital de Torres Novas e que “era capaz de deixar tudo para o voluntariado”. A sua vocação de artista encaminha-a muito para este tipo de projetos. “Está tudo ligado”, acabaria por refletir, quando a questionamos com qual das suas atividades se identifica mais.

A vida, tal qual a decidimos viver…

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A Lelinha que se tornou Dona Manuela, a Dona Manuela que virou Lelita, gosta da música de Carlos Paião e dos livros de Konsalik e Robin Cook. De Danielle Steel não gosta, demasiado lamechas. Aprecia temas africanos e começa a entoar algumas músicas assim que o recorda. Pinta até de madrugada sem ver as horas passar, mas confessa que não tem grande paciência para bordados. Tem o escritório repleto de livros, CDs e medalhas condecorativas de todos os festivais, festas e iniciativas em que participou. Sim, pinta o cabelo de cor-de-rosa e tem muito orgulho nisso! Termina refletindo que não é capaz de mudar e que ainda quer fazer muitas outras coisas na vida. “Ainda não fiz tudo!”.

 “Acho que toda a gente consegue (ser alegre). Se a gente se mentalizar que a vida é boa”, refere. “Tenho muita vontade de viver”, continua, “acho que ajudo a mim própria e aos meus”. Lelita lembra a família e os amigos, que é a família a sua “força”. Conclui de forma simples e direta: “Gosto de ser como sou!”

*Notícia publicada em março de 2016

**Republicada em agosto de 2017

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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