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Domingo, Julho 25, 2021

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Ourém | A Dona Ana das rendas e dos crochés fez 100 anos

Ana de Jesus Sousa completou 100 anos na segunda-feira, 9 de maio. Nasceu em 1916 na Soutaria, freguesia do Olival, estava Portugal a meio de uma guerra mundial. Foi criada de servir durante 26 anos, tendo casado apenas com 39 anos, já em 1955. Quando lhe perguntamos como foi pedida em casamento pelo já falecido marido, ri-se e diz com ar de mistério: “já está a querer saber muito!”.

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A Dona Ana vive atualmente no Centro de 3ª Idade da Gondemaria, na União de Freguesias de Gondemaria e Olival. A única filha, Helena, veio da África do Sul especificamente para celebrar a data, trazendo consigo um filho que a mãe não via há 10 anos. Também já há uma neta, ainda bebé, a única bisneta de Dona Ana. Na Gondemaria reuniram-se ainda os enteados, do primeiro casamento do marido, numa reunião familiar que quis celebrar um século de uma vida preenchida. Também a junta de freguesia marcou presença, numa pequena homenagem a Dona Ana, primeira centenária deste Centro de 3ª Idade que começou a funciona como estrutura residencial em 2014.

“Estou contente, tenho de estar”, refere Dona Ana quando lhe perguntamos como se sente por celebrar, tão lúcida, uma idade tão avançada. Queremos saber de que factos mais se recorda da infância. Dona Ana lembra a escola primária, momento marcante da sua existência. A professora, Eponina Monteiro, pediu à família que deixasse a jovem, teria cerca de 13 anos, ir trabalhar para sua casa. O pai da pequena Ana acedeu, querendo que a filha aprendesse a ler e a escrever. A combinação com a professora foi essa: a menina iria trabalhar, mas também iria à escola. Assim aconteceu, até terminar a quarta classe.

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Dona Ana foi uma grande apaixonada pelas rendas. foto mediotejo.net
Dona Ana foi uma grande apaixonada pelas rendas.
foto mediotejo.net

Na casa da professora Dona Ana ficou, ocupando-se do serviço doméstico e dos cuidados à patroa, que a dada altura desenvolveu uma doença dos ossos e tinha muitas dores. Foram 26 anos ao seu serviço, até que, pouco tempo antes da idosa morrer, Ana, então perto dos 40, começou a ser cortejada por um viúvo seu vizinho, carpinteiro, chamado José Freitas.

Dona Ana não quer falar muito do período. A irmã, ao seu lado, já com 94 anos, comenta que só soube da boda 15 dias antes da cerimónia, sendo que o namoro durara cerca de três meses. É a filha Helena quem explica que, na época, não ficava bem a um viúvo recente andar a cortejar outra mulher. Por isso mantiveram segredo. “Foi isso, não foi mãe?”; “Claro que foi”, refere a idosa.

Ana então casou, engravidando pouco depois e sendo mãe já aos 40 anos. Mas a vida fora da casa da professora, que morreria pouco depois, não foi fácil. Habituada apenas às lides domésticas, o trabalho no campo foi para ela um grande choque. “Foi uma vida muito sacrificada, tive uma vida muito ocupada”, reflete Dona Ana, lembrando que o marido gostava muito de ter animais e era ela que cuidava deles, assim como dos trabalhos no campo. A filha levava-a numa cesta e andava com ela pela terra. “Foi uma vida muito ocupada, de muito trabalho, o meu marido gostava muito de gado”, comenta novamente. José Freitas morreu em 2010.

A filha, os netos e a bisneta de Dona Ana vieram da África do Sul para celebrar a data. foto mediotejo.net
A filha, os netos e a bisneta de Dona Ana vieram da África do Sul para celebrar a data. foto mediotejo.net

Perguntamos por fim o que mais guardou Dona Ana destes 100 anos. “Eram os crochés. Tinha uma loucura pelos crochés, pelas rendas”, confessa. Assim o confirma quem por ali passa, dando os Parabéns à centenária. Dona Ana fez muitos, muitos crochés! Foi sempre conhecida por esta sua paixão, oferecendo o seu trabalho a quem o quisesse aceitar. Chegaria mesmo a fazer uma exposição, juntamente com a carpintaria do marido, numa Feira em Ourém. Gostaria de ter feito alguma coisa que não fez na sua vida? “Eu gostava era dos crochés”, torna a frisar, não percebendo a questão.

Quem a visita afirma ser uma pessoa meiga, bem-disposta e brincalhona, além de boa cozinheira. Ainda perguntamos se não gostaria de ter sido professora, tal como a senhora a quem esteve ao serviço tantos anos. “Eu achava que não era capaz, mas o meu pai quis”, torna a lembrar. Naquele tempo as raparigas da sua condição não estudavam, explica a filha Helena, sublinhando o espírito aberto do avô que desejou que a filha aprendesse a ler e a escrever.

No Centro de 3ª Idade acenderam-se as chamas de um bolo com 100 velas e cantaram-se os parabéns ao som do acordeão. Também houve canto, flores e lembranças. Segundo o presidente da junta, Fernando Ferreira, são cada vez mais as ocasiões em que a autarquia está presente no centenário dos seus fregueses. Em 2013 foi a Lisboa celebrar o aniversário de um natural da freguesia; já enquanto presidente foi à vizinha Espite aos 104 anos de outro natural, entretanto já falecido; em janeiro e fevereiro entregou lembranças pelos 100 anos de moradores, mesmo que a residir noutras freguesias, e em junho vai deslocar-se a Ourém para entregar o mesmo presente a outro centenário. “A junta de freguesia faz sempre a homenagem. Oferece uma placa e umas flores”, esclarece, afirmando que todos os idosos que visitou se encontravam ainda bem, um dos quais ainda tem uma vida bastante dinâmica.

A freguesia de Gondemaria foi desvinculada do Olival em 1928. Em 2013 voltou à freguesia mãe, em formato de União. Dona Ana por aqui andou, entre os seus estudos, os seus afazeres e as suas rendas. Dia 9 de maio completou 100 anos com grande lucidez. E parece que muitos são os que por esta freguesia parecem alcançar o mesmo feito.

*Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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