Ourém | 70% da cultura depende das autarquias, mas setor está à deriva (c/vídeos e áudio)

Conferência da Rede Cultura 2027 debateu os problemas causados pela pandemia na cultura Foto: mediotejo.net

O cenário da cultura aparenta ser negro, mas talvez não esteja assim tão diferente do que já era normal. Um painel de oradores reunidos pela Rede Cultura 2027, na sessão “Congresso às Quartas”, fez em Ourém um ponto de situação em torno dos agentes culturais afetados pela pandemia e que mecanismos podem ser usados para os apoiar. Na quarta-feira, 24 de junho, surgiu a ideia de alargar os benefícios fiscais do modelo de mecenato. Neste momento, constatou-se, o setor está à deriva e os municípios, que suportavam substancialmente a cultura em Portugal, não têm grandes orientações sob como proceder.

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“Estamos na barca com Noé” e “não sabemos quando vamos sair” e “como estará o mundo quando tal suceder”. A metáfora partiu de Carlos André, crítico literário que foi Governador Civil de Leiria e diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que reiterou ao longo da noite o facto do grande problema atual da cultura ser a incerteza em torno do fim da pandemia. “Penso que o futuro é demasiado nebuloso para atitudes simplistas”, refletiu, “a situação é por demais angustiante”, destacando que sendo a cultura o parente pobre do sistema, esta terá de saber reinventar-se.

Fonte: Rede Cultura 2027

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Antes da sua intervenção, João Aidos, programador e assessor cultural, já havia traçado um quadro negro do panorama cultural. Num universo nacional dependente a 70% das autarquias, avançou, não há orientações concretas, houve necessidade de hierarquizar prioridades e os municípios estão à deriva sobre como proceder com o setor cultural, como orientações do Estado central muitas vezes contraditórias.

“Sinto que estávamos em alto mar e apanhámos um tsunami”, refletiu João Aidos, considerando que, tendo em conta a fragilidade do setor cultural, onde a maioria dos artistas tem uma situação laboral precária, a resposta da tutela devia ter sido mais urgente e organizada. Com a pandemia, todas as programações culturais foram canceladas ou adiadas e os agentes culturais ficaram “completamente à deriva, sem saber o que fazer”. Os artistas, muitos freelancers, estão simplesmente sem trabalho.

“Cerca de 70% do apoio à cultura em Portugal passa pelos municípios”, adiantou, que, num primeiro momento, foi quem puxou pela imaginação e tentou oferecer alguma oferta cultural, nomeadamente pelos meios digitais. Os artistas aderiram.

Porém, constatou, a cultura foi dos últimos setores que viu serem definidas regras de atuação face à crise pandémica e “não da melhor forma”. João Aidos constatou que a tutela não discutiu devidamente a situação com os promotores culturais, colocando lotações nos espaços e regras que rapidamente se percebeu que eram impossíveis de implementar. Além disso, os dois meses que demorou a intervir foram terríveis para o setor. “Mesmo em financiamento, não houve resposta clara”, salientou.

Sem orientações objetivas e completamente à deriva, os municípios tentam agir num universo algo “esquizofrénico”, constatou. A título de exemplo falou do programa da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, o “Caminhos”, que foi suspenso apesar de ser ao ar livre porque se entendeu não cumprir as condições sanitárias. Ao mesmo tempo, o Estado está a abrir uma série de concursos para o verão, para iniciativas ao ar livre. “Isto é um bocadinho contraditório”, refletiu, “ainda estamos um bocadinho todos à deriva e a própria tutela também”.

Apesar da narrativa dominante ser catastrofista, Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, refletiu que a situação em pouco mudou em relação ao que já se encontrava e vive-se o que já anteriormente se viveu em momentos de crise: em tempos de luta pela sobrevivência, a cultura fica para último. “Podemos antever que quem olhar para este período da História vai dizer que aconteceu o mesmo que noutras situações semelhantes, constatou.

Rede Cultura 2027 em Ourém | Que futuro para a cultura em tempo de pandemia? Coordenador Paulo Lameiro analisa sessão desta noite

Publicado por mediotejo.net em Quarta-feira, 24 de junho de 2020

Maria Jesus Monge, da Fundação Casa de Bragança, falou por videoconferência, oferecendo uma perspetiva em torno da situação dos Museus. Adiantaria assim na discussão que os cerca de 2 milhões de euros que o Estado elencou para o setor serão totalmente gastos em ordenados e despesas correntes. Deixaria assim o apelo ao trabalho em rede, lembrando que “a cultura foi fundamental para manter a sanidade mental” em tempo de confinamento.

Também por videoconferência, Nuno Mangas, presidente do IAPMEI – Agência para a competitividade e inovação, constatou que o problema atual é que também as empresas estão sem meios para dar apoios à cultura. Neste sentido, sugeriu que se alargue o espectro da lei do mecenato, ampliando os benefícios fiscais, promovendo-a também junto das empresas e lembrando que esta pode ser aplicada com recursos humanos.

Outra das suas sugestões foi aproveitar a Rede Cultura 2027 e criar uma rede de empresas solidárias desta região para facultar apoio aos agentes culturais.

No debate discutiu-se ainda o facto da cultura em Portugal ser tendencialmente gratuita, situação que não se verifica noutros países da Europa, o que deixa as instituições culturais muito dependentes e numa situação mais fragilizada face a imprevistos desta natureza. Referiu-se assim a necessidade de mudar mentalidades face ao consumo de cultura.

Mencionado na sessão mas sem ter intervido, o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, comentou aos jornalistas que o problema dos municípios com os espetáculos culturais prende-se sobretudo em cumprir as regras estabelecidas pela Direção-geral de Saúde.

“O dinheiro nunca é muito e obviamente temos que hierarquizar as prioridades”, constatou, dando-se destaque às questões sociais. “Mas o problema neste momento é como nós podemos desenvolver atividades culturais, tendo em conta as restrições que existem”, refletiu, adiantando algumas iniciativas que vão decorrer a curto prazo e a preocupação com a questão sanitária.

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