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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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Ourém 30 anos | Elevação a cidade marcou a luta pelo progresso no concelho, diz Mário Albuquerque (c/vídeo)

A 20 de junho comemoram-se os 30 anos da elevação da vila de Ourém a cidade, e o mediotejo.net conversou a esse propósito com o ex-presidente da Câmara Municipal, Mário Albuquerque, que dirigiu o processo. Num momento de viragem depois das convulsões do pós-25 de abril, conta-nos que os políticos da época quiseram devolver alguma dignidade à sede do concelho. Parte dessa estratégia passou pela fusão entre a vila de Ourém, onde se situava o Castelo, e a Vila Nova, onde estavam os equipamentos administrativos, criando uma cidade. A medida política procurou recuperar assim o rico legado histórico da sede do concelho, na linha da luta pelo progresso de um território que procurava sair do marasmo. 

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Era um concelho atrasado, consumido pela emigração e pela falta de massa crítica, assim como de líderes que lutassem nos centros de decisão pelo progresso do território, quando Mário Albuquerque, hoje com 80 anos, assumiu pela primeira vez a gestão do município, em 1979. A carência de tudo, sobretudo ao nível das infraestruturas, marcou aquela primeira década de vida autárquica, em que esteve ora no executivo, ora na oposição. 

Vila Nova de Ourém, ainda que mais equipada que o restante concelho, era o espelho do território. Ao longo dos primeiros anos de liberdade, os executivos ourienses foram empreendendo esforços para ir ao encontro das exigências do novo tempo e da dignificação da sede do concelho.

“As pessoas viviam tão mal, tão mal, que as nossas gentes, os nossos homens válidos, tiveram que fugir para França”, recordou Mário Albuquerque ao mediotejo.net. “Quem ficou cá? Os idosos, mulheres e crianças. Portanto tínhamos um concelho completamente estagnado, paralisado, um concelho fantasma, como costumo dizer, sem nada. A eletricidade a 60%… ou seja, 40% da área do concelho não tinha eletricidade, veja lá como era possível!”

“Tínhamos um concelho completamente estagnado, paralisado, um concelho fantasma, como costumo dizer, sem nada. 40% da área do concelho não tinha eletricidade, veja lá como era possível!”

Estradas, recorda, “eram muito poucas, algumas alcatroadas, outras nem existiam”. Infraestruturas básicas, como água e saneamento, praticamente não existiam. “Só havia abastecimento de água domiciliário na sede do concelho, em Ourém, e na Cova da Iria. Mais nada! As escolas estavam degradadas. Era uma catástrofe total em termos sociais. Ainda por cima com a mão de obra toda a criar riqueza, mas em França”, evidenciou.

Neste cenário, diz que foi feito tudo o que era possível. “Creio que as coisas até andaram mais ou menos bem. Avançámos sempre em função do que nos era pedido pela população. Não podia ser de outra forma. Apareciam nas reuniões de câmara e queriam água, queriam estradas, queriam eletricidade. Era isto que fazíamos. Conseguimos muita coisa, apesar de tudo”, recordou.

No final dos anos 1980 surgiu a ideia de fundir Vila Nova com Ourém e criar uma cidade. “Havia Ourém velha e Vila Nova de Ourém, como que uma separação entre a mãe e a filha”, lembra Mário Albuquerque.

“Isso nunca caiu bem nalgumas mentalidades do concelho, mais evoluídas, na medida em que a velha Ourém, que é o berço de Ourém, ia perdendo importância, os seus pergaminhos, a sua importância histórica. Tudo isto foi-se diluindo com o tempo e estava perfeitamente abandonado. Havia que recuperar a história.”

Defensor desta mentalidade de união, a estratégia de recuperação da identidade histórica passou por acabar com a divisão entre as duas vilas contíguas. O primeiro passo ocorreu em 1989, quando se extinguiu Vila Nova de Ourém e se alargou a abrangência de Ourém, que passou a albergar duas freguesias, Nossa Senhora das Misericórdias e Nossa Senhora da Piedade.

O debate foi acesso, admite o ex-presidente, e passou pela comunicação social. “Levantaram-se algumas reações, as placas chegaram a ser vandalizadas, inclusivamente com o apoio de figuras representativas da sociedade civil e religiosa, que não gostaram… (risos). É normal, sempre que há mudanças. Mas acabou por tudo assentar e ficar pacífico”.

Em 1991, com a publicação em Diário da República da deliberação da Assembleia da República a 20 de junho, a vila foi elevada a cidade. Perdeu-se então a comemoração do 25 de setembro, que marcava a fundação da Vila Nova de Ourém, antiga aldeia da Cruz, por D. Maria II – e também o espírito de divisão entre a população, que com os anos acabou por ir ficando arrumado no passado. 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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