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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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“Os Vencidos da Vida”, por Adelino Correia-Pires

Naqueles últimos anos de um reinado acinzentado, já Oliveira Martins apregoava a urgência de uma “Vida Nova” que agitasse aquele sistema político sensaborão e viciado. O rotativismo dos partidos Progressista e Regenerador era algo que para aquela gente exigia outro rumo.

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D. Luis, o Rei, homem bom mas desgastado e refém de um rotativismo caduco, qual moeda de duas faces qualquer uma pior que a outra, agonizava no Paço da Ajuda, tocando violoncelo e traduzindo Shakespeare.

Oliveira Martins, com pouco mais de quarenta anos, intelectualmente superior, sete filhos e milhares de páginas já publicadas, havia conseguido reunir um conjunto de mentes mais ou menos brilhantes, pese embora a brilhantina variasse em cada uma delas. E convencera-se que a “Vida Nova”, teria uma vida longa. Enganou-se. Durou, afinal, apenas dois anos.

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Mas Martins não era homem para se ficar. E, quando Ramalho Ortigão, viajante deslumbrado, lhe cita o excerto do livro “La vie à Paris” – “… les uns glorieux, les autres battus de la vie”, Oliveira Martins percebe que ali estava o nome de génio para aquele grupo: “Battus de la vie – Vencidos da Vida”. Sim, vencidos da “Vida Nova”, mas futuros vencedores de um país sem bolor.

Iriam vingar-se tertuliando como ninguém. Egos vários, bigodes para todos os gostos. Retorcidos e cofiados. Jaquetões e paletós. Coletes, gravatas e colarinhos. Mesa posta, Colares branco, Tavares Rico. Ou Braganza, que à época era hotel que não desfazia.

Da velha nobreza, o Conde de Sabugosa, já surdo, mas culto de não ouvir e muito ler. Também Ficalho, o Conde, Par do Reino e o decano do grupo. Dele diria D. Carlos: “…o Francisco é um daqueles portugueses que gosto de mostrar lá fora…”. Ainda da aristocracia, embora mais novos, o prometedor e polémico Lobo d’Ávila, o charmoso Bernardo Pindela, futuro Conde de Arnoso e ainda Luís de Soveral – futuro Marquês e diplomata maior. Do mundo e das viagens, Carlos de Lima Mayer, de famílias “importadas” com as tropas de Junot. Homem culto, amante das artes, dos salões e da medicina. Das letras e da cultura, os “bandarilheiros” Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz que farpeavam a torto e direito, o poeta Junqueiro e o inevitável Oliveira Martins. E, por fim, António Cândido, parlamentar brilhante, a “Águia do Marão” tão alto voavam os dotes da sua oratória.

Durante anos, cerca de meia dúzia (de 1887/8 a 1894) aquelas onze alminhas foram inventando argumentos para repastos vários. No Tavares, no Braganza ou na Lapa, em casa dos mais abastados. Davam que falar, bebericavam bem e comiam melhor.

Entretanto, Ramalho concluía “As Farpas”, Eça escrevia “Os Maias” e em Belém já nessa altura se congeminava o futuro. D. Carlos e D. Amélia faziam pela vida, quando não era a vida que fazia por eles. Enquanto isso, na Ajuda o som do violoncelo já mal se fazia ouvir. D. Luis suspirava pela última vez na Cidadela de Cascais, junto ao oceano que tanto o inspirara.

‘Rei morto, Rei posto’ terá dito a Rainha e assim pensaram os “Vencidos”. Com eles por perto, o futuro Rei sacudiria o pó ao parlamentarismo bafiento. Mas quis o destino que tal não acontecesse. E os “Vencidos”, convencidos que a vida se resolvia apenas de faca e garfo perceberam então que seria preciso bem mais do que isso.

Diplomaticamente, calçaram as luvas, concertaram as jaquetas e partiram. Cada um para as suas (boas) vidas. Mas ainda hoje se fala deles. Bon apétit battus de la vie!

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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