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Sábado, Julho 31, 2021

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“Os tempos em que havia tempo para escrever postais”, por Hália Santos

Há muitos anos, havia uma coisa que, por estas alturas, criava um certo estado de fascínio: os postais de Natal. O ritual de comprar, escrever e receber os tradicionais postais de época marcavam aqueles dias. Eram dias diferentes, com um sabor especial, aqueles em que se escrevia a alguém. A própria escolha de um postal adequado a quem o iria receber era um ato quase solene, porque não podia ser qualquer coisa. Era preciso imaginar o impacto que ia criar na pessoa ou na família.

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Muitas pessoas usavam postais de Natal vendidos aos pacotes pela Unicef, pintados por pessoas sem braços nem pés. Pelo menos, essa era a indicação que vinha nos postais. Assim, cumpriam-se dois objetivos: ajudar quem os produzia e alegrar quem os recebia. Depois gerava-se toda uma confusão para se decidir quem ia receber os postais mais bonitos. Talvez a mensagem fosse mais importante do que a imagem. Mas sabia tão bem imaginar que cada postal tinha a cara de quem o ia receber…

Pensava-se numa frase que fizesse sentido no Natal e sempre. Porque o Natal era só um pretexto para o prazer de se enviar uma mensagem. As mensagens, assim embrulhadas na forma de postal, enviadas em envelopes com os endereços escritos com uma caligrafia perfeita, ocupavam algum tempo. O tal tempo de qualidade, de que agora se fala, o tal que dá prazer. E os postais recebidos em troca eram expostos nas salas de estar das casas de família. Depois, guardavam-se os envelopes para se ter a certeza de que, no ano seguinte, se escreveria a todos os que haviam enviado postal de Natal.

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Mas este era um tempo em que os miúdos e os jovens também tinham “amigos de correspondência”. Nas revistas havia uma espécie de anúncios de pessoas que gostavam de se corresponder com outros, pelo simples prazer de conversar através da escrita. Boas horas de muitas juventudes foram passadas a escrever longas cartas a pessoas que só se conheciam através de fotografias enviadas por correio. Mas as amizades com estes desconhecidos faziam-se com facilidade, como agora se fazem recorrendo a outros métodos.

A vida é agora muito mais rápida. As mensagens talvez nos ocupem menos tempo. Não haverá já muita gente a escrever postais de Natal, em papel, enviados por correio. Já ninguém espera ansiosamente pelo carteiro nem ninguém se prepara, como num cerimonial, para ler uma carta que chega fisicamente à caixa de correio. É pena, mas é a vida. E enquanto há mensagens, seja de que tipo for, vamos andando…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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