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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“Os sacos de plástico das nossas vidas”, por Hália Santos

Se passei a levar sacos para as compras desde que passei a ter que pagar por eles? No início, sim. Quase sempre. Passei a ter vários sacos de alças, daqueles mais robustos, no carro e em casa. Outros tantos de plástico, que ia usando conforme a quantidade de compras que esperava fazer. Agora, confesso, às vezes esqueço-me. Portanto, compro novos. Mas culpabilizo-me sempre que o faço. E quando o carro está cheio de sacos, coloco os que tenho a mais, religiosamente, num enorme saco que tem a função de ‘guardador de iguais’.

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Não sendo ambientalista fundamentalista, concordei com a medida de se acabar com os sacos de plástico gratuitos. A verdade é que me irritavam aquelas pessoas que, quando eram de borla, tiravam um saco para cada dois ou três produtos que compravam. A quantidade de sacos que certas pessoas levavam era assustadora, como se a respetiva felicidade dependesse da quantidade de sacos que conseguiam levar.

Certamente que muitos portugueses precisavam dos sacos de plástico que não pagavam para lhes dar uma nova vida como sacos de lixo. Hoje, raramente vemos um desses sacos nos contentores do lixo. Na lista das compras passou a constar ‘sacos do lixo’. Pessoalmente, gosto mais dos roxos, porque deixam um cheirinho a alfazema, coisa que os antigos sacos de supermercado não conseguiam fazer.

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Em conversa com a minha filha recordei os meus avós. Tudo a propósito dos sacos de plástico. A medida fez-me pensar em como guardar os sacos de plástico para reutilização não é nada de novo. Já eles o faziam. Aliás, herdei o hábito de conservar os sacos que estão praticamente novos, para reutilizar, muito antes de ter que os pagar no supermercado. Como também guardava os papéis das prendas para voltar a usar, no tempo em que fazíamos os embrulhos em casa. Tal como os lacinhos. Sim, guardar os lacinhos das prendas era coisa que se fazia.

A minha avó lavava todos os sacos de plástico que lhe iam parar às mãos, estendia-os como se de roupa se tratasse e dobrava-os com uma técnica impressionante. Só não os passava a ferro por razões óbvias. O meu avô, homem prevenido, trazia sempre no seu bolso pelo menos um desses sacos que a minha avó ‘preparava’. A qualquer momento, um saco de plástico podia ser útil. Quase tão útil quanto o lenço de pano que usou no bolso até ao fim da sua vida.

Os sacos de plástico fazem, portanto, parte da nossa vida. Mas esta coisa de os voltar a usar, renovando a sua vida, nem sempre é pacífica. Pode, até, causar um certo embaraço. Confesso que, no início, ficava um pouco constrangida quando, na caixa do supermercado X abria um saco do supermercado Y. Sentia-me quase traidora. Mas, agora, experimentada na coisa, acho que só mesmo eu é que reparava nesse pormenor. As meninas da caixa só queriam era saber se eu queria ou não sacos de plástico novos.

Quanto aos sacos de alças, no início procurava os que imaginaria que mais agradariam à minha filha. Sim, porque ela os usa para transportar tudo e mais alguma coisa. Portanto, convinha que fossem bonitos. Estes sacos, que inicialmente seriam destinados a compras de supermercado, rapidamente passaram a ser úteis para variadíssimas situações. Quem é que nunca os usou para levar coisas de um lado para o outro ou mesmo para guardar roupa da outra estação na arrecadação?

Portanto, quando ficamos a saber que o grupo de trabalho que deveria apresentar conclusões sobre o impacto desta medida, nomeadamente em termos fiscais, ainda não tem nada para dizer, fico a pensar… É mesmo preciso concluir alguma coisa? A medida, de facto, criou hábitos novos nas pessoas, que, regra geral, passaram a fazer um uso muito mais consciente dos sacos de plástico. E os sacos reutilizáveis passaram, de facto, a fazer parte da vida de todos.

Quando um sem-abrigo guarda tudo o que tem num desses sacos de alças dos supermercados – que, antes desta coisa de pagar por sacos de plástico quase não existiam – é como se uma vida inteira coubesse num saco. É o oposto entre o valor de tudo o que temos e a insignificância do que se vai num instante, como os sacos de plástico que antes recolhíamos só porque nada nos custavam.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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