“Os prémios pouco ‘normais’ e os diferentes tons de cinzento”, por Hália Santos

Gosto de coisas fora do normal. Sempre gostei. Sabes que gosto pouco de ‘carneirismos’, prefiro coisas estranhas pouco comuns a coisas que a maioria das pessoas aceita como normal sem sequer questionar. Resumindo, gosto de surpresas, de ser confrontada com o inesperado. Isso é, para mim, uma das razões para me considerar em permanente fase de descobertas…

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A que propósito vem isso? O que são essas coisas a que te referes? Desculpa, mas parece-me uma conversa estranha, esta que estás a querer ter. Sabes, é que eu gosto de coisas claras!

Tens razão, fui pouco direta. E tu sabes bem que gosto de o ser. Mas às vezes dá-me para isto, para contornar, para ver como reagem os meus interlocutores.

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Andas a fazer experiências comigo?

Por acaso, até ando. Ando a ver como reages a certas provocações. Gosto de gente que pensa e quero ter sempre a certeza de que não desistes de pensar. E, para pensarmos, temos que ter acesso à informação.

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Sim?… E então?…

Então as coisas de que falo são os prémios que têm vindo a ser atribuídos e que têm vindo a romper com o que a generalidade das pessoas considera aceitável. A primeira destas estórias foi o Nobel da Literatura para o Bob Dylan.

Finalmente! Até tinha estranhado ainda não teres puxado essa conversa!

Ah, pois é! Não falei contigo sobre o assunto nem o faria porque, de propósito, não quis pronunciar-me sobre o assunto. Li e ouvi muitos argumentos a favor e contra e, sinceramente, não consegui formar uma opinião sólida sobre o assunto.

Mas achas que tens que ter sempre uma posição firme e decidida sobre tudo?

Não! Precisamente por isso é que não me pronunciei sobre esse assunto. Acho que há temas em dificilmente vemos só o branco e o preto. Quem me conhece sabe que estou sempre a falar nos imensos tons de cinzento.

Não tens opinião sobre o Nobel do Dylan?!?

Não, não tenho! Por que razão é que achas que tenho que ter sempre opinião? Às vezes não tenho. Outras vezes mudo de opinião. Chamo a isso desenvolvimento pessoal (risos).

Isso nem parece teu…

No caso concreto, gosto da ideia de se premiar alguém que não se encaixa no tradicional conceito de grande escritor, simplesmente porque gosto que o que todos esperam possa ser contrariado. Mas não tenho opinião porque não conheço o suficiente da obra de Dylan. É isto!

Estás mesmo muito estranha, hoje…

Deve ser pela revista Glamour ter atribuído o prémio “Mulheres do Ano” a um homem. O Bono, o vocalista dos U2. Nem ele esperava!

Estás estranha por causa disso?!?

Claro que não! Estava só a ver como é que reagias… Na verdade, adorei a atribuição deste prémio. Acho mesmo fantástico que se quebrem barreiras desta forma.

Então e qual é a diferença em relação ao Nobel?

É óbvia! No caso do Nobel da Literatura, entendo que me falta conhecimento para tomar uma posição sobre a justeza da atribuição. No caso do Bono, a justificação da revista diz tudo: “Quando uma grande estrela do rock masculina, que poderia fazer tudo o que quisesse com a sua vida, decide focar-se nos direitos das mulheres e de raparigas em todo o mundo, então isso é motivo de celebração.” Não posso estar mais de acordo, por isso agrada-me a atribuição do prémio.

O facto de estarmos num campo social ou num campo literário, supostamente mais elitista, faz a diferença.

Talvez seja um pouco assim. Mas os direitos das mulheres, sobretudo em determinadas partes do mundo, continuam a precisar de divulgação. É uma guerra que ainda não se venceu. Já muitas batalhas foram ganhas, mas ainda há muito a fazer. Se for preciso fazer coisas diferentes para chamar a atenção, que se faça! E que se valorize quem usa o seu poder mediático para ajudar na luta.

Tens razão. E tens razão no dia em que se volta a mostrar que em muitas situações as mulheres ganham menos do que os homens pelas mesmas funções.

Em 25 anos de uma carreira profissional, primeiro em empresas privadas e depois na função pública, nunca me aconteceu. Se, quando comecei a trabalhar, achava que isso era impossível, imagina o que penso agora, tanto tempo depois! Sobre isso tenho uma posição claríssima: é inaceitável!

 

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