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Sábado, Outubro 16, 2021

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“Os namoros e as redes sociais”, por Hália Santos

As redes sociais são maravilhosas para mostrarmos que temos vidas felizes. Mostramos os sítios lindos que visitamos, partilhamos fotos das nossas melhores refeições, anunciamos que vamos a concertos e… dizemos que amamos muito os nossos namorados e namoradas! Sobretudo no Dia dos Namorados. O dia em que uns se lembram mais de quem está ali ao lado todos os dias, em que se marcam jantares românticos que não existem durante o ano e em que aparecem chocolates e flores que raramente se oferecem. Sim, é um pretexto. Respeite-se quem gosta. Como se respeita quem gosta do Natal só por causa das prendas e das luzes. É tudo folclore, mas cada um é que sabe quais são as canções que mais o animam.

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As redes sociais têm, então, como todos sabemos, esta coisa maravilhosa que se chama encenação da felicidade para inimigo ver. Sim, porque muitas das pessoas que temos como ‘amigos’ nas redes sociais, na verdade, são apenas espiões frustrados. Até há quem desenvolva técnicas para enganar esses espiões, fazendo disso uma atividade divertida do seu dia a dia. Por exemplo, colocar uma foto de um pôr do sol lindo com a legenda “Hoje viemos aqui”. Mas o viemos tanto pode ser o cão como a bicicleta! Nada de namorados…

No meio das estratégias de manipulação de ideias que se retiram de posts mais ou menos elaborados para causar determinados impactos, na verdade as redes sociais também servem para coisas verdadeiramente interessantes sobre namorados. Por exemplo, foi através do Facebook que reencontrei dois namorados de juventude. Um dia, em férias pelo Norte (onde vivi e onde eles ainda viviam), decidi apresentar esses meus ex-namorados à minha filha, então com uns dez anitos, mas já a imaginar como seria o seu primeiro namorado.

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Combinámos jantar com o meu namorado dos 14 anos. Não o via há quase 30 anos. Foi uma coisa bonita! Tanto eu como ele estávamos sozinhos e a minha filha começou logo a imaginar coisas, como se os namoros de miúdos tivessem alguma coisa com eventuais namoros de gente madura. Porque o cenário do reencontro foi no Minho e porque ele é minhoto, os contornos foram cheios de ternura. Que me desculpem os sulistas, mas os afetos no Norte são expressos de uma forma única!

Beijos, abraços, toques, ‘minha querida’ para cá, ‘minha querida’ para lá, ‘gosto tanto de ti’ vezes sem conta… A miúda, criada como sulista, de olhos esbugalhados. Nunca tinha visto um homem fazer aquilo à mãe. Nem o próprio pai. Mas rendeu-se aos afetos minhotos. No fim do jantar, comentou: “Oh mãe, ele ainda gosta de ti! Ele quer voltar a namorar contigo!”. Disse-lhe para ter juízo, que o que ela tinha visto era só carinho muito verdadeiro de alguém que teve uma estória bonita de namoro quase sem o ser. Uns beijinhos e pouco mais.

No dia seguinte fomos tomar café com o meu namorado dos tempos do ciclo, portanto, dos 10/12 anos. A mesma coisa! Toques, mimos, afetos expressados verbalmente sem qualquer preocupação em ser mal interpretado. Porque no Minho é assim. A miúda ficou ainda mais baralhada. “Oh mãe, eu acho que este também continua a gostar de ti. Também quer namorar contigo!” Outra vez a mesma resposta: “Não é nada disso. As pessoas do Norte são naturalmente expressivas, gostam de dizer e de mostrar o que sentem. O que ele quis mostrar foi a ternura que guardou de mim estes anos todos.”

A miúda não se convenceu e perguntou: “Mas de qual é que gostas mais?” Como se os namoros de infância e de juventude se pudessem recuperar assim, de repente, só com um reencontro rápido.

Mas a verdade é que os bilhetinhos de amor que guardo do namorado dos 10/12 anos e as fotografias que guardo do namorado dos 14 anos são verdadeiros tesouros. As coisas que agora escrevemos, seja no Dia dos Namorados ou noutro dia qualquer, parecem-me demasiado elaboradas, como são as fotos que colocamos nas redes sociais para mostrar aos outros como somos felizes sem o sermos.

Pode ser que os miúdos voltem a querer mandar bilhetinhos e a tirar fotos para imprimir e pôr num álbum. Quando, daqui a décadas, reencontrarem os namorados, vai saber muito melhor…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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