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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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“Os miúdos que fomos e os nossos miúdos”, por Hália Santos

Pronto, hoje começa um novo ciclo para a maioria dos portugueses. Setembro é o mês de regresso a quase tudo: trabalho, aulas…

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Para quem tem filhos, o Verão parece uma eternidade. Para quem não os pode pôr em atividades, o anúncio do regresso às aulas costuma ser uma excelente notícia. Não há forma de ocupar os miúdos durante tanto tempo.

É o velho problema da falta dos avós. Ou ainda trabalham, ou já estão demasiado cansados ou estão longe. Criámos uma forma de viver que não ajuda nada quem tem miúdos pequenos. Felizes daqueles que ainda brincam nas ruas e daqueles que podem ficar com os avós nestes tempos de Verão que parecem não ter fim.

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Não gosto de conversas de Velho do Restelo, mas era tão bom quando chegávamos a casa já noite alta, naqueles Verões de infância… Nem era preciso viver-se na aldeia. Mesmo em cidades relativamente grandes, os miúdos brincavam nas ruas. Os bairros funcionavam como pequenas aldeias. Todos tomavam conta de todos.

Havia uma ideia de utilização do espaço comum completamente diferente. Brincávamos nos largos, nas praças, nas avenidas. Fazíamos excursões para as piscinas públicas. Tratávamos os cães abandonados que encontrávamos na rua. Fazíamos funerais aos insetos que encontrávamos mortos. Íamos sozinhos ao cinema. Fazíamos piqueniques. Jogávamos jogos de tabuleiros nas casas dos que tinham as mães mais simpáticas!

Tanto saudosismo!…

Em certa medida, sim, mas com um sorriso nos lábios e na alma. A única coisa que me deixa triste nisto tudo é que a maioria dos miúdos de hoje ouvem as nossas histórias como nós líamos histórias de aventuras. Parece-lhes tudo tão distante, tão impossível…

E não foi há tanto tempo quanto isso. As coisas é que evoluíram depressa demais. Ou talvez não… Percebo bem o que dizes sobre a sorte que muitos de nós tivemos de viver infâncias maravilhosas. Com muito pouco dinheiro passávamos tempos fantásticos.

Lembro-me de um jogo que fazíamos em plena cidade, que hoje seria impensável. Ainda na escola primária, um dos nossos jogos preferidos era escolher uma pessoa que passasse na rua. Imaginávamos qual seria a sua profissão e como seria a sua família. Depois seguíamos essa pessoa até onde ela fosse para tentar perceber se os nossos palpites se aproximavam da realidade. Hoje, quando conto isto a algumas crianças, não percebem a graça do jogo. Passava tudo pela capacidade de imaginação. No fundo, estávamos a criar personagens e a desenvolver um enredo. Era giríssimo!

Era tudo simples, tudo natural… Precisávamos de muito pouco para ser felizes. Como nas aldeias, nos bairros juntavam-se miúdos de todos os tipos de famílias. Não me lembro de alguém colocar questões de classes sociais, nem de interesses diferentes. Havia miúdos de quem gostávamos e miúdos de quem não gostávamos. Os grupos criavam-se muito por empatia. E como havia tanta criança e jovem, havia muito por onde escolher.

A verdade é que hoje os miúdos estão muito limitados aos colegas de escola e das mil atividades em que estão inscritos. Depois há os amigos por obrigação, os filhos dos amigos dos pais. Às vezes corre bem, outras vezes nem por isso…

Sabes, nem tudo é mau! Os miúdos de hoje, mesmo que mais focados em algumas coisas, mais conscientes da vida e dos problemas que vêm com ela, acabam por ser um forte fator de socialização dos pais…

Como assim?

Cada vez mais, nas grandes cidades, há adultos que se tornam amigos dos pais dos colegas dos filhos. Encontram-se à entrada e saída da escola, vão -se cumprimentando, depois conversam nas festas de aniversário. Quando dão por eles, estão a pedir para os miúdos ficarem na casa uns dos outros, porque a rede familiar raramente existe. E ficam amigos, o que é excelente! É uma nova forma de fazer amigos. Juntam-se, com muita frequência, pessoas com vidas muito diferentes, que têm como único ponto em comum o facto de os filhos serem amigos.

Sim, é mesmo uma das consequências engraçadas deste tempo em que os adultos não têm tempo para fazer novos amigos. As festas de aniversário são o maior potenciador disso mesmo…

Nas nossas festas de aniversário – que eram raras – os miúdos apareciam sozinhos na casa do aniversariante. Com a exceção dos vizinhos, os pais e as mães não se conheciam uns aos outros. Quase não havia reuniões nas escolas. Era tudo muito diferente…

Pois era, mas não me venhas com a conversa de que era tudo muito melhor!

Claro eu não! Era diferente… E ainda bem!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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