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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021
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“Os milhões dos excêntricos”, por Hália Santos

Sinceramente, não percebo por que é que há pessoas que se incomodam com os milhões dos outros…

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Que milhões? Os do Euromilhões?

Essa é uma parte da conversa. Cada vez que não me sai o Euromilhões fico desapontada, mas logo de seguida dou comigo a imaginar a vida de alguém que tenha tido a sorte que eu não tive. O que terá sido a primeira coisa que fez? Quem foi a primeira pessoa a quem contou? Quem foi a primeira pessoa que teve vontade de ajudar? Que sonhos vai pode concretizar?

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Mas isso é aquela curiosidade estranha do ser humano que tu tanto criticas nos outros!

Em certa medida, tens razão. Mas eu não ando a vasculhar tudo para saber quem ganhou o Euromilhões! Gosto de imaginar, como sempre gostei de imaginar, que vidas têm as pessoas com quem me cruzo uma vez na vida, num transporte público ou num espetáculo, e que nunca mais vou voltar a ver. É tudo uma questão de imaginação. No caso dos excêntricos do Euromilhões, gosto simplesmente de imaginar como é que uma vida pode dar uma reviravolta tão grande.

Então e não ficas com uma ponta de inveja?

Não… Lá está… Os milhões que os outros têm nunca me fizeram confusão. Cada um tem o que tem e cada um vive como pode. Claro que gostava de ter um milhãozito na conta, mas, não o tendo, não o herdando, não tendo um emprego que me permita juntar semelhante verba, nem ganhando o Euromilhões, terei que me limitar à condição em que vivo, de ‘remediada da classe média’. E nem me queixo. Seria insultuoso se o fizesse!

Podes sempre arranjar um homem que tenha um milhãozito ou dois para partilhar…

Isso é contra a minha religião! Nem milhãozito, nem cêntimozito…

Então podes sempre esperar que a tua filha tenha sucesso financeiro na vida e te permita terminares a tua vida naquela residência acompanhada de luxo com vista para o mar, na praia que tanto adoras.

Achas? Mas alguma vez eu tive uma filha a contar com o que quer que seja?

Então esquece a conversa dos milhões porque nunca os vais ter! Terás que continuar a imaginar a vida de quem os tem.

Pois, talvez… Sabes, estava agora a lembrar-me que também não percebo as pessoas que se preocupam com os milhões que, alegadamente, andaram a circular em contas de gente que insiste em não sair das primeiras páginas dos jornais.

Também não te incomodam esses milhões?

Não!

Não???

Não… Bem vistas as coisas, os velhotes com poucos rendimentos aguentavam mais uns aninhos sem aumentos de 10 euros por mês e juntava-se esse dinheiro para tapar os buracos dos milhões dos famosos. Já viste o que é ter que devolver 20 ou 30 milhões de euros? É muito aborrecido!

Ah, pois, os velhinhos já estão habituados a poupar…

Foi o que a maioria deles fez toda a vida. Não custa nada continuarem na mesma! Agora imagina que se enganavam no prémio do Euromilhões… Primeiro davam-te o dinheiro e tu começavas a gastar à maluca. E depois diziam, ah, desculpe lá, esse dinheiro não é seu, tem que o devolver e ainda vai pagar com outras privações por ter andado a gastar o que não é seu. É muito aborrecido, uma pessoa criar expetativas de que vai ser excêntrico até ao fim da vida, que vai poder ajudar as pessoas que lhe são mais próximas e, de repente, ser confrontado com uma realidade de ‘remediado da classe média’, sem sequer poder usufruir dos novos escalões do IRS… Não se faz a ninguém!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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