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Trincanela

Domingo, Julho 25, 2021

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“Os meus mortos vivem comigo”, por Hália Santos

Hoje não me apetece falar contigo. Hoje vou ficar sozinha nos meus pensamentos. Caso contrário, teria que falar sobre tragédias, sobre comportamentos, sobre explicações e, sobretudo, sobre estórias de pessoas com rostos que, confesso o meu pior lado, me cansei de ver por todo o lado. Foi o prédio em Londres. Foi o incêndio em Pedrógão Grande. No início, também senti a necessidade de saber quem eram aquelas pessoas, sobretudo as da tragédia portuguesa. Que sonhos tinham e que ficaram pelo caminho. Mas depois deixei de querer ver as fotografias que colocaram horas antes nas redes sociais. Deixei de querer saber que estavam felizes naquele dia. Que estavam em família ou com os amigos.

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O que teriam imaginado sobre como seria a sua morte? Sim, porque todos pensamos sobre isso. Ou não? O que pensariam eles e elas das pessoas que morrem cedo demais? As crianças (pausa), as crianças nem tempo de vida tiveram para pensar nisso.

Que tipo de sentimentos teriam se estivessem no meu lugar? Morrer antes do tempo é contrariar a Natureza. Temos uma esperança de vida. Morrer antes de tempo é desafiar as capacidades humanas. De quem percebe que esse é o seu destino e de quem fica, perdido, à procura de um novo caminho que parece não existir.

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Hoje apetece-me imaginar o que diriam aquelas pessoas a quem mais amavam, se tivessem tido essa possibilidade. Depois lembro-me do episódio do bombeiro londrino que, quando percebeu que não havia salvação possível para aquela mulher que estava na torre em chamas e com quem falava ao telefone, passou o telefone à irmã: “Diga-lhe que gosta muito dela!”

Lembro-me também de um exercício comum nas formações em inteligência emocional, que nos levam a imaginar que estamos num avião que vai cair. Já vi um rapaz a sair, lavado em lágrimas, para telefonar ao pai como se fosse a sua última oportunidade de o fazer.

Hoje lembro-me dos meus mortos, que vivem comigo todos os dias. Sobretudo, dos que partiram cedo demais. Que sorriso hoje me ofereceriam. Que conselho hoje me dariam. Sim, a falta que os nossos mortos nos fazem pode ser simplesmente isto. Mas é tanto, tanto, que passem os anos que passem, nada compensa a sua ausência.

Com o tempo que passa, sorrio com as memórias e as imagens que guardo. Com o tempo que passa, consigo acertar no conselho que me dariam em cada altura. Pelo menos, gosto de pensar assim. Chego a fazer opções na vida em função do que acho que me diriam os meus mortos, porque eles vivem mesmo comigo. Os mortos de Pedrógão e de Londres não são meus, mas são de alguém.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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