Médio Tejo | Os melhores restaurantes da região, segundo a “Bíblia” Michelin

Na edição de 2016 do mais conceituado guia gastronómico do mundo surgem recomendados 13 restaurantes do Médio Tejo. Para dois deles, a escolha dos inspectores internacionais tem um sabor especial: O Santa Isabel, em Abrantes, que ganha a distinção pela primeira vez, e O Malho, em Alcanena, que passa a ostentar o selo “Bib Gourmand”, uma espécie de “estrela Michelin” para refeições mais em conta, apenas atribuído a 31 restaurantes em todo o país.

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Para Alberto Lopes haverá sempre um antes e um depois daquele momento em que um dos seus empregados o chama, dizendo que um cliente que acabara de almoçar gostaria de lhe dar uma palavra. O cliente apresentou-se oferecendo um cartão. Por baixo do nome espanhol saltou de imediato à vista o cargo que deixaria o proprietário do restaurante Santa Isabel, em Abrantes, com as pernas a fraquejar: “Inspector do Guia Michelin”.

Alberto Lopes teve de puxar de uma cadeira para sentar-se. “O senhor tem consciência do que me está a fazer?”, disse-lhe, emocionado. Naquele segundo, mesmo antes de o inspector dizer ao que vinha, sabia que o facto de este se apresentar era um bom sinal. E era, realmente. Os inspectores do mais conceituado guia gastronómico do mundo visitam por diversas vezes os restaurantes de forma anónima. Fazem as suas reservas, como qualquer outro cliente, pagam a conta e vão embora. No caso do Santa Isabel, explicou o perito espanhol, era a segunda visita de um inspector num curto espaço de tempo e, como as duas avaliações tinham sido “muito positivas”, quis conversar com o proprietário para recolher mais alguma informação e anunciar-lhe que tudo estava bem encaminhado para que passasse a constar do famoso Guia Vermelho, na edição de 2016.

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Alberto Lopes recebeu pela primeira vez o ambicionado selo de recomendação no Guia Michelin para o seu restaurante Santa Isabel, em Abrantes

De qualquer forma, ainda teria de passar mais um teste: uma terceira visita, que aconteceria nas semanas seguintes mas, como sempre, sem aviso prévio. O inspector despediu-se e, naquele dia, Alberto Lopes ficou muito esperançoso em conseguir a distinção mas, até há duas semanas, não sabia se teria de facto cumprido todos os critérios de avaliação do Guia Michelin. Foi com a banal chegada do correio, no final de uma manhã de dezembro, que chegou a confirmação. “Quando abri a carta e vi o dístico de recomendação, fiquei nas nuvens…!”, reconhece. “Era algo que ambicionava há muito tempo e é fruto de muito trabalho e persistência. Celebramos 20 anos de casa e receber esta distinção… é um grande presente.”

Uma recomendação que vale ouro

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O Guia Michelin nasceu em 1900 pela mão de André Michelin. A ideia do industrial francês era reunir restaurantes e hotéis num roteiro que pudesse cativar as pessoas a comprar carros para viajar e, assim, fazer crescer o seu negócio de pneus. Com o passar dos anos, o guia ganhou tanta credibilidade que passou a ser a referência para os restaurantes franceses e, mais tarde, em todo o mundo.

Todos os anos, milhares de inspectores independentes avaliam os restaurantes de cada país para ver se cumprem os critérios para receber uma Estrela Michelin – hoje equiparadas a um Óscar da gastronomia. Se conseguir uma estrela é difícil, obter a segunda é algo reservado a muito poucos ‘chefs’ e a atribuição da terceira estrela fica reservada a “deuses”. Em 2016 há menos de 100 restaurantes com esta classificação, em todo o mundo.

Para qualquer restaurante, a conquista de uma estrela coloca-o definitivamente no mapa da gastronomia mundial. Mas, como o prémio é atribuído anualmente, os ‘chefs’ galardoados ficam numa posição de grande responsabilidade – a perda da distinção também pode significar a ruína.

Na nossa região, já existiram restaurantes com uma estrela, nos anos 90, mas essa classificação foi retirada depois de uma revisão – muito contestada – dos inspectores do Guia, que passaram a não considerar como candidatos os restaurantes de cozinha tradicional, valorizando apenas a chamada “cozinha de autor”. O Tia Alice, em Fátima, por exemplo, teve uma estrela Michelin durante três anos.

Em alternativa, o Guia Vermelho passou a atribuir a classificação Bib Gourmand a restaurantes que servem refeições de qualidade por um preço moderado (inspirando-se na figura do Bibendum, a mascote da marca, um homem feito de pneus). Nalguns países, como a Alemanha, esta é a classificação que mais interessa aos compradores do guia. Fazer uma refeição num restaurante com estrelas Michelin é uma experiência única mas também rara, pelo preço que implica e pela dificuldade em conseguir uma reserva – alguns restaurantes chegam a ter listas de espera superiores a um ano… Comer num Bib Gourmand pode ser um programa de fim de semana: fácil, acessível e com qualidade garantida.

O limite atualmente estabelecido é de 31 euros mas muitos gastrónomos consideram este valor baixo para o nível exigido pela Michelin. Em Portugal, apenas 31 restaurantes receberam esta distinção no guia de 2016. Na região do Médio Tejo, dos 13 restaurantes destacados – todos eles já com recomendação Michelin há alguns anos, excepto o Santa Isabel, de Abrantes – apenas O Malho, na pequena localidade de Malhou, em Alcanena, cumpriu os requisitos para obter essa classificação. Depois de uma década de presença no Guia Vermelho, a família Frazão recebeu a notícia da atribuição do Bib Gourmand com grande satisfação: “É importante ter esta classificação. É o guia mais importante porque fazem um trabalho muito sério.”

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O restaurante O Malho, em Malhou (Alcanena), recebe no Guia Michelin de 2016 uma rara distinção no nosso país: um Bib Gourmand

A recomendação no Guia Vermelho é muito valorizada pelos ‘chefs’ e proprietários de restaurantes porque, além de ser um reconhecimento do trabalho desenvolvido, atrai sempre mais clientes. No caso do Santa Isabel, em Abrantes, Alberto Lopes sentiu o “efeito Michelin” logo ao segundo dia de recomendação. “Vieram pessoas novas, de fora, porque viram que estava recomendado”, conta. “Fico muito feliz por ver que Abrantes tem agora dois restaurantes no Guia Michelin e penso que a Tasquinha d’Aldeia também tem condições para lá chegar. É bom para a cidade termos este reconhecimento.”

Agora, animado pela distinção, quer “fazer melhor”, prometendo melhorias “no serviço, na apresentação do pessoal e das mesas”. O que não mudará será o conceito – comida tradicional, honesta, saborosa -, nem os preços. À porta, passará em breve a poder ver-se o seu distintivo Michelin: emoldurado, para exibir com orgulho, durante todo o ano.

* Com Cláudia Gameiro

 

Restaurantes da região com recomendação no Guia Michelin 2016

O MALHO, Malhou (Alcanena)

Classificado como Bib Gourmand: Ótima relação qualidade preço a menos de 31€

Nota do Guia Michelin: “Casa familiar construída com arquitectura típica da região do Ribatejo. Salas, com uma decoração clássica mas com detalhes regionais, sugere uma cozinha tradicional especializada em peixe. Por encomenda oferecem muitos mais pratos dos que têm na carta! (2 garfos) Bom Nível. Preço da refeição: 20/30€.”

SANTA ISABEL, Abrantes

Nota do Guia Michelin: “Inserido numa casa de habitação. Com salas rústicas, espalhadas por dois pisos de moradias, apresenta uma cozinha apurada regional. Deixe-se aconselhar! (1 garfo) Nível Simples. Preço da refeição: 13/42€”

CASCATA, Abrantes

Nota do Guia Michelin: “Apresenta uma cafeteria actual no andar inferior, uma sala de refeições clássica no andar superior e um espaço para os banquetes. Cozinha regional e de corte caseiro, com especialidades.(1 garfo) Nível simples. Preço da refeição: 20/34€”

TIA ALICE, Fátima

Nota do Guia Michelin: “Casa familiar situada no centro histórico. Disponibiliza três salas, com um ambiente rústico e uma decoração moderna, circunscrita pelas paredes em pedra e onde os tons de branco dominam o espaço. Cozinha tradicional. (2 garfos) Bom nível. Preço da refeição: 28/40€”

O CONVITE, Fátima

Nota do Guia Michelin: “O restaurante dispõe de uma entrada própria, um acesso a partir do hall do hotel e uma sala de jantar confortável de estilo actual. Menu tradicional com algumas sugestões diárias. (3 garfos) Óptimo nível. Preço da refeição: 28/40€”

PONTEVELHA, Sertã

Nota do Guia Michelin: “Independente do hotel! Com uma sala de grande dimensão circular panorâmica, com magnifica vista, apresenta uma carta regional com grande diversidade de carnes grelhadas.(1 garfo) Nível simples. Preço da refeição: 22/35€”

SANTO AMARO, Sertã

Nota do Guia Michelin: “Sobressai desde o exterior com uma sala panorâmica com vista, de desenho moderno, onde está o snack-bar. Sala de jantar sóbria e de estilo clássico, oferece uma cozinha de inspiração regional. (1 garfo) Nível simples. Preço da refeição: 21/34€.”

(Recomendados, mas sem nota dos inspectores)

SANTO ANTÓNIO, Fátima. Preço da refeição: 12/28€

ESTRELA DE FÁTIMA, Fátima. Preço da refeição: 14/33€

LUX FÁTIMA, Fátima. Preço da refeição: 15/31€

DOS TEMPLÁRIOS, Tomar. Preço da refeição: 15/45€

TORRES NOVAS, Torres Novas. Preço da refeição: 10/30€

POUSADA DE OURÉM, Ourém. Preço da refeição: 33€

Restaurantes portugueses com Estrela Michelin (2016)

DUAS ESTRELAS **

Belcanto (Lisboa)
Ocean (Armação de Pêra)
Vila Joya (Albufeira)

UMA ESTRELA *

Bon Bon (Carvoeiro)
Casa da Calçada (Amarante)
Eleven (Lisboa)
Feitoria (Lisboa)
Fortaleza do Guincho (Cascais)
Henrique Leis (Almancil)
Il Gallo d’Oro (Funchal)
Pedro Lemos (Porto)
São Gabriel (Almancil)
Willie’s (Vilamoura)
The Yeatman (Vila Nova de Gaia)

**Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

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