Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Quarta-feira, Agosto 4, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Os malefícios do fogo”, por Armando Fernandes

A domesticação do fogo é sem sombra de dúvida a maior invenção do Homem desde os primórdios da Humanidade. Nos meus escritos relativos à História da Alimentação, Artes Culinárias e Gastronomia não me canso de o escrever aduzindo razões vitais para a conservação da nossa espécie.

- Publicidade -

Sem o fogo não é possível cozer (nas diversas cozeduras) as matérias-primas alimentares, possibilitando serem mastigadas convenientemente, sem esquecer os seus efeitos na eliminação de bactérias e outras mazelas.

O fogo nos primórdios deu ensejo a o Homem afugentar os animais de maior porte, mais perigosos, logo ameaçadores da sua vida. O fogo iluminava e aquecia as cavernas por ele habitadas, permitia e permite trabalhar os metais de modo a serem fabricadas armas, objectos utilitários de variada natureza (pensemos nas cozinhas e nas copas), peças de todos os talhantes e tipos, além de protagonizar cerimónias de profundo alcance simbólico na nossa vida, desde o nascimento até para lá da morte, recordo a cremação dos cadáveres, o termo pirómano leva-me a pensar na pira, aquela estrutura de madeira muito usada na Índia, onde se colocava o corpo do falecido já com a mesma a arder.

- Publicidade -

Ora, sendo o fogo tão essencial à vida espiritual e material de biliões de pessoas, quando é indevidamente utilizado provoca dor no imediato, sofrimento atroz a seguir e, em muitos casos, a morte.

A história dos povos e das nações está prenhe de episódios trágicos cuja origem residiu no mau emprego do fogo, se recuarmos até à Mitologia encontramos descrições dos males dele derivados, a ciência explica as causas da sua acção destruidora, a técnica o modo como é empregue nesses propósitos, a cultura (filosofia, psicologia, religião e sociologia) o que nos leva a transformá-lo em agente de destruição. Bem sei, muitos fogos irrompem devido a causas naturais, sem a mão maléfica de homens e mulheres. É verdade.

A melhor maneira de evitarmos o aparecimento de fogos sem a intervenção humana e animal é prevenirmos, o rifão enuncia: mais vale prevenir que remediar, só que prevenimos pouquíssimo, remediamos quanto podemos. As senhoras leitoras e alguns senhores sabem o significado de «cheiro a bispo» no registo culinário, todos sabemos o resultado de práticas irresponsáveis nas quais o fogo tem participação.

Os últimos fogos têm trazido à ribalta o termo «dantesco», vale a pena ler a obra de Dante não só no referente ao fogo, ajuda a pensarmos nos porquês do péssimo uso daquela fonte (não é paradoxo) de vida, na incúria de todos, no abastardamento das leis de defesa das árvores, da falta de limpeza de caminhos, veredas, valas e valetas.

O mitológico Prometeu pagou cruelmente ter-nos proporcionado o fogo. Agradecemos a dádiva se o usarmos respeitosa e cuidadosamente.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome