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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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“Os maiores inimigos da saúde Cuidado com o… mosquito”, por Rui Calado

No nosso imaginário, quando se fala em viver em países tropicais ou em lugares inóspitos, surge sempre a questão da hipotética presença de animais ferozes que põem em risco uma permanência pacífica e isenta de riscos nessas paragens. Este pensamento levou-me a fazer uma pesquisa sobre os animais mais mortais e mais perigosos do mundo. Curioso… aparecem referências às piranhas, elefantes, serpentes, crocodilos, tigres de bengala, tubarões brancos, ursos polares e muitos outros.

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Ora, aqui está um bom exemplo do que nos leva a sustentar a necessidade de sermos prudentes, muito prudentes, com o que nos é transmitido através dos modernos sistemas de informação. A evidência nem sempre é suficiente para que erros sistemáticos de alguém muito distraído nos tente vender “gato por lebre”, mesmo em situações em que ela é arrasadora.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que, para além do próprio homem, o animal que a nível mundial mata mais pessoas ou animais é o mosquito. Os incautos, os cibernautas descuidados, farão uma cara de admiração. O mosquito?!!.  Mas alguns momentos de reflexão serão suficientes para que TODOS concordem que, afinal, esse pequeno inseto voador é indubitavelmente o animal mais perigoso do Mundo. Senão vejamos:

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RUI1RUI2A fêmea do mosquito Anopheles infetada por um parasita designado plasmodium é o transmissor da malária ao homem. Resultado, 220 milhões de pessoas infetadas por ano e 500.000 (meio milhão!!!) de mortos.

Mas não é tudo. Já ouviu falar no dengue e na febre hemorrágica?. No presente, estas doenças, estão em grande expansão a nível mundial, verificando-se a ocorrência de mais de 100 milhões de novos casos/ano, sendo que cerca de 50 milhões desenvolvem, em posteriores reinfeções, febre hemorrágica, que anualmente causa a morte de muitos milhares de pessoas. Doenças que nos são transmitidas também por mosquitos. Neste caso, por outras espécies de mosquito o Aedes aegypty ou o Aedes albopictus.

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Estes Aedes aegypty e Aedes albopictus também nos podem transmitir outras doenças, algumas evitáveis pela vacinação, como é o caso da Febre Amarela, mas outras não, com é o caso da doença transmitida pelo vírus Zica. Este vírus já tristemente célebre, ao infetar mulheres durante a gravidez interfere com o desenvolvimento do feto e por isso têm nascido milhares de crianças com microcefalia, malformação com consequências irreparáveis e trágicas para as suas vítimas.

É este um cenário real, cruel mas verdadeiro. Portugal, pela sua situação geográfica tem sido poupado a estas verdadeiras calamidades, que afetam predominantemente os países ditos tropicais, da Ásia, África e América. No nosso país, os mosquitos que nos picam não pertencem às espécies acima referidas e por isso não transmitem as doenças assinaladas.

No entanto, as autoridades estão vigilantes e não descartam a possibilidade do aparecimento e disseminação do “Aedes” em Portugal Continental (foi identificada a sua presença na ilha da Madeira), criando assim condições para a transmissão, caso esses mosquitos se venham a infetar ao picarem pessoas portadoras de doença.

Responde quem sabe…

O Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo (ACES) tem participado num trabalho de vigilância para a identificação das espécies de mosquitos existentes na nossa área geográfica de influência. Para divulgarmos informação fidedigna, o técnico de saúde ambiental Carlos Pinto, que participa no programa Revive, respondeu-nos às seguintes perguntas:

O que é o Programa Revive?

O programa REVIVE (Rede Nacional de Vigilância de Vetores) resulta da necessidade de se capacitarem as 5 regiões de saúde de Portugal com os meios de identificação das espécies de vetores presentes no país, a sua distribuição e abundância, a avaliação do impacto das alterações climáticas na modificação dos ecossistemas e a eventual deteção de espécies invasoras em tempo útil, com importância na saúde pública.

Para esse efeitos, os técnicos do ACES desenvolvem um conjunto de ações tendo por objetivo a monitorização da atividade de artrópodes hematófagos (que se alimentam de sangue), a caracterização das espécies (com a colaboração do Instituto Nacional de Saúde Pública – INSA), a sua ocorrência sazonal, níveis de infeção, quantidades, origem, para atempadamente se adotarem medidas de controlo.

Os mosquitos que nos picam pertencem a que espécies?

Infelizmente para o Homem todas as espécies de mosquitos picam. As fêmeas necessitam de proteínas para o desenvolvimento dos ovos e essas proteínas são obtidas a partir da ingestão de sangue de animais vertebrados (incluindo o homem). É esta necessidade, esta preferência alimentar que condiciona o papel dos mosquitos como vetores de agentes causadores de doença. Os machos não se alimentam de sangue (só as fêmeas é que picam!!!), sendo a sua alimentação à base de néctares ou de produtos resultantes da fermentação de frutos

A população do Médio Tejo poderá estar tranquila?

O ACES Médio Tejo participa no Revive através da Unidade de Saúde Publica (USP), monitorizando vários locais na sua área geográfica de influência, selecionados de acordo com uma análise riscos (presença humana, existência de águas paradas…), que determina a localização das capturas, quer na fase larvar, quer na fase adulta dos mosquitos.

Desde o início do programa (2008) até à presente data não foram identificadas espécies de mosquitos exóticas ou invasoras. Nas amostras em que foi pesquisada a presença de mosquitos perigosos para o Homem, como o Anopheles, o Aedes Aegypti ou o Aedes Albopictus, os resultados foram negativos. Assim, poderemos informar que no Médio Tejo, em 2015 as espécies encontradas e que nos podem picar, não transmitem doenças.  

Assim, respondendo mais concretamente à questão, poder-se-á afirmar que não há registo da existência de espécies invasoras o que, de certa forma, nos dá alguma tranquilidade, mas não dispensa uma cuidada vigilância. 

Obrigado Carlos Pinto. Pelo exposto, é evidente que todos nós deveremos conhecer os riscos para a saúde humana que resultam da picada por certas espécies de mosquitos infetados. E não nos deixemos iludir, o mosquito é, de facto, o animal mais perigoso do Mundo. Pelo que é necessário manter em alerta não só os profissionais de saúde pública, mas também outros hipotéticos intervenientes, nomeadamente os veterinários, os entomologistas (profissionais que se dedicam ao estudo dos insetos) e os ambientalistas.

Rui Calado é médico epidemiologista e especialista em Saúde Pública. Foi coordenador da USP (Unidade de Saúde Pública) do ACES Zêzere e do Médio Tejo.

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