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“Os Donos Disto Tudo”, por Fernando Duarte

Em memória dos milhares ou mesmo milhões de peixes que perderam e continuam a perder a vida no seu habitat natural, neste caso o rio Tejo, transcrevo o parágrafo inicial do Sermão de St.º António aos Peixes do Padre António Vieira pregado a 13 de Junho de 1654;

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“Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.”

Para mim, passados 363 anos este sermão encaixa que nem uma luva na sociedade portuguesa dos dias de hoje. O que me leva realmente a querer que o povo português, apesar de todo o conhecimento adquirido, continua com a mentalidade presa no século XVII.

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Foto: Fernando Duarte

Admiro o Sr. Arlindo Consolado Marques pela sua insistência permanente em denunciar o que, por causa de umas actividades industriais, se tem feito ao rio Tejo. Ele mais do que avisou que isto ia acontecer, aliás pela inatividade de quem tem funções para intervir só tinha era que acontecer. E tal como ele diz no vídeo que publicou no dia 2 do presente mês, eu também tenho vergonha em ser português.

Já se sabe que as nossas autoridades e governantes não vão fazer nada, as provas estão à vista. Levaram os vídeos feitos pelo Sr. Arlindo para a Assembleia da República e o que lá se fez foi estar a passarem-nos um atestado de estupidez. Questionar a data dos filmes? Se estes são verdadeiros? Isto é um problema que começou a ser mais notório há 3 anos atrás, basta eu andar 50 metros a partir da porta da minha casa, chegar ao rio e pegar uma pedra qualquer e ver que esta na parte superior já ganhou uma crosta de tanta poluição acumulada. Não adianta dizer que sempre foi assim porque eu sempre me banhei nas águas do Tejo e as pedras tinham um aspecto uniforme.

O que mais me revolta é que, sabendo que quem de direito está comprado e nada vai fazer, nós principais prejudicados, nada vamos fazer também. Como é possível haver mais partilhas de um vídeo do Sr. Arlindo a denunciar a poluição do que pessoas na manifestação para mostrar o descontentamento relativamente a este assunto. Assim estão a dar razão aos donos disto tudo, o que interessa é o dinheiro, vocês que se lixem, mesmo que morram, tal como os peixes, não interessa. Quer dizer, interessa para as notícias, mas depois siga.

Foto: Fernando Duarte

Se pensam que a poluição no Tejo só afecta os peixes e o turismo e não vos afecta estão enganados, de onde é que vocês pensam que vem a água que rega os campos que produzem os variados elementos que nos chegam ao prato? Pois é, eu quando abro a boca de rega para regar os meus campos ela sai com cor de café e acham que as plantas não absorvem esses químicos transportados pelas águas? Da minha parte estejam descansados que eu, apesar de ter de pagar a água da rega porque sou obrigado, não quero matar ninguém e não produzo nem vendo produtos agrícolas. Também já fui vencido pelos donos disto tudo.

Engenheiro Civil, de 32 anos, teve como tantos outros, de sair do país para conseguir exercer a sua profissão. Com raízes em Alvega, tem enorme gosto em conhecer novos sítios e novas culturas, custa-lhe é lá permanecer.

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