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“Os dias dos funcionários públicos”, por Hália Santos

Ontem fui a um serviço de Finanças…

Sim?… Serviço público?…

Sim… Mas não é o que estás a pensar… Aliás, no caso desta repartição de Finanças, sabes bem que as coisas até funcionam. Há momentos mais difíceis, quando vai toda a gente ao mesmo tempo, mas, fora isso, corre sempre tudo bem.

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Ótimo! Hoje vamos elogiar.

Vamos, mesmo! Contra aquela ideia de que tudo o que é serviço público é mau. Contra aquela ideia de que os funcionários públicos têm o ordenado garantido e que, por isso, só fazem o que querem. Contra aquela ideia de que quem está a atender num balcão público está sempre mal-encarado.

Gosto! Gosto dessa ideia do elogio. De uma forma geral, é mais fácil criticar do que elogiar. Vamos lá então.

Então, ontem, numa repartição de Finanças ‘perto de si’, tinha duas questões por resolver. Primeiro, decifrar três cartas da senhora autoridade tributária. Na verdade, não percebia nada do que lá estava…

És um bocado excluída, fiscalmente falando!

Assumo-o na totalidade. Olhei para aquelas cartas vezes sem conta. Não percebi. Mas a senhora que me atendeu explicou logo. Nada a pagar, é só uma informação, há um acerto, mas como é inferior a 10 euros não se cobra. Tudo explicado. Mesmo assim, para se certificar, foi perguntar ao chefe, que confirmou a informação.

A vantagem dos ‘open-spaces’ é que percebes como as coisas funcionam.

E gostei de ver. Não gosto é das pessoas que têm certezas sobre tudo. A humildade fica bem a toda a gente e o direito à dúvida devia ser exercido com naturalidade. Aliás, já o vi mais vezes, com outros funcionários públicos, nesta mesma repartição.

Se já tinhas visto, qual é a novidade de agora.

Veio a seguir. Passei para outra secção porque, na verdade, não percebo nada mesmo de impostos, nem de tributações, nem dos modelos de IRS, nem de figuras individuais ou coletivas, nem o que posso fazer nem o que não posso fazer.

Por isso pagas a alguém para te fazer o IRS!!

Pois, mas neste caso queria mesmo perceber. E percebi. Tudo! Eu que abomino números. Mas o melhor foi mesmo a forma como tudo me foi explicado. Com calma, com clareza, percebendo as minhas limitações. Aliás, antes de mim estava um senhor reformado e eu estive, discretamente, a assistir.

O problema dos ‘open-spaces’ é que toda a gente fica a saber da vida dos outros.

Aí tens razão. Deveria haver alguma privacidade… Mas a verdade é que eu estava deliciada a ver a forma como o funcionário (um dos tais ‘públicos’) atendeu um senhor de 84 anos. Sei porque ele disse, claro! Adequou o discurso à pessoa que estava à sua frente, explicou várias vezes de formas diferentes, descansou o contribuinte idoso e, no final, ainda se disponibilizou para ajudar na fase seguinte, ‘apesar de não ser nossa obrigação’.

Não estás habituada ver nada disso, pois não?

Por acaso, até se vai vendo. Até tenho a ideia que começa a ser mais comum. A verdade é que ontem me senti uma especialista em finanças, sei o que tenho que fazer e até fui conferir umas coisinhas nas declarações do IRS lá de casa! E consegui fazê-lo porque o funcionário conseguiu desconstruir a minha irritação natural face a estes assuntos.

E não custa nada ser simpático…

Pois não. Mas também é verdade que há dias. Há dias em que não há funcionário público que resista! Lembro-me sempre do episódio que se passou com a minha mãe, quando foi à Faculdade de Medicina de Lisboa para doar o corpo. Quis ir sozinha, mas eu tinha telefonado e tinham-me garantido que o momento era sempre tratado com cuidado, com atenção, dada a sensibilidade do assunto.

E então?

A senhora que atendeu a minha mãe foi tudo menos atenciosa. Mas sabes porquê? Tinha acabado de saber que, afinal, ia ter que trabalhar mais seis anos do que o que estava à espera.

Pois. Há dias para perceber de impostos e há dias para doar o corpo à ciência.

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Hália Santos
Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos. Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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