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Terça-feira, Outubro 19, 2021

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“Os deficientes não são coitadinhos”, por Hália Santos

Ponto um: há 50 anos escondiam-se os deficientes. Ponto dois: a integração não tem que ser feita à força. Ponto três: a esmagadora maioria dos deficientes não tem qualquer responsabilidade na sua condição. Ponto quatro: os deficientes não são coitadinhos. Ponto cinco: evoluiu-se muito, mas ainda há muito a fazer.

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Posto isto… a Marta. A Marta, que nasceu em 1963 e morreu em 1996, ainda hoje me faz soltar uma lágrima quando penso nela. Deficiente mental profunda, nunca foi escondida de nada nem de ninguém. A família, que por acaso era a minha, levava-a aos sítios onde ia. No entanto, se os seus gritos, às vezes de felicidade, incomodavam as outras pessoas, a família saía, discretamente, porque respeitava o espaço dos outros. A Marta nunca foi imposta  a ninguém, mas foi lição de vida para muitas crianças e jovens que a conheceram. Há 30 e 40 anos, foram dezenas de miúdos, amigos das irmãs, que a conheceram. A casa tinha a porta aberta para todos os miúdos. A Marta gostava de algazarra. Ela foi a única pessoa deficiente que muitos desses miúdos viram durante muito tempo.

A Marta só foi para a escola com 17 ou 18 anos. Porque as poucas vagas que existiam eram para as crianças e jovens deficientes que podiam evoluir alguma coisa. Mas não havia ensino integrado. Estes miúdos iam para escolas de deficientes que eram, muitas vezes, meros depósitos. A Marta conseguiu ir para a escola com aquela idade mas, se nascesse hoje, certamente que iria ainda em tenra idade. Talvez se tivesse desenvolvido muito mais. Mas a Marta nunca poderia ir para uma escola de ensino regular, porque, mesmo com um professor de apoio, nunca passaria de um nível de desenvolvimento mental acima dos dois anos de idade. Era deficiente mental profunda. Por isso, o apoio que lhe seria dado deveria ser em função das suas capacidades. Jamais se poderia querer fazer dela aquilo que ela nunca poderia ser. Na verdade, ela só queria gente alegre à volta dela. Mas era uma exceção. A maioria dos deficientes quer, e tem direito a ter, uma vida o mais parecida possível com a vida de quem não tem deficiências.

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Marta e a sua mãe, Maria Fernanda. Foto: DR

A esmagadora maioria dos deficientes nasce assim ou sofre um acidente. Não há responsabilidade que lhes possa ser incutida. Não estão a pagar por nada que tenham feito. Se somos uma sociedade que concede direitos e regalias (como subsídios, diminuições de penas, integrações na sociedade e outras coisas que tal), a pessoas que até cometeram atos condenáveis, como negar os apoios de que os deficientes precisam para ter uma vida digna? Não é possível negar. Não deveria sequer ser necessário que se manifestassem para o pedir. É básico, numa sociedade justa e democrática. Entristece ver os pedidos desesperados de ajuda de quem apenas quer uma vida digna. A Marta nunca teve ajuda do Estado. Aliás, o pai chegou a deixar de pagar impostos como forma de protesto e depois teve que os pagar todos sem ganhar nada com o ato. A Marta acabou por ter uma pensão miserável. Mas era dela. Devia ter sido toda a vida, até porque a mãe nunca trabalhou para tomar conta dela.

Um dia, na rua, uma senhora olhou para a Marta e disse: “Coitadinha!”. A irmã mais nova, com uns sete ou oito anos, respondeu: “Coitadinha é a senhora!”. A mãe, que levava a boa educação até ao limite, não resistiu. Sorriu levemente. A miúda, que por acaso era eu, estava à espera de ser repreendida pela mãe, pela alegada falta de educação. Mas não foi. Porque disse aquilo que a mãe pensava: coitados são aqueles que veem a diferença com pena. Num dos debates desta semana num programa de televisão, um senhor cego, que no seu tempo não teve oportunidade de ir à escola, mas que depois tirou cursos superiores e foi professor, também rejeitava esta ideia do coitadinho. Ninguém quer pena, querem é possibilidades para estudar, trabalhar, ter ajuda em questões básicas como é a higiene pessoal ou, como a Marta, simplesmente ter alegria à sua volta.

Marta (em pé), na festa de aniversário da irmã Hália. Foto: DR

Desde que a Marta nasceu e morreu, muito se evoluiu nas condições de vida das pessoas com deficiências. Mal feito seria se isso não tivesse acontecido. Apesar de tudo, a par de uma consciência cívica e de uma responsabilidade ambiental, desenvolveu-se uma mentalidade mais desperta para as diferenças das pessoas e das suas necessidades. Mas ainda há tanto a fazer. As barreiras arquitetónicas nas cidades continuam a existir. As oportunidades de emprego continuam a ser limitadas. Os atletas com deficiências não têm os mesmos apoios que os restantes. Muitas pessoas continuam a não ter a espontaneidade de ajudar um cego ou alguém em cadeira de rodas quando se percebe que precisam de alguma coisa. Fez-se muito, mas ainda há muito a fazer. E não é preciso ter tido uma Marta na nossa vida, como eu felizmente tive, para o sabermos.

Marta (ao centro) com as irmãs Hália e Rute. Foto: DR

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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