“Os cubanos agradeceriam tudo aquilo que por aqui temos”, por Hália Santos

Levar os Rolling Stones a Cuba aparece como um sinal perfeito de um novo mundo que se abre. A visita de Obama é naturalmente emblemática, porque espelha um conjunto de mudanças ao nível político. Mas uma banda carismática como a de Mick Jagger ser vista por 500 mil cubanos tem um significado social e cultural incalculável.

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Há mais de 20 anos os jovens cubanos viviam com uma enorme sede de conhecer o mundo. Aproveitavam os turistas que iam a Cuba para perguntar, perguntavam tudo. Aproximavam-se oferecendo a sua amizade por uns dias. Funcionavam como guias informais. Claro que queriam sobretudo aproveitar a oportunidade para ficar com alguns dólares, as notas que lhes faziam brilhar os olhos, não só pelo que permitiam comprar no mercado negro, como também pela carga quase emocional que continham, por serem do país onde alguns familiares e amigos já viviam uma vida como a que desejavam: livre.

Mas os jovens cubanos que abordavam os turistas também pediam – uns mais discretamente do que outros – coisas como t-shirts e rebuçados, mas também sabonetes e pastas de dentes. Faltava-lhes quase tudo. Mas faltava-lhes sobretudo acesso ao mundo que sabiam existir fora dali.

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A música faz parte da vida dos cubanos, mas era, naturalmente, a sua fantástica música que se ouvia por todo o lado. Cantavam e dançavam nas suas casas, com as portas abertas. Às vezes passavam para a rua. Sentia-se que a sua música fazia parte do seu ADN, mas também se sentia que lhes faltava alguma coisa…

Agora, esses jovens de há 20 anos, puderam finalmente ter um pouco daquilo que a mesma geração foi tendo, com toda a naturalidade, em quase todo o resto do mundo. Por isso, o concerto dos Rolling Stones, financiado por um homem rico, que faz destas coisas, tem um significado especial. Para os cubanos, para quem os conheceu num mundo fechado e para quem valoriza coisas simples como a possibilidade de acesso à espetáculos e outras manifestações culturais, independentemente de gostarmos ou não do género. Neste caso, a abertura dos cubanos a este novo mundo não poderia ter sido feita de melhor forma. Pela irreverência da banda que o fez. Porque é um ícone da música a nível mundial.

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Dito isto, importa pensar naquilo que temos é que não valorizamos. É a velha história da oferta cultural que existe em praticamente todas as autarquias, muitas vezes a custo zero ou simplesmentente simbólico. A maioria das pessoas não vai. Existe a tendência para dizer que há falta de informação, que não sabem. Até pode haver algumas falhas na forma como se anunciam concertos e exposições. Mas, quem quer, consegue estar verdadeiramente informado. Quem precisa de Cultura para respirar, quem sabe preencher a alma com manifestações artísticas, não falta.

Estar exposto à Cultura faz a diferença. Até ver aquilo que não compreendemos ou que supostamente não gostamos nos faz crescer. As pessoas ficam diferentes quando conhecem mais mundo. Mesmo que não possam sair dos seus concelhos, pelas razões que todos conhecemos, usufruir daquilo que nos é proporcionado é uma prova de saber viver melhor. Os cubanos agradeceriam tudo aquilo que por aqui temos.

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