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Sábado, Outubro 16, 2021

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“Os cargos de confiança familiar”, por Hália Santos

O assunto agora até pode, como diz o PS, estar debaixo de todos os holofotes porque se aproximam eleições e porque alguém do PSD decidiu colocá-lo na agenda política, logo, na agenda mediática, logo, a fazer pressão sobre a opinião pública. Pode ou não pode um Governo ter membros com estreitos laços familiares? Não pode? Não deve?

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Os casos de relacionamentos familiares entre membros do Governo estão a ser tratados como se as decisões do país fossem tratadas à mesa do jantar de uma qualquer família que, por trabalho, destino ou sorte, chegou ao poder. Em alternativa, são abordados com toda a naturalidade, como se as oportunidades dadas aos membros de família fossem única e exclusivamente por mérito. Se calhar, não é bem uma coisa nem outra…

Quem não conhece uma instituição pública em que, nos tempos das vacas gordas, tenham entrado pela porta grande maridos e mulheres, filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas? Já para não falar dos amigos, dos amigos dos amigos, dos filhos dos amigos. Até podem ser pessoas de extrema competência. E até se percebe que quem está num cargo de responsabilidade queira trabalhar com pessoas da sua confiança. Mas onde fica a barreira familiar e a barreira profissional? É mesmo possível separar as águas?

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Qual é o pai que não vai proteger o filho, se perceber que fez asneira? Qual é o marido que não vai avisar a mulher se, estando na posse de informação privilegiada, souber que alguma coisa menos boa lhe pode vir a acontecer? Os laços familiares deveriam, de facto, estar fora de uma equação de contratação pública. Quanto mais não seja, por uma questão de imagem. Podem ser os melhores profissionais para aquele lugar, mas fica sempre a suspeita de favorecimento. Ou da possibilidade que esse favorecimento venha a acontecer.

Fica sempre a dúvida. Porque os ‘reinados’ em instituições públicas de uma República dão aos plebeus o direito de pensarem que as contratações de familiares mais parecem um direito adquirido (à nascença ou pelo casamento) do que um direito merecido. E este não é um pensamento simpático. Porque introduz um fator de injustiça.

Na verdade, bem vistas as coisas, as pessoas que entram para um cargo quando no sistema já lá estão familiares próximos nem se deveriam sentir muito confortáveis. Imagine-se o que é um filho estar numa reunião de chefias com a mãe. Conseguirão manter a sua posição independentemente dos laços familiares? Estamos a falar de cargos de extrema importância para o destino da Nação. Não é coisa simples nem é coisa privada. É coisa exigente e é coisa pública. Logo, com contornos muito específicos.

Claro que é sempre possível contrapor com as supostas relações escandalosas que membros de anteriores Governos estabeleceram entre si, mesmo sem serem familiares, que terão dado origem aos favorecimentos mais indescritíveis e mais inaceitáveis que se possa imaginar. Mas a verdade é que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que fizeram os responsáveis de entidades públicas nomeados, no passado, por amigos no Governo, é assunto muito sério. Mas não dá ‘permissão’ para agora se convidar familiares com a suposta garantia de que vai correr tudo bem, que não vão ter direitos, nem privilégios, nem vantagens futuras.

Até se pode acreditar que, entre familiares, porque sabem que estão a ser mais vigiados do que se não o fossem, acabem por ser mais rigorosos e mais cuidadosos. E também se pode defender que ninguém deve ser privado de fazer a sua carreira só porque o marido ou a mulher já estão nessa mesma carreira. Mas, se são assim tão bons, também poderiam arranjar emprego noutro sítio, não?

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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