“Os assaltos”, por Sartagografia

Os assaltos eram frequentes no concelho da Sertã, por alturas da época carnavalesca. Grupos de jovens (e de menos jovens) organizavam-se, escolhiam as vítimas e gizavam um plano de ataque, tudo em nome da brincadeira, porque aqui os meliantes não passavam de simples foliões. Recordamos um dos assaltos ocorridos em 1906 e que Frutuoso Pires narrou no seu livro «Águas Passadas»: “Devia ter sido por alturas de 1906. A época carnavalesca na Sertã vinha-se assinalando por assaltos às capoeiras dos amigos, por parte de rapazes de que hoje [o escrito é da década de 1930] restam três velhos.

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Aos assaltos sucedidos, seguiam-se as ceias obrigadas a canja e galinha tostada, na casa da Angelina, sendo sempre convidados para elas, os roubados, que, geralmente desconhecedores da origem do repasto, o saboreavam gulosamente, só vindo a sabe-lo no fim, quando uma atmosfera de boa disposição e alegria dominava os convivas.

Uma vez foi condenada ao assalto a capoeira do Sebastião Tavares, seguro, nessa noite, numa mesa do Club, então instalada na casa que é – e já era – do sr. Manuel Antunes. Estava escuro como breu, e não se apresentava de fácil solução o problema de ir ao Pinhal e trazer uma galinha, sabido que por ali andavam dois cães que não eram para brincadeiras, e, ao menor ruído ou visão estranha, dariam sinal da sua presença e não fariam cerimónia em cravar os dentes nas canelas de quem tentasse a arriscada empresa.

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Os que, porém, se propunham levá-la a cabo, não obstante esta dificuldade, não arrepiaram caminho, e depois de se haverem juntado na Praça, foram andando, Castelo abaixo, até à Carvalha, e ali, parados junto da escola, muito baixinho e quase sem se verem uns aos outros, fizeram assembleia para assentar na forma mais prática e menos arriscada de ir buscar a galinha ao outro lado da ponte.

O Zeferino, Rossi, Gustavo e Chico Moura, foram dos primeiros a dar o seu parecer que não teve êxito aprovativo. O caso apresentava-se bicudo perante a realidade insofismável dos cães, cujo ladrido já se ouvia naquela tertúlia, e não era de molde a animar os componentes. O Ernesto – ao tempo universitário –, o Adrião, Henrique Moura e Frutuoso, não quiseram ficar atrás na apresentação dos seus planos para o premeditado assalto, mas não foram mais felizes que os primeiros na aceitação das suas imaginosas concessões, outro tanto sucedendo ao António Barata ao expor a dele. Todos os alvitres, ideias e sugestões foram postas de parte, por não garantirem segurança à integridade física de quem fosse afrontar a fidelidade canina, de guarda à capoeira do Sebastião.

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Os malditos animais lá estavam alerta, e, ou porque o seu instinto lhes revelasse perigo iminente ou pressentissem gente próxima, ladravam, agora em oitava alta e com maior frequência, num aviso prudente aos mais ousados. Quem iria ao Pinhal? Quem a tal se afoutaria?

Já o desânimo principiava a tocar os circunstantes e a secar-lhes, na boca, a água que a perspectiva da ceia na Angelina ali fizera crescer; já a aventura daquela noite começava a resvalar para um beco sem saída, fatal e irremediável, quando uma voz, que ainda não se ouvira no grupo, segredou, convicta e decisiva: Quem vai buscar a galinha sou eu.

Fora o Aníbal, filho do comerciante João da Silva Carvalho, que falava daquela maneira, e pusera, assim, uma esperança onde tudo parecia perdido e condenado ao malogro.

Todos os companheiros o felicitaram e abraçaram, e só não se alongaram em mais fortes expansões de alegria, por medo dos cães do Sebastião, que, tendo descido á estrada, poderiam ser atraídos ao local da reunião e dispersá-la, pondo-lhe fim prematuro.

O Aníbal, logo que pôde desenvencilhar-se dos braços dos amigos e dos surdinados cumprimentos congratulatórios, continuou: Fiquem aqui, que eu vou a casa com pouca demora e cá voltarei. Sem mais palavras, desapareceu, não tendo dado tempo a que lhe pedissem explicações do que premeditara ou ia fazer.

Decorridos vinte minutos, regressara à Carvalha, e depois de recomendar que ninguém o acompanhasse ou seguisse, tomou o caminho da ponte, não sem que escutasse, primeiro, os desejos de «boa sorte», cochichados em uníssono pelos que ficavam.

Tudo se congregara para que a partida do Aníbal para o assalto à capoeira do Sebastião, tivesse foros de acontecimento notável, pelo imprevisto de que se revestira e pela incógnita do seu despacho. Era solene aquele momento.

Quando o intrépido rapaz, a breves passos de distância, se embrenhou na escuridão que fazia, todos se calaram, muito quietos, evitando fazer o menor ruído que distraísse a atenção posta na aventura que começara a desenrolar-se.

Ninguém ocultava as suas apreensões pelo que podia suceder. O Aníbal não levara, sequer, um pau para melhor enfrentar prováveis riscos. Seguira desprovido de uma simples vergasta, como se fosse numa missão inofensiva e de bons propósitos, ou se, em vez de ir surripiar uma galinha ao Sebastião, fosse levar-lhe um casal de perus. Foi por isso que os companheiros, poucos minutos após o início da sua caminhada em direcção ao Pinhal, se sentiram presos de ansiedade ao ouvirem os cães a denunciar aproximação inimiga.

O Ernesto, com a sua fleuma habitual, não dizia nada, mas os outros exteriorizavam os seus cuidados, chegando quase a arrepender-se de terem deixado que o Aníbal fosse meter-se naquela camisa de onze varas.

O Zeferino, num feixe de nervos e, a passar a mão pela cabeleira, era o que se mostrava mais inquieto. Deixa lá – diziam-lhe uns companheiros para sossegá-lo, sentindo-se, eles próprios, pouco seguros do que afirmavam. O diabo nem sempre está detrás da porta e pode suceder que tudo acabe em bem.

Atravessava-se esta fase de intranquilidade e interesse, quando, de súbito sucedeu o que andava fora de todas as previsões. Os cães, que estavam ladrando e dando a impressão de que arremetiam contra o intruso atrevido, calaram-se repentinamente como se a terra os tivesse engolido.

Fez-se um silêncio tumular. Do lado do Pinhal deixou de vir o menor sinal de vida. O que se passara ali era um enigma indecifrável, e no lado oposto da ribeira, começava a reinar um certo mal-estar. Quantos esperavam o Aníbal, o tinham agora no pensamento, mais chegado ao coração, e perscrutavam a cerração daquela noite, de ouvido atento, ávidos da percepção de qualquer coisa que os aliviasse do pesadelo de que se estavam sentido presos. E os minutos iam decorrendo como eternidades, pondo à prova a sua resistência psíquica, quando, numa aparição de encantamento discutível, viram ali ao pé, são e escorreito, como uma figura sobrenatural, o desejado companheiro ostentando em cada mão uma famosa galinha.

Ainda descrentes de que tinham à vista, todos se precipitaram para o Aníbal, a apalpá-lo, a certificarem-se bem da realidade da sua presença, e quase a divinizá-lo pela heroicidade do seu feito. O Ernesto, que nunca abrira bico nem mesmo naquele instante supremo de felicidade comum, caminhou isolado e pachorrento para o homenageado, e beijou-o comovido.

Estava salva a situação e a ceia na Angelina, restando apenas levar para ali as duas penosas, e ir ao Clube convidar o Sebastião para ajudar a comê-las.

Logo o grupo se pôs em marcha, Castelo acima, ouvindo, curioso, contar ao Aníbal como calar e imobilizara os cães do Pinhal para entrar na capoeira que defendiam. Fora à loja do pai onde enchera as algibeiras de bolachas, e em presença dos bichos, apenas tivera o trabalho de os entreter com elas, atirando-lhas, uma a uma, enquanto ia passando revista aos poleiros, na escolha dos dois melhores bicos. Afinal, como o ovo de Colombo, fora tarefa bem simples mas que, antes do Aníbal, ninguém realizara nem lembrara sequer.

Passadas duas horas, decorria o último acto deste entremez, através da ceia impecavelmente cozinhada pela Angelina, posta sobre uma mesa onde todas as coisas estavam nos seus lugares, desde a alvíssima toalha até à colher reluzente, dentro dum asseio e arranjo de que a boa mulher se orgulhava, com razão. A iniciar o primeiro quadro, apareceu a Senhorinha, de seu nome, com uma terrina a fumegar, de que o olfato dos demais figurantes logo se apercebeu em requintadas delícias e, atrás dela, a mãe, de lenço em touca à volta da cabeça, a pedir desculpa, como sempre costumava: Os xenhores desculpem xe não vem à xua vontade, pedia ela no seu sotaque natal. Xe for nexexário alguma coisa, pexam à Xinhorinha.

Ninguém deu homem por si. Todos honraram o festim, animando-o e comendo bem.

Já noite alta, quando aquele ambiente, de quentura e estômagos saciados abriu as torneiras da loquacidade dos convivas, curgiram os discursos em que a valentia, decisão, serenidade e inteligência do Aníbal foram guindadas às culminâncias de celebridade, e a cabidela da Angelina recebeu as merecidas homenagens, como esplendorosa obra de arte culinária que viera à mesa.

De seguida, voltados para o Sebastião, ali refastelado numa cadeira, em laboriosa digestão da vianda da noite, e em pulgas para saber a procedência dela depois das encomiásticas referências ao Aníbal, que vira «levarem água no bico», os companheiros continuaram na faina oratória, desentranhando-se em louvaminhas escorrentes de malícia e estrepitosamente aplaudidos, que puseram nos carrapitos da lua, a carne tenra e saborosa das galinhas do Pinhal.

O que fora seu dono não se desconsertou com o significado daquelas aparatosas reverências. Só umas leves cambiantes, a atirar para amarelo, se lhe observaram no sorriso, mas ficou por ali, com íntimo júbilo dos presentes que lhe conheciam a compreensiva rijeza muscular, e receavam, mesmo por bem como sempre acontecia, experimentá-la mais uma vez em resposta e agradecimento.

O Aníbal é que, por cautela, se passara para a cozinha, levando a valentia e mais apêndices que, antes, recebera dos amigos, por lá se deixando ficar em bom recato, e só regressando depois de saber-se livre de apertos indesejáveis. Houvera a sorte do Sebastião estar bem humorado, e, como consequência lógica da sua generosidade e feitio pessoal, acabar por achar graça à partida sem contundências físicas para ninguém.

Assim findou a patuscada. Já na rua, a ir cada um para sua casa, ouviam-se dois cães que, além da ribeira, vigilantes e a cheirar a bolachas, rondavam e defendiam a capoeira do Sebastião”.

Para mais memórias e curiosidades visitar www.sartagografia.pt

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