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“Os achados descobertos nas escavações arqueológicas em Almourol”, por Fernando Freire

Os achados descobertos nas escavações arqueológicas em Almourol demonstraram a evidência de variadas ocupações civilizacionais sobretudo devido à sua posição estratégica.

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Muitos dos portugueses que visitam o estrangeiro ficam encantados pelos castelos do Vale do Loire, em França; do Vale do Reno, na Alemanha; ou pelos castelos e palácios da Escócia. Todavia, muitos ainda não visitaram o Castelo de Almourol. Quando muito terão conhecimento por imagens da televisão, fotografias das redes sociais ou uma apressada vista, como passageiros, na linha de caminho de ferro (linha do Leste e da Beira Baixa), retendo uma singela impressão deste monumento nacional.

Ora, estamos perante um castelo lendário e ímpar em Portugal. Recordo que daqui saiu Gonçalo Velho Cabral, arrojado cavaleiro de Cristo, a ir pelos mares fora dilatar a fé e o Império, descobrindo a Ilha de Santa Maria e São Miguel.

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É monumento nacional por decreto de 16 de junho de 1910 e foi adaptado, já no Séc. XX, a residência oficial da República Portuguesa, aqui tendo lugar alguns importantes eventos do Estado Novo. Tem a especial característica de estar plantado numa ilha no meio do Tejo, o que concorre para a grandeza temporal e intemporal deste lugar.

Da sua torre de menagem podemos lobrigar a vastidão do paisagem ribatejana, bem como a torre do castelo da Quinta da Cardiga e a Vila de Tancos (a poente), a vegetação ribeirinha de Paio de Pele (Praia do Ribatejo – a nascente), a quietude da grande massa de água que ali o Tejo detém no pego de Almourol, a antiguidade e majestade das suas muralhas graníticas brotando de entre colossais blocos, a ilha toda coberta de verde vegetação, o rio serpeando em sua volta, tudo concorrendo para infundir uma impressão de grandeza condimentada ao mesmo tempo de enorme suavidade e contemplação.

Sendo um dos monumentos medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista é, também, um monumento fértil em património cultural intangível, pois várias lendas correm em romances e livros de cavalaria, ligadas a esta fortaleza como por exemplo: a crónica de Palmeirim de Inglaterra (de Francisco de Morais), que situa aqui o rapto das princesas Polinarda e Miraguarda, e o combate entre o Palmeirim e o Cavaleiro Triste; as lendas: “D. Beatriz e o Moiro”; “Dom Ramiro”; “Almorolon”; “Assalto ao Castelo”; “Almourol e da Cardiga” (esta última ligada à descoberta dos Açores), o que constitui um património imaterial inimitável.

A origem do topónimo Almourol não é pacifico. Este nome aparece-nos escrito nas seguintes variantes: Castrum Almoriol, Almorol, Almourel, Almural, Almoirel, Almourol. Autores relacionam a designação com Moron, cidade citada por Estrabão e por este situada nas margens do rio Tejo. Outros afirmam que o nome está associado a Muriella, nome que surge na descrição dos limites do Bispado da Egitânea. No entanto, a tese mais plausível parecer ser a do Dr. Leite Vasconcelos que faz derivar o topónimo de “moura” ou “mouro” com significado de “pedra alta”.

A presente crónica visa dar a conhecer alguns excertos da sua história ímpar, bem como dar conta do achamento de espólio ocorrido dentro das muralhas do monumento para a uma melhor compreensão deste ícone do Médio Tejo.

A ILHA DE ALMOUROL

A ilha do Almourol encontra-se no leito do Tejo, sobre a margem norte, a jusante da Praia do Ribatejo e a montante de Tancos, na transição entre duas unidades da paisagem, o fim do vale encaixado e rochoso do Médio Tejo e a planura aluvionar da lezíria do Ribatejo.

A nascente a ilha afronta o curso da água. É aqui que se ergue o castelo construído sobre rocha granítica. A poente da ilha a área arenosa é consequência do desgaste milenar incessante nas rochas e da sua deposição aluvionar a jusante.

Quanto à flora, na ilha estavam presentes, no Séc. XIX, a figueira da Índia, a aroeira, a alfarrobeira, a olaia, o salgueiro, o pilriteiro, o funcho, o chorão, o choupo, o amieiro, a tamargueira, a tintureira e a cana.

Atualmente, a nascente, domina o zambujeiro, acompanhado por exemplares de porte e antiguidade significativos de piteira e lentisco, gilbardeira, canas e ainda alguns freixos, salgueiros, choupos e tamariz.

O foral concedido a Almourol, em 1170, por D. Gualdim Pais, indicia, além de um contingente militar, a existência de um povoado duradouro. Isto porque não se descobriram fora do recinto amuralhado quaisquer vestígios de estruturas arquitetónicas, salvo uma, no bordo sul da ilha, que aparenta ter sido um cais.

I – CARACTERÍSTICAS CONSTRUTIVAS DO CASTELO

Os afloramentos rochosos da ilha, onde está edificado o castelo, são compostos por troços de muralha retilíneos apoiados por 10 torreões (torres) de planta circular, propício à prática de tiro flanqueado. No interior: A fortificação apresenta dois recintos autónomos:

– O primeiro, que é feito através da porta de entrada rodeada por dois torreões circulares onde podemos aceder ao primeiro recinto, destinado à habitação da guarnição militar. Aqui, no lado sul existe, ainda, a porta da traição, de dimensões reduzidas para facilitar a fuga, na eventualidade do castelo ser ocupado.

– O segundo, no pátio superior, onde predomina a torre de menagem (que tem uma grande verticalidade em relação às muralhas exteriores, o que lhe permitia controlar todo o conjunto edificado) é separado do anterior recinto por uma muralha interna. No segundo pavimento da torre encontramos uma porta voltada para o lado nascente, isto é, a montante do rio Tejo. Sobre esta encontra-se uma pedra quadrada com a cruz patesca que foi a primeira dos templários. No topo do muro da fortaleza, protegido por merlões e ameias, encontra-se o adarve ou caminho de ronda, fundamental à vigilância da fortificação.

Em Almourol temos a particularidade de existirem dois caminhos de ronda autónomos: o primeiro circunda o adarve da muralha exterior no recinto inferior. O segundo, apoiado na espessura dos muros superiores, apresenta o adarve com ameias em ambas as faces.

No exterior: temos o alambor, bem visível na muralha norte, construção de uma face mais inclinada dos muros (escarpa ou jorramento) pelo que a aproximação ao muro do castelo e a respetiva conquista ficava nitidamente mais dificultada pelos invasores. Lembro que os historiadores não registam nenhum combate neste castelo.

Havia, ainda, o hurdício, também conhecido por balcão de mata-cães, estrutura em madeira que era colocada como anteparo das muralhas para amortecer o impacto dos projéteis e com a abertura de seteiras permitia a realização de tiro vertical.

A implementação destas soluções arquitetónicas e de tática de defesa e ataque surge do conhecimento adquirido no Oriente e no quadro da guerra das Cruzadas. Neste sentido, a participação de Gualdim Pais no âmbito da segunda cruzada teve repercussões muito importantes na evolução da arquitetura militar portuguesa do século XII em todo o território nacional, sendo Almourol um excelente exemplo das técnicas usadas.

FONTES EPIGRÁFICAS EM BAIXO RELEVO

Torna-se impossível fixar a data da fundação de Almourol. A antiguidade do sítio poderá ter origem num castro lusitano, reconstruído durante o domínio romano, séc. I a. C., e logrará ter sido alterado por alanos, visigodos e muçulmanos, designadamente ao nível das fundações, com a utilização de restos de materiais daquela época.

Uma coisa temos, também, como certa: a fortaleza foi reconstruída por Gualdim Pais. As fontes escritas aqui presentes (lápides) permitem documentar a intervenção do Grão-Mestre dos Templários, iniciada em 1171, a quem terá ficado a dever-se a sua reedificação.

 Na obra reutilizou materiais líticos de épocas anteriores, como por exemplo na parte inferior da torre de menagem onde é visível o opus romano e até uma lápide sepulcral romana entalhada na ombreira esquerda do lado de dentro da porta de entrada.

Outrossim, a presença romana também é testemunhada pela descoberta de moedas romanas aquando das escavações de 1898 e 1899.

Todavia, a importância histórica de Almourol também se deve a duas lápides datadas de 1171 (Era de 1209), que permanecem embutidas no castelo, uma a coroar o pórtico principal (entrada) e outra na porta da segunda cerca (alcáçova).

a) A LÁPIDE COMEMORATIVA DA VIDA E FEITOS DE GUALDIM PAIS – BIOGRAFIA

 Sobre a porta principal, ou porta de entrada do castelo, é lavrada em duas pedras retangulares de calcário branco com 7 linhas horizontais e na última linha, segundo Garcez Teixeira, no bordo inferior, há a indicação do freire que escreveu a inscrição (S. FR. PRESCIPTA FECIT) e da qual se dá a sua tradução. 1

 

 

 

b)    A LÁPIDE COMEMORATIVA DA FUNDAÇÃO DE ALMOUROL

 Situada na parte superior da porta da segunda cerca de Almourol (alcáçova) encontra-se a seguinte inscrição que se dá, também, a tradução1 :

 

 

 

 

A guerra esteve sempre presente no quotidiano medieval. Os combates entremeavam com períodos de tréguas. Os reis e soberanos faziam relevantes doações às ordens militares nos territórios conquistados ao inimigo, em troca da sua ação defensiva. Para fixação de moradores e revalorização das zonas devastadas, atribuíam-lhes vários privilégios ou cartas ou forais. Na tática de guerra, as infraestruturas (castelos e torres) constituíam pontos de partida para avistamento do inimigo, passagem de informações, incursões em território adverso, etc.

A Ordem do Templo, para além da sua aptidão para o combate militar, dominava as técnicas de construção de fortalezas uma vez que era detentora do saber fazer da arquitetura militar. A eles se deve a construção de muitos castelos em Portugal, mormente o de “Pombal, Tomar, Zêzere, Cardiga e este que se chama Almourol”. A construção de fortalezas em várias regiões de Portugal mostra todo o cuidado que tinha no domínio e controle dos itinerários (fluviais e terrestres) que davam acesso à capital do reino, então Coimbra.

Outrossim, havia a necessidade de estabelecer a vigilância do vale do Tejo e do Zêzere, face às frequentes incursões almóadas, assumindo as suas margens uma linha fronteiriça, onde só em pequenos troços do rio se podia passar a vau (onde a profundidade permitia a passagem a pé ou a cavalo).

AS ESCAVAÇÕES NO CASTELO DE ALMOUROL – 1898 a 1899

A propriedade do Castelo de Almourol foi transmitida para o Ministério da Guerra, em 14 de julho de 1898. É hoje designado pelo prédio n.º 6 do Regimento de Engenharia (Ex-Escola Prática de Engenharia) sendo propriedade do Exército Português, e é administrado pelo Município de Vila Nova da Barquinha, atento ao protocolo celebrado em junho de 2008, assinado entre ambas as partes. À data da transferência, em 1898, e conforme consta do auto de cedência, o Castelo encontrava-se em razoável estado de conservação com “as muralhas reparadas, bem como a torre central e as ameias, não havendo brechas abertas, nem prejuízo algum de recente data. O seu recinto interior, completamente descoberto, está mais ou menos invadido de vegetação silvestre que por vezes irrompe das próprias pedras”.

Os primeiros trabalhos das primeiras escavações, onde foi encontrado o espólio, tiveram lugar julga-se que ainda antes da data de posse do castelo pelo Exército e nos locais que estão escritos a lápis na planta infra, trabalhos a cargo dos então 2.ºs sargentos de engenharia, Joaquim Gonçalves, José Cordeiro, José de Paiva, Manuel de Jesus, João Alves e João Albino.

Planta com o levantamento das escavações de 1898-1899

As escavações, far-se-iam, precisamente, na zona habitacional virada a nascente e sul no interior da primeira cerca, onde existiria um pequeno agregado populacional.

É aqui que se observaram vestígios de muros de antigas habitações e suportes de telhado, remontando aos finais da Idade Média, como as duas janelas maineladas rasgadas na barbacã.

O acesso a tal núcleo habitacional far-se-ia pela porta principal, sita a poente. Existia, também, uma porta da traição, voltada a nascente, que podia servir em caso de fuga. No recinto inferior ou habitacional, possivelmente à entrada, “sobre a porta do dito castelo” existiu uma capela, sob a invocação de Santa Maria de Almourol, erguida em 1467, por Frei Rui Velho, da qual não existe qualquer vestígio.

Também se desconhece como era efetuado o abastecimento de água, pois nunca foram detetados vestígios de qualquer cisterna, apenas estando identificado um poço entulhado junto à porta da traição pelo que podemos presumir que a sua recolha se fizesse diretamente no rio.

O relatório de 1899, do alferes Luís Teixeira Beltrão, com a localização precisa dos achados, recentemente publicado, novembro de 2018, pelo Centro de Interpretação Templário de Almourol, conta-nos que as escavações no Castelo já tinham sido anteriormente iniciadas, possivelmente em 1898, pelo então Tenente Eng.º Francisco Augusto Garcez Teixeira, mais tarde Coronel, com vasta obra publicada. Aliás, este autor, sobre o espólio do Castelo, publica dois artigos na Revista Serões de Tancos, nos números 2 e 3, no ano de 1926.

Conta-nos então o relatório que nas escavações da área habitacional foi encontrado o seguinte espólio:

1899- Extrato do relatório do Alferes Luís Teixeira Beltrão

“…MOEDAS que se encontraram a todas as profundidades assim como os objetos de ferro. Ao nível -2,0 m começaram-se a encontrar os medalhões junto ao pé da parede que foi demolida e por baixo dela encontraram-se grande porção das guarnições de latão e fechos correspondendo a um nível de -2,7 junto ao espaço vazio que se abre na muralha. A um nível de -3,8 m encontrou-se a espora. Junto a este ponto foram encontrados os vasos de barro … No começo da escavação antes de serem encontradas as primeiras moedas e a um nível -1,70 m foram encontrados um botão e um fragmento de louça da Índia que estão no tabuleiro … Passando ao espaço 2 da planta no correspondente do terreno foi encontrado ao nível -1,8 m um colunelo de mármore branco que parece pertencer a alguma das janelas que [se] vêem no castelo. O resto dos objetos aqui achados encontram-se no compartimento do 2º tabuleiro que tem o número 2. As moedas começaram aí a ser encontra/das a partir do nível -3 m para baixo, assim como os objetos de ferro. Antes de chegarmos à parede transversal de 0,90 m de espessura ainda existente, foram encontrados dois cascões um ao nível -3 m outro -4m que estão designados com a forma com que ficaram na planta e corte que desenhei. Enquanto no espaço 3 e 4 do desenho são estes pontos que no terreno atingiram maior profundidade, chegando ao nível -5,80 m. Por este nível há na muralha uma porta que dá saída do castelo e por onde foram lançados os entulhos para o rio. Havia ainda uma parede transversal contruída pelos operários das obras públicas para aguentar as terras que eles para ali lançaram. Essa parede foi sendo destruída pouco a pouco à medida que a escavação ia progredindo. Só, portanto, a um nível bastante baixo é que se começaram a encontrar objetos, pois que o aterro superior era muito recente. Os objetos encontrados no ponto 3 são os que estão no 2º tabuleiro na divisória indicada por esta numeração só as moedas que [se] acharam a uma profundidade de 3 para mais. Junto ao ponto 4 na parede longitudinal há uma nascença de abóbada que diligenciei fazer ver no desenho, na parte fronteira da muralha parece também haver existido a outra nascença da mesma abóbada, pois se conhece um pedaço de muro feito de novo. Foi encontrada à profundidade de 3,17 uma camada de cinza espessa com fragmentos de madeira carbonizada. Os objetos encontrados no espaço junto do número 4 são os que estão no tabuleiro designados com este número. Compõem-se dos objetos de ferro e moedas à maior profundidade de 4,5 m para baixo.

“Placa circular – O desenho consiste em uma cercadura simples, com 2 mm e, ao centro um castelo com três torres sobre fundo de esmalte azul. Nos espaços vagos à direita e à esquerda do castelo, duas flores de seis pétalas e na parte inferior um florão de quatro pétalas. Sobreposto ao castelo, num espaço em forma de portal, um busto de mulher olhando a três quartos à esquerda, sobre fundo de esmalte vermelho. O busto tem uma coroa aberta. De um e outro lado do busto, dois pequenos florões de quatro pétalas. Os traços feitos a buril, conservam ainda o dourado. São anepígrafas e, entre todas, as de mais belo desenho e execução.” 1

Exteriormente às paredes levei também a escavação até à rocha, encontrando no ponto 5 bastantes tijolos com a forma. alguns ladrilhos   que estão no castelo, uma faiança, uma moeda que se encontrou à profundidade de 3 m e estão estes dois últimos objetos no tabuleiro e um disco de vidro esmaltado. No ponto 6 junto à esquina da parede e à profundidade de 2 m encontrou-se uma pedra com a forma de mó que está no castelo. Em cima dela foi encontrada a moeda que está no 2º tabuleiro, compartimento 6. No ponto 7 foram encontradas as moedas que estão na letra 7 do tabuleiro em todas as profundidades, excetuando-se a moeda grande que foi encontrada ao nível –3 m. Todos estes níveis dos pontos mais importantes, assim como o lugar ocupado pelas paredes demolidas estão marcados nas paredes do castelo a tinta encarnada. Tancos 31 janeiro de 1899, Luiz Teixeira Beltrão (Alferes de Engenharia)”.

Pelo relatório supra podemos afirmar que foram achadas várias moedas e modelos de diferentes épocas: 7 moedas romanas, todas diferentes. Além destas, centos de moedas portuguesas da 1.ª, 2.ª, 4.ª dinastias, entre as quais mealhas de D. Sancho I, dinheiros do mesmo rei, idem de D. Afonso III, D. Diniz,  Afonso IV, e D. Pedro I, tornezes, graves e pilartes de D. Fernando, reais IHNS e de V de D João I, reais de 10 soldos do mesmo reinado, reais pretos e ceitis de D. Duarte e D. Afonso V, cinco reis de D. Sebastião, ceitis de D. Manuel e reais de D. João IV, além de outras moedas não classificadas, alguma de prata. Quanto ao achamento de outros objetos metálicos: uma espora e 26 medalhões de cobre ou latão, alguns com esmalte, circulares ou sextavados e com diferentes diâmetros, objetos de ferro, guarnições de latão e fechos.

Medalhão de Almourol, alusivo a Cortes de Amor

“Nunca, que me conste, foram extraídas quaisquer ilações dos medalhões de suspender ao pescoço e das placas, destinadas a ornamentar os peitorais ou gamarras dos arreios, simplesmente alvo de uma nota técnica por parte de Garcez Teixeira. Três dos artefactos alusivos a Cortes de Amor, provenientes de Almourol, que se crê possam remontar aos séculos XIV e XV, são circulares, recortados em cobre e esmaltados a azul e ouro, apresentando-se os caracteres unciais das legendas, bem como os desenhos, abertos a buril. …Ao centro um cavaleiro com armadura completa, exceto o elmo, e com espada ajoelha voltado para a direita, de mãos postas. Diante de si uma dama, de pé e em cabelo, com longo vestido, levanta com as duas mãos um elmo para o colocar na cabeça do cavaleiro. À retaguarda deste vê-se espetada no solo uma lança com bandeirola triangular ostentando uma pequena cruz ao centro. Mais atrás avista-se a cabeça e os quartos dianteiros do cavalo, distinguindo-se perfeitamente as rédeas, o freio, as faceiras e a testeira. Completam o desenho uma árvore cuja copa surge sobre a cabeça do cavaleiro e uma outra mais pequena por detrás da dama. Na orla, a legenda: + AMO RVOU ME UACO FICA O CORACOM MEU.” 1

Foram achados, ainda, vasos de barro, louça da Índia, colunelo de mármore branco, fragmentos de madeira carbonizada, tijolos, ladrilhos, faiança, disco de vidro esmaltado, pedra em forma de mó, etc.

Como sabemos, no século XV existiu um violento incêndio no castelo de Almourol apresentando o relatório evidência deste facto ao referir “Foi encontrada à profundidade de 3,17 uma camada de cinza espessa com fragmentos de madeira carbonizada…”

Num artigo publicado em 2018, Maria Antónia Amaral 2 refere que “no inventário … incluímos todo o material proveniente da escavação – 198 artefactos e 444 moedas. O material suporte destes artefactos é, em cerca de 90,5%, o metal – ferro e ligas metálicas -, e apenas 9,5% dizem respeito a outros materiais – âmbar, cerâmica, madrepérola, osso e vidro. Dos 48% dos materiais em liga metálica evidenciamos os adornos de cavalo 18 medalhões e 17 pendentes- uma espora, uma agulha, arpões, uma asa de caldeirinha, uma candeia, duas colheres, um dedal, fivelas, um conjunto de garfos, guizos, entre outros; os restantes 52% são em ferro e incluem o espólio bélium machado, 8 pontas de lança e um punhal -, e outro espólio de cariz doméstico facas, maçaneta de porta, dobradiças, chave, pregos e ferraduras que atestam bem o carácter habitacional desta estrutura.

Dos restantes artefactos noutros materiais, chamamos a atenção para um cachimbo e uma pedra de jogar, em cerâmica, um disco, em madrepérola, dois fragmentos de taça, em vidro, um cossoiro e um botão, em osso, e uma conta, em âmbar que reforçam o carácter doméstico do local onde foram encontrados. Destacamos, ainda, o conjunto de centenas de numismas, maioritariamente em prata, com um largo espectro cronológico que vai do período romano a D. João IV. Por fim foram ainda resgatados ossos de animais – dentes e uma haste de veado. No que diz respeito à cronologia destes achados o conjunto maior reporta-se à Baixa Idade Média (séculos XIV-XV) mas estão igualmente presentes materiais romanos e materiais modernos (século XVI a XVIII).2

Pela classificação dos achados verificamos que muitos são resultado da vivência do dia a dia na época medieval. Uma referência peculiar, os achados ligados ao cavalo, enquanto elemento bélico essencial à época, bem como a alusão a lanças, machado e punhal.

AS ESCAVAÇÕES EM 2018

Recentemente, Carlos Batata (2018), aquando do acompanhamento das obras de arranjo paisagístico da ilha e castelo de Almourol, achou cerâmicas islâmicas que se tornam as primeiras provas de ocupação do local nos Séc. VIII e seguintes. Vejamos parte do relatório arquivado no Centro Interpretação Templário de Almourol: “No interior do compartimento onde foram colocados os degraus, a terra é compacta e a maioria das cerâmicas são islâmicas. Dado o carácter rústico das mesmas (cerâmicas semelhantes às visigóticas e da Idade do Ferro, características dos primeiros séculos de ocupação islâmica do território), não admira que os painéis explicativos da história do Castelo de Almourol falem numa primeira ocupação da Idade do Ferro, pois as cerâmicas aparentam-se. Entre o espólio recolhido nos finais do séc. XIX certamente se hão-de encontrar cerâmicas islâmicas tidas como indígenas e algumas pré-históricas. Estas cerâmicas são semelhantes às cerâmicas islâmicas de Santarém, onde o signatário teve oportunidade de fazer amplas escavações e encontrou cerâmicas com as mesmas características. A ampla experiência adquirida com o islâmico em muitas das cidades do Médio Tejo (Santarém, Torres Novas, Abrantes, Sertã, Constância) revela-nos uma presença muito forte, com muitas cidades, todas elas defendidas por castelos.”

Recorda-se que estão inventariadas obras de requalificação e conservação em Almourol nos anos de: 1933, 1934, 1935, 1938, 1940, 1941, 1956, 1958, julho de 1959 a março de 1960, 1964, 1976, 1985, 1996 3 , setembro de 2013 a maio de 2014, outubro de 2018 a dezembro de 2018, estas duas últimas já no meu mandato autárquico, e que se reportaram na intervenção na torre (sistema de iluminação, substituição do terraço, colocação de escada interior metálica de circulação vertical, musealização), beneficiação e conservação das muralhas e interiores do castelo, bem como impermeabilização e drenagem das águas, melhoria das condições de acesso do público ao castelo; requalificação do coberto vegetal da ilha do Almourol e requalificação da margem direita do tejo.

Por último, para caraterizar este lugar nada melhor que citar Miguel Torga, no seu Diário, Vols. IX a XII. “O que me vai valendo nesta penitenciária pátria é nunca perder de vista alguns recantos que nela são oásis de libertação e de esquecimento. Empoleirado no terraço desta fortaleza lírica que os Templários ergueram no meio do Tejo, debruçado sobre o abismo a deixar o rio deslizar brandamente na retina, quero lá saber se a política vai bem ou mal, se a literatura anda ou desanda, se a nau coletiva singra ou soçobra! Extasio-me, apenas. Ou melhor: numa espécie de petrificação emotiva, acabo por fazer corpo com as muralhas, e ser o próprio baluarte erguido na pequena ilha, inexpugnável a todas as agressões do real.”

1 GANDRA, Manuel J., O Castelo de Almourol, Gualdim Pais e a Cavalaria Espiritual. Roteiro da exposição, Centro de Interpretação Templário de Almourol, edição Câmara Municipal de V.N. Barquinha, 2018

2 AMARAL, Maria Antónia Atayde. Escavações do Castelo de Almourol 1898, Revista Almourol, Exército Português, n.º 6, julho de 2018

3 FURTADO, Teresa Pinto – O Castelo de Almourol Monumento e Imaginário. Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lisboa, 1996

 

 

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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