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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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“Organizem-se!”, por Nuno Pedro

Volto à carga. Volto ao tema. Porque julgo ser pertinente a sua abordagem. O trajecto percorrido tem sido longo, mas a estrada dá indícios de começar a estreitar. E continuar com a cabeça enfiada na areia, qual avestruz travestida, traduz-se unicamente no sufragar de uma política errónea, cujos resultados considero já estarem muito abaixo do limiar da razoabilidade. E não é necessário encontrar argumentos para o justificar. A realidade assim o demonstra. Os números, os tão malfadados números. Não os da quantidade, mas sim os que dizem respeito há qualidade.

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Recuo apenas há década de oitenta. Poderia ir mais longe, relevando aquilo que até essa altura muitos, entre dirigentes e treinadores, sem esquecer os jogadores, fizeram ao nível dos escalões de formação nos vários clubes do concelho de Abrantes. E foi muito. E talvez aí encontremos alguns daqueles que ainda chegaram a um patamar mais alto no futebol português, fosse em juniores ou seniores, ao contrário do que sucedeu com as gerações seguintes: Mendes Alves, António Borges, Rui Masside, Fernando Rosado, João Paulo Milheiriço, Vitor Manuel, Brandão, são apenas alguns exemplos do que atrás referi. Lembrar-lhes aqui os nomes é também uma singela homenagem que lhes presto.

Curiosamente numa época em que com pouco se fazia muito. Campos pelados, que se transformavam em autênticos lamaçais em época de chuvas, ausência de iluminação, já não falo em botas de travessa, mas andaram lá perto, bolas que pesavam quilos, ao contrário dos “balões” actuais que até produzem efeitos inadvertidamente. Ah, e os técnicos, quais aprendizes de feiticeiros, sem manuais, instrumentos tecnológicos, mas que faziam da oratória a sua principal arma. E da vontade, do sacrifício, do espírito de união, do querer ganhar. Ensinando. Mas aprendendo ao mesmo tempo.

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Mas avancemos. Até à tal década de oitenta. A minha. Aquela em que o futebol de formação me começou a ser mais familiar. Recordo. Sim, recordo. Porque não passam de recordações. As equipas do concelho de Abrantes nos vários campeonatos nacionais dos escalões jovens. Tramagal, Dragões de Alferrarede, Sporting de Abrantes, Abrantes e Benfica… e tudo sem qualquer tipo de política de financiamento, ou política desportiva ao nível do que quer que fosse.

A década de noventa deu-lhe continuidade. De forma mais ténue. Ainda assim os iniciados do Abrantes e Benfica, durante várias épocas, para além de uma passagem fugaz da equipa de juvenis no nacional, tal como os juniores do Tramagal Sport União em juniores, protagonizaram representações que em nada envergonharam o trabalho que era feito no futebol formação no concelho de Abrantes.

E se as armas de uns e outros eram diferentes. Muito diferentes. Benfica, Sporting, Belenenses, eram apenas alguns dos seus adversários que patenteavam uma superioridade evidente fruto das condições que já dispunham. Mas que, fruto de muito esforço e abnegação era por vezes encurtada. Por aqueles que pouco tinham. Mas que para eles era suficiente. Ou melhor, tinha que ser. Não havia mais.

E hoje. O que temos? Condições ímpares para a prática do futebol. Uma moderna e funcional Cidade Desportiva em Abrantes. Um campo sintético a seu lado cujo piso requer substituição. Mas que existe. Outro campo sintético em Rossio ao Sul do Tejo. Mais recentemente, três novos campos sintéticos em Alferrarede, Pego e Tramagal. Atrevo-me a dizer que ao nível de parque desportivo no que a campos de futebol diz respeito o concelho de Abrantes está hoje na vanguarda. Não só no distrito de Santarém, mas no contexto global dos municípios do país.

Para quê? Pergunta de resposta fácil: para proporcionar condições na massificação da prática do futebol por centenas de crianças e jovens. Nesses locais. Abrantes, Tramagal, Alferrarede, Pego, Rossio ao Sul do Tejo. Tudo muito acertado.

Mas será que entre essas tais centenas de jovens não encontramos forma de potenciar as suas capacidades, conquistando títulos, mormente em termos distritais e voltar a colocar o concelho de Abrantes no mapa das competições nacionais futebolísticas? Será que é assim tão difícil sentar à mesma mesa clubes e seus dirigentes na procura de uma plataforma de entendimento que permita o alcançar de um consenso generalizado visando a criação de uma verdadeira política desportiva em termos competitivos, obviamente sem descurar os tais números relacionados com a quantidade mas com preocupação pela qualidade. Parece-me que sim.

Metendo a foice em seara alheia, parece-me ter de ser a Câmara Municipal de Abrantes a entidade responsável para pôr em funcionamento esta engrenagem. Sem inquietar-se por ter que o fazer. E custe o que custar. Argumentos e instrumentos para o concretizar não lhe faltam. E como diria alguém, “vocês sabem do que eu estou a falar”.

Tudo isto porque me entristece ver o estado a que chegou o futebol de formação em Abrantes. Muitos outros partilham da minha opinião. Não o dizem. Contribuindo dessa forma para o “status quo” vigente.

Para o final, deixo uma constatação real. Não ficcionada. Em 2000, o Abrantes Futebol Clube e o Sport Abrantes e Benfica estabeleceram uma parceria em termos de equipa de escalão de juniores. Esta passou a representar o AFC com os resultados que se conhecem. Subida ascensional do distrital ao escalão máximo do futebol português, feito que só apenas foi repetido na época passada pelo Alcanenense.

Será que isto teria sido possível se ambos os clubes à época formassem simultaneamente equipas no mesmo escalão? Claro que não.

Agora pensem.

Com uma vida ligada ao futebol, particularmente enquanto dirigente, Nuno Pedro, abrantino, 46 anos, integra desde 2008 o quadro de Delegados da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e mais recentemente a direcção da Associação de Futebol de Lisboa mas, acima de tudo, tem uma enorme paixão pela modalidade. Escreve no mediotejo.net de forma regular.

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