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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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OPINIÃO: “Maioria de esquerda”, por Nelson Carvalho

Eduardo Lourenço dizia, há um par de décadas, e contrariando muitos que achavam que a soma aritmética dos resultados eleitorais de PS, do PC e do Bloco, que não havia uma maioria de esquerda em Portugal.

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É que a soma política dos votos não tem as regras lineares da aritmética. Política não é aritmética. Em política 1+1 raramente dá 2.

O que faltava à política que a aritmética tinha?

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Simples: não se somam coisas de natureza diferente ou, como dizemos, não se misturam alhos com bugalhos.

O PS, o PC e o Bloco (ou outros) não tinham a mesma natureza comum, a que permitiria somá-los num projeto de governo, numa visão para os portugueses e para  país, não tinham aquilo “de comum” que desse coerência, consistência e durabilidade a um programa de governo.

A falar é que a gente se entende, dizemos.

No caso da direita (PSD e CDS) isso parecia ser uma verdade simples, óbvia, quase “à priori”. Nem precisavam de se sentar à mesma mesa. Ainda iam a caminho  e já estava tudo assumido.

Mas na “esquerda” … bastava abrir a boca para mesmo ainda sem pronunciar palavra se perceber que a falar é que a gente de desentendia total e iremediavelmente.

Hoje não sei se Eduardo Lourenço diria o mesmo.

Os factos parece que o desmentiriam. O que mudou para que, mesmo antes de falarem, percebermos que Costa, Catarina  e Jerónimo querem evitar a contradição e o desentendimento e querem manter portas, passagens, pontes abertas e comunicantes?

Mudou tudo.

Hoje quando dizemos que o mundo está a mudar estamos a iludir-nos. O mundo já mudou e não nos apercebemos. Ou melhor: só a crise em que mergulhámos nos obrigou a ver, de modo brutal, que o mundo já não é o mesmo.

Hoje já não há capitalismo contra comunismo. Hoje já foi desfeita a ilusão do triunfo global da democracia liberal. Hoje á não existe a supremacia da Europa, dos EUA e do ocidente. Hoje á não vivemos o prestígio do Estado democrático e de direito. Hoje as autocracias são modelos de governabilidade. Hoje o capitalismo triunfante já não se apresenta risonho e progressivo mas desestabilizador, desiquilibrador, crítico. Hoje o que era fundamento de uma sociedade – trabalho assalariado, dinheiro, valor – tornou-se disfuncional e gerador de paradoxos que parecem insuperáveis.

E hoje a direita (por cá o PSD) radicalizou-se tão à direita e empobreceu de tal modo a classe média que rarefez o centro politico. E hoje o próprio PS sente que não tem centro onde suportar um governo e um programa político e reflexamente procura-o mais à esquerda. E hoje é esta rarefação do centro que abre novas possibilidades.

E depois há outros protagonistas. Costa não é Guterres nem Sócrates. Catarina não é Louçã e Jerónimo também não é Cunhal.

Acantonados à esquerda. Louçã e Cunhal afirmavam-se ideologicamente contra e como alternativa ao centro. Entre a direita e a esquerda, Guterres e Sócrates procuravam uma 3ª via.

Face a um centro diluído, Catarina e Jerónimo tornam-se uma esquerda menos ideológica e mais pragmática.

Desprovido de apoio ao centro, Costa alinha pragmaticamente numa geometria mais à esquerda.

Efeito curioso: uma recomposição à esquerda menos ideológica e mais pragmática.

Vai resultar como projeto de governo? O tempo o dirá.

Mas lá que é novo isso é. E sem retorno.

 

Ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes e ex-presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, é o atual presidente da direção do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA).
Escreve no mediotejo.net às sextas-feiras

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