Sexta-feira, Fevereiro 26, 2021
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Opinião | Mação fez tudo certo

“Que farei quando tudo arde?” As palavras do poeta Sá de Miranda ecoam na minha cabeça enquanto vejo (mais) um direto com o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, ao final da noite de quarta-feira, colete refletor vestido, olhos vermelhos e rasos de água – não sei se pelo cansaço dos quatro dias sem dormir, se pela irritação da exposição ao fumo, se pela tristeza de ver mais de metade do concelho em chamas… se por tudo isto junto.

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“E quando em paz cuidais que sois, então tudo é desfeito”, também diz o mesmo soneto, parecendo, nestes dias de tragédia, tão a propósito de Mação. Porque ali tudo estava a ser feito para alcançar essa paz. Para evitar que se repetisse uma guerra assim contra o fogo, tão brutal como a que foi vivida em 2003.

Vasco Estrela preocupado com a evolução do incêndio em Mação
Foto: Paulo Jorge de Sousa

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Se há local no País que levou a sério a questão da prevenção, e meteu mãos à obra, foi Mação. Considerado um caso modelo de re-ordenamento, constituiu as primeiras ZIF’s nacionais (Zonas de Intervenção Florestal), conseguindo que os pequenos proprietários se unissem e cumprissem os cuidados necessários no que diz respeito à limpezas das matas, por exemplo.

Além disso, a reflorestação feita depois de 2003 seguiu todas as regras necessárias, apesar de muito difíceis de implementar, dada a diminuição que implicam no rendimento, em termos de madeira. Onde antes haviam 100 árvores, só se re-plantaram 10. Houve cuidado na escolha das espécies a integrar. Abriram-se enormes corredores corta-fogo. Foram criadas equipas, sempre a postos, com máquinas pesadas, para limparem e movimentarem terras.

Mas isso, sempre avisou António Louro, vice-presidente da Câmara, ele próprio engenheiro florestal, não chegaria. Era preciso mais. E esse “mais” não estava nas mãos de Mação, mas sim do governo. Dos governos que se foram sucedendo, na verdade, pois desde 2003 desfilaram por Mação todos os ministros da Administração Interna e primeiro-ministros, elogiando em uníssono o exemplo, prometendo estudar as formas de replicar esse exemplo a nível nacional e dar meios para que uma verdadeira reforma florestal fosse posta em andamento.

António Costa esteve em mação em março passado, louvando o seu exemplo de ordenamento florestal

Os anos passaram e nada aconteceu. Só em Mação se continuou a olhar para a floresta com essa reverência que se deve ter sempre pela Natureza: amando-a, cuidando-a, mas sempre com respeito e a certeza de que, a qualquer momento, ela poderá agigantar-se e combater-nos com uma força que nenhum humano pode enfrentar.

A prevenção, sempre se soube, é a melhor arma para combater nesta guerra com o fogo. Mas não é infalível e não impede que o pior possa mesmo acontecer.

Por isso mesmo, em Mação desenvolveu-se também um sistema informático único de monitorização de fogos em tempo real (o MacFire: Mac, de Mação, e Fire, de fogo) e deram-se às populações das aldeias mas isoladas moto-tanques com bombas integradas, com capacidade de 600 litros, para que as populações pudessem fazer a sua autodefesa, caso se vissem sem apoio dos bombeiros em tempo útil.

O MacFire, premiado internacionalmente e apontado como exemplo a replicar, não tem paralelo em Portugal. Mesmo no caos de Pedrógão Grande, o seu mentor, António Louro, haveria de comentar: “Que pena tive da Sra. Ministra da Administração Interna, a ser informada da progressão do fogo em mapas em papel…”

O sistema de monitorização e de combate de incêndios em tempo real é controlado a partir da viatura, que se torna num posto de comando operacional móvel. Mas esse sistema não é usado pelos coordenadores nacionais e em Mação, tal como já havia acontecido em Pedrógão, critica-se a coordenação no terreno e a capacidade de resposta atempada à evolução das frentes. Uma vez mais, valeu a entrega extraordinária dos bombeiros, e de tantos e tantos cidadãos voluntários, ajudando da forma que podiam.

Em Degolados, uma das mais de cem aldeias espalhadas pelos 400 km2 do concelho, foi a motobomba disponibilizada pela câmara que salvou a vida de quem ali estava. Como contou António, um habitante de 48 anos, foi com essa mangueira de pressão que andou “de um lado para o outro”, a tentar apagar onde as chamas surgiam. “Foi um bailarico de um lado para o outro, de um lado para o outro”, disse aos jornalistas, explicando que contou com a ajuda de um cunhado, de um irmão e de dois vizinhos. Cinco pessoas, sublinhou, “salvaram aqui a coisa”, sem ajuda de bombeiros ou de militares da GNR.

Olhando para os 20 mil hectares ardidos (metade do concelho), e vendo todo o esforço de mais de uma década de trabalho arrasado sem contemplações, será difícil ouvir os responsáveis de Mação falarem agora com orgulho de qualquer obra feita no passado. Mas não deviam – e não devíamos deixá-los – cair no desalento.

Mação fez tudo certo. O resto do país é que está errado. E por isso olhamos para a tristeza e cansaço no olhar de Vasco Estrela, António Louro ou Saldanha Rocha ainda com mais dor. O fogo é sempre injusto, mas aqui ainda mais.

Se algum ânimo se pode tirar hoje, vendo o concelho finalmente em fase de rescaldo (embora ainda em clima de guerra, com dois mil homens exaustos no terreno e uma dezena de helicópteros a zumbir nos céus ainda enegrecidos pelo fumo), é o de não estarmos a fazer contagens de mortos e a chorar a perda das vidas dos habitantes de Degolados. E isso, há que dizê-lo, deve-se apenas e só a Mação.

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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