“Onde estão os limites da exposição pública?”, por Hália Santos

Ser figura pública tem um lado que certamente seduz. Esta ideia deve ser verdade sobretudo para quem passa do anonimato para as capas de revistas femininas. De repente, tudo aumenta: a visibilidade, a ocupação, a procura, o interesse… Talvez aumente também o dinheiro, se for uma profissão no campo da televisão que catapulte a pessoa para o estrelato.

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O pior é que há preços muito elevados que se pagam depois dos contos de fadas, dos casamentos de sonho, dos dias em que o ego está no auge. Bárbara Guimarães até pode nem desejar trocar a vida por teve por uma vida banal. Mas o preço que tem vindo a pagar por ser figura pública é altíssimo.

Há uns anos, a ex-apresentadora de televisão foi ao Jardim Zoológico com os dois filhos. Este ‘acontecimento’ não deve ter vindo nas revistas cor-de-rosa. Mas por mero acaso. Porque, apesar de ir de óculos escuros e com a cara enrolada num lenço para se disfarçar, a verdade é que as pessoas a reconheceram. Pelo menos algumas. Simplesmente porque o seu comportamento era diferente de todas as outras pessoas que passeavam com os filhos. Bárbara Guimarães, sem querer dar nas vistas, acabou por ser a pessoa mais notada.

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Bárbara empurrava o carrinho com a filha mais nova com uma rapidez pouco própria de quem passeia no Zoológico. O filho, Dinis (o primeiro menino em Portugal a pedir para ter um advogado diferente dos advogados do pai e da mãe para defender os seus interesses em tribunal), não conseguia parar um minuto em frente a um animal porque imediatamente a mãe o chamava para se despachar. Todos os outros meninos e meninas ficavam o tempo que queriam a ver os animais.

Os tiques de autodefesa de figura pública, tentando passar despercebida, acabaram por trair Bárbara Guimarães. Felizmente, as pessoas que a reconheceram naquele momento tiveram o bom senso de fazer de conta que não a viram, reconhecendo-lhe o direito a ter um momento ‘normal’ com os seus filhos.

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Às vezes, são as pessoas comuns que melhores exemplos de respeito pelos outros nos dão. Contaríamos todos que quem exerce cargos com responsabilidade acrescida fizesse o mesmo. Sobretudo, juízes e jornalistas.

Já todos sabemos das declarações que fez a juíza do processo de divórcio de Bárbara e Carilho. Diz agora o Tribunal da relação de Lisboa que essas declarações “evitáveis” não são suficientes para colocar em causa a “imparcialidade” da juíza. Não? Não mesmo?

Sendo este um caso mediático, a antiga apresentadora de televisão não só tem que enfrentar sessões de tribunal presididas por alguém que a censura, vendo o homem que certamente deseja ver longe, como tem que passar por jornalistas que, nestes casos, nem sempre atuam conforme deviam. A Comunicação Social está ávida de acompanhar cada episódio do julgamento como se de uma novela se tratasse.

Ser figura pública obriga Bárbara Guimarães a jogar o jogo com as regras da necessária exposição previamente estabelecidas. Mas onde se estabelecem os limites? E o que dizer de Dinis, a criança que ficará sempre com a certeza de que a sua confiança foi traída por alguém que contou a revistas sem jeito aquilo que disse num ambiente que deveria ser protegido?

Há uns 15 anos vários órgãos de Comunicação Social decidiram fazer um pacto em que se comprometiam “a não divulgar qualquer declaração, ou reproduzir em discurso direto qualquer informação, dos autores de sequestros, nem qualquer fotografia ou imagem dos mesmos, enquanto durarem as situações de ocupação violenta de espaços públicos ou privados”. O objetivo era claramente o de estancar futuros barricados: não tendo visibilidade mediática não valeria a pena o suposto ato de desespero.

Esta situação é claramente diferente. É verdade. Porque um eventual pacto de não noticiar não pretenderia evitar nada e implicaria prejuízos nas vendas e diminuição nos cliques e nas audiências. Mas não poderiam agora os órgãos de Comunicação Social fazer um pacto sobre litígios de figuras públicas que incluem crianças e alegadas vítimas de violência doméstica, não os abordando até que eles ficassem resolvidos?

Assim, com um pacto desses, as sessões decorreriam com a tranquilidade possível, como julgamentos de ‘gente comum’. Porque o preço a pagar por se ser figura pública não pode ser interminável. Muito menos o preço de se ser filho de figura pública! Por outro lado, seria um enorme passo na formação das gerações futuras, mostrando-lhes que nem tudo o que aparece como notícia de facto o é.

Chamem-me utópica, que eu não me importo…

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