Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Segunda-feira, Julho 26, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Olá pai! Escrevo para lhe contar novidades nossas”, por Pedro Marques

Olá pai!

- Publicidade -

Escrevo para lhe contar novidades nossas.

O Pedro Afonso já estuda no Técnico. Quer ser engenheiro aeroespacial. Tem sido um bom filho e um aluno aplicado e as notas são boas, como já eram no secundário. Já faz 19 anos em Junho próximo. A Mafalda segue-lhe as pisadas. Está alta, bonita e uma brilhante aluna, e doce, tão doce… Em Agosto já completará os 16 anos de idade. Pensamos que por essa altura deverá ser operada, porque cresceu muito depressa e precisa de ser corrigida a uma escoliose. Vai ficar bem!

- Publicidade -

A mãe também foi operada, fez uma artroplastia do joelho e já tem novamente mobilidade e está elegante, feliz nos seus 73 anos de idade. Sempre que se lembra do pai ou que há um momento festivo especial lá surgem as lágrimas de saudade que nos relembram que aqueles que amamos não morrem nunca e vivem para sempre, enquanto houver quem deles se recorde com vigor e nostalgia.

O Rodrigo e o Tiago, filhos do Fernando, também crescem bonitos e com saúde.

Do lado da Sofia o mesmo se pode dizer do Gonçalo e da Beatriz. Grandes, animados, alegres, bons filhos.

Pois é pai, são seis os netos, quatro rapazes e duas meninas. O mais velho tem 19, o mais novo 5. E o pai não chegou a conhecer nenhum. Quem tanto queria ter netos, ver os netos, conhecer os netos, brincar com os netos, educar os netos, ajudar os netos, sorrir com os netos, ensinar os netos, sentir orgulho nos netos como sentiu nos filhos, foi atraiçoado pela vida, essa cruel e traiçoeira juíza soberana. Faz hoje 19 anos. O Pedro Afonso vinha a caminho e naquele dia 3 de Fevereiro de 1997, na porta do hospital em Coimbra eu, a mãe e a Sara de volta da maca que saía da ambulância, cheios de esperança num milagre, e o Pedro Afonso na barriga da mãe, separados por 4 meses de distância, que foram longos e, contudo, tão curtos. Acabou o pai por partir à meia-noite e vinte do dia 4 e, 4 meses e meio depois, à mesma hora, a mesma meia-noite e vinte do dia 20 de Junho, nascia o Pedro Afonso. Curiosidades do destino. Era eu quem estava ao telefone a falar com a médica, a tentar saber notícias sobre o seu estado de saúde. O pai deve ter pressentido que eu estava ao telefone e faleceu durante a chamada. Credo, que violento foi. E nunca mais isto me passará.

Tenho tanta pena. Temos tanta pena. E tanta saudade. E tanta dor. Tamanha dor dilacera o peito e estala com a cabeça.

Mas não apaga a memória, nem a gratidão, nem as lições.

Hoje estou mais perto de compreender tudo o que fez por nós, e os motivos pelos quais fez o que fez, porque o fez e como o fez. Pelos filhos tudo. Procuro ser fiel a esta herança. Procuro, tento, mas sei que nunca conseguirei igualar os feitos do pai.

Tinha tanto para lhe contar, pai. O mundo está louco, as guerras imperam, os valores esboroam-se, as ideologias estão em crise, os exemplos são de mau comportamento da espécie humana. Que mundo estamos a criar? Gostaria de saber a sua opinião… O pai tinha sempre uma opinião de bom senso, equilibrada. Por vezes exagerava na forma como contava as histórias mas era esse quase-exagero emprestado às histórias e reflexões que fazia com que prestássemos atenção ao conteúdo da mensagem.

Pai: sei que não me pode ouvir mas eu, mesmo sem fé na vida depois da morte e sem acreditar na existência de céu e inferno, de almas e na ressurreição, faço por crer que estas palavras criam ressonância algures. E sabe bem lembrar aqueles que amamos mesmo depois de deixarem o nosso convívio.

Aceite por isso, pai, um beijo terno e um abraço, um abraço igual àqueles que dávamos sempre que eu fazia anos e o pai, abrindo a porta, exclamava sonoramente de braços abertos e sorriso desbragado: “parabéns filho!”. Faz-me falta um abraço desses todos os dias. Mas até podia ser uma vez por mês. No mínimo uma vez por ano. Mas mesmo que fosse só uma vez, agora, eu rebentaria de felicidade e gratidão.

A vida sem afetos é uma chatice. E eu aprendi a exteriorizar os meus. Porque isso me faz bem. E porque também conta uma parte de cada um de nós.

Beijo, pai!

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here